segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

CAI A NOITE



De passadas tristezas, desenganos 
amarguras colhidas em trinta anos, 
de velhas ilusões, 
de pequenas traições 
que achei no meu caminho..., 
de cada injusto mal, de cada espinho 
que me deixou no peito a nódoa escura 

duma nova amargura... 
De cada crueldade 
que pôs de luto a minha mocidade... 
De cada injusta pena 
que um dia envenenou e ainda envenena 
a minha alma que foi tranquila e forte... 
De cada morte 
que anda a viver comigo, a minha vida, 
de cada cicatriz, 
eu fiz 
nem tristeza, nem dor, nem nostalgia 
mas heróica alegria. 

Alegria sem causa, alegria animal 
que nenhum mal 
pode vencer. 
Doido prazer 
de respirar! 
Volúpia de encontrar 
a terra honesta sob os pés descalços. 

Prazer de abandonar os gestos falsos, 
prazer de regressar, 
de respirar 
honestamente e sem caprichos, 
como as ervas e os bichos. 
Alegria voluptuosa de trincar 
frutos e de cheirar rosas. 

Alegria brutal e primitiva 
de estar viva, 
feliz ou infeliz 
mas bem presa à raíz. 

Volúpia de sentir na minha mão, 
a côdea do meu pão. 
Volúpia de sentir-me ágil e forte 
e de saber enfim que só a morte 
é triste e sem remédio. 
Prazer de renegar e de destruir 
                                             o tédio, 

Esse estranho cilício, 
e de entregar-me à vida como a 
                                             um vício. 

Alegria! 
Alegria! 
Volúpia de sentir-me em cada dia 
mais cansada, mais triste, mais dorida 
mas cada vez mais agarrada à Vida! 

Fernanda de Castro

(A photo é minha, e o tom rosado não é filtro, é reflexo da luz no vidro da janela do carro)

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