quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

COALHADA


(Julgamento de Adolf Eichmann)

Paulo Moreira Leite é um colunista da Revista Época que, para meu gosto pessoal, nunca sofreu de dias melhores. Cada um dos seus, demonstrados através de seus escritos, é pior que o outro, mas o último dia a provar minha impressão está registrado na forma do seu artigo na revista, essa semana. Recomendo sim a leitura (clique aqui). Dentre um festival de bobagens, cometeu a excrescência de comparar o julgamento do Mensalão pelo STF ao julgamento do nazismo, e teve a cara de pau de usar de Hannah Arendt para isso. Possível que nunca tenha lido a autora. Seus leitores, aqueles que não percebem que ele serve ao deus-governo e à deusa-esquerda, servindo-se deles, com certeza absoluta nem sabem quem foi Hannah ou a importância de sua obra. 

De desonestidade intelectual em rebaixamento moral esse mundo é construído, e o Brasil do PT, muito mais e mais veloz é por ambas destruído. É aqui nessas terras morenas que há palco para imbecilidades como o artigo do de cujus na Época dessa semana. 

Para Paulo Moreira Leite, fica claro que a corrupção no desgoverno, promovida pelo PT, a quem serve a sua "opinião" de articulista, não se trata de um gravíssimo crime. É algo nobre, um "ato de estado". Não me surpreenderia se, do subtexto, das entrelinhas da dita coluna semanal, o nobre e ilustre intelectual venha a dizer, claramente, que o crime é o STF condenar a corrupção, talvez argumentado que o STF comete um atentado à liberdade de expressão contábil dos mensaleiros, que deveriam exercer livremente o direito de comprar consciências. Se o colunista resolvesse queimar a obra de Hannah Arendt no Vale do Anhangabaú, cometeria um crime menor do que fazer o uso dela para seu vil ardil de defender mensaleiros.

Não sou eu, quem me dera, que falarei para ele. Uso a mesma Hannah, justamente a mesma autora e a mesma obra da qual ele chupinhou o subtítulo: Eichmann em Jerusarém - um relato sobre a banalidade do mal. Para quem não conhece, trata-se de um trabalho jornalístico - sim, jornalístico - excepcional: a cobertura do julgamento do monstro nazista. Quem não leu, leia. Sou capaz de apostar um dedo da mão esquerda do Lula que faculdade nenhuma de jornalismo, pelo menos nos últimos 12 anos, deve sugerir Arendt aos futuros profissionais da "isenção". Não é possível que alguém tenha contato com a qualidade da autora, em todos os aspectos, e simplesmente saia por aí sendo ou lendo (e gostando) dos Moreira Leite da vida.

Como não é macho para assumir-se um doutrinador a serviço do partido que promove o mensalão, deveria, então, ao menos, ler Hannah Arendt. Leia, Mister Milk, e aprenda as verdadeiras relações do mensalão com a obra a que faz referência. Os grifos são meus.
"Existe um outro lado dessa questão, mais delicado e politicamente mais relevante. Uma coisa é desentocar criminosos e assassinos de seus esconderijos, outra é encontrá-los importantes e prósperos no âmbito público - encontrar nas administrações estadual e federal e, geralmente, em cargos públicos inúmeros homens cujas carreiras floresceram no regime de Hitler." 
"Em sua sentença a corte naturalmente concedeu que tal crime só podia ser cometido por uma burocracia gigante usando os recursos do governo. Mas na medida em que continua sendo um crime - e essa é, de fato, a premissa de um julgamento - todas as engrenagens da máquina, por mais insignificantes que sejam, são na corte imediatamente transformadas em perpetradores, isto é, em seres humanos. Se o acusado se desculpa com base no fato de ter agido não como homem, mas como mero funcionário cujas funções podiam ter sido facilmente realizadas por outem, isso equivale a um criminoso que apontasse para as estatísticas do crime - que determinou que tantos crimes por dia fossem cometidos em tal e tal lugar - e declarasse que só fez o que era estatisticamente esperado, que foi um mero acidente ele ter feito o que fez e não outra pessoa, uma vez que, no fim das contas, alguém tinha que fazer aquilo. 
Claro que é importante para as ciências políticas e sociais que a essência do governo totalitário, e talvez a natureza de toda burocracia, seja transformar homens em funcionários e meras engrenagens, assim os desumanizando. E se pode debater prolongadamente e com proveito o governo de Ninguém, que é o que de fato significa a forma política conhecida como bureau-cracia. Mas é preciso entender com clareza que as decisões da justiça podem considerar esses fatores na medida em que são circunstâncias do crime." 
"O ato de aplicar a justiça tanto ao acusado quanto à vítima, são as únicas coisas que estão em jogo numa corte criminal."
Não. Não espero que Mr. Milk absorva a verdadeira moral disso. Ele sabe. Apenas que usa conforme usou porque, simplesmente, é esse o seu interesse, sendo o interesse dos mensaleiros, do PT, do governo. A vítima, nesse julgamento, é cada cidadão do Brasil. O STF, portanto, atua na defesa das vítimas da corrupção, pelo que já começamos a respirar, aliviados, apesar dos espíritos de porco que azedam e talham as noções de Justiça nestepaiz.


5 comentários:

  1. A ressalva que faço é a de que o PT tem muito menos defensores do que o PSDB, cujos desmandos estão ficando no esquecimento.

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    1. O fato d PSDB quando governo ter cometido atos de corrupção não dá o direito de nenhuma agremiação política de cometer outras falcatruas, nem mais nem menos graves. Isso parece conversa de criança birrenta que se acha no direito de fazer coisas reprováveis só porque o Joãozinho também fez. Quem cometeu crimes, que sejam julgados e recebam a condenação ou absolvição por parte da Justiça. Criminoso tem que pagar por seus crimes, sejam eles do PT, PSDB, DEM, PP, PR, PSOL, PDPQP.

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  2. Com a "banalidade do mal", Harendt mostrou o quanto um simles burocrata, que beijava seus filhos à noite e se considerava um bom cidadão, pode praticar crimes hediondos. Aí o horror.

    César

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