segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

MEU BEM, MEU MAL

"A bola que lancei quando brincava no parque 
Ainda não tocou o chão." (Dylan Thomas)


Já tive momentos em que desejei dominar fácil e amplamente as letras, a escrita, tal como domino o fogão. Ali eu mando bem. Na escrita, falta-me tanto que não sei precisar nem o quanto, nem o quê. Mas o fato é que cozinhar e escrever, sempre ouvindo música, numa viagem, uma metaviagem de ambos os "ofícios", é o que me resgata da vida exterior que incide e reflete na minha, interior. É o que me salva de mim mesma. O princípio de ambos é similar: são experimentos, alquimias com as referências da minha história em  misturas com os aprendizados, novas criações, riscos. E a minha entrega total a ambos. Na cozinha, tem dado muito certo, mesmo.

Para cada texto que publico, há pelos menos outros quatro que guardo. Alguns, penso que pode chegar o momento de soltá-los. Outros, tenho certeza, que esse momento jamais chegará. A não ser... bem, deixa pra lá.

Intuitivamente, também gosto de escrever poemas, que nunca, jamais passam disso mesmo, pura intuição. Não estudo, não conheço as técnicas, não domino a teoria da construção dos versos. Apenas aprecio a métrica, porque a verdade é que eu penso assim. A estrutura do meu pensamento é como as de poemas e quando estou falando com um ou mais interlocutores com os quais eu me sinta absolutamente à vontade, solta, "em casa",  é assim que falo, também. Inverto frases e obedeço uma métrica quase melodiosa. Dá trabalho raciocinar quando preciso fazer uma apresentação, ou mesmo argumentar numa reunião: tenho que traduzir meu pensamento-poema em prosa. Bem, rascunhando exatamente o que me vem à mente tão logo eu pense, nascem os versos que passei a publicar, um por dia. E, ao contrário de Maria Bethânia, publicar um poema por dia (sendo meu ou não) não é um negócio, muito menos à custa de recurso público, como nada no Veneno Veludo é patrocinado por outra coisa diferente da minha vontade de escrever ou publicar os textos que autores generosamente me enviam.

No início mais, mas ainda vem causando surpresa em muitos que me conhecem em prosa a publicação dos poemas. Expor-me através da poesia é um risco maior que qualquer prato que criar qualquer receita na minha cozinha. Há uma certa curiosidade sobre seus motivos, personagens, relatos descritos no verso do dia. Curiosidade que inexiste em quem lê meus artigos e crônicas, porque poesia remete a algo mais personalizado. Mas muitos poemas nada têm a ver comigo, diretamente. Às vezes, surgem  de uma troca de mensagens via Twitter que leio, pode até nem ser comigo, entre duas ou mais pessoas, e algo na conversa me faz lembrar de algum poema ou autor, e me motiva a escolher, para o post da noite. Outras vezes, um sentimento perdido que esteja latente em mim, e ao ler certa frase, me toca. 

Acontece muito de eu "escrever" num post-is mental antes mesmo de me levantar da cama. Esses, podem vir de uma conversa muito particular tida à noite, ou com o "bom dia" de todo dia. Podem surgir versos de algum disparate que leio quando pego meu BlackBerry na cabeceira, ao acordar. Se "visito" o que escreveu alguma mente torpe, que mostra uma vida virtual desprovida de realidade, podem surgir palavras em resposta à insana máscara que tortura a vida como ela é, a favor de uma surreal, inexistente, falsa, mentirosa. Esses são os meus nada modestos arroubos de desejar possuir o estilo de Homero, algo de Dante, quem sabe, para registrar de forma épica as vilanias mesquinhas do ser humano que se pretende um igual. 

Ah, sim, referências são importantes: somos o que lemos na vida, e é impossível não me deparar, eventualmente, com uma citação ou verso em que até me preocupo: será que saiu mesmo da minha inspiração ou eu li isso em algum lugar, que não me recordo? Igual a de inventar um prato com ingredientes que não constam em uma receita original, mas que foi apreciado em algum momento da vida, num restaurante mundo afora, e quando me dou conta, estou repetindo a criação de alguém em minhas panelas. São riscos de quem observa muito, e experimenta muito.

Nessa incursão pela poesia, já publiquei sugestões de amigos, já publiquei poemas de autoria de amigos (alguns sob pseudônimo, pois assim desejaram, outros com o próprio nome). Publiquei poemas que eu recebi, via comentários do blog ou e-mail. Já me inspirei  no trabalho de alguém que considero relevante, e que encontrei referência em um ou outro poema, seja pela ação em si ou pela personalidade da pessoa: é uma forma de homenagem, ainda que só eu a identifique. Também já escrevi alguns, exatamente dessa forma e por tal motivo. Se a fonte da inspiração é inatingível, uso minhas palavras, as que me salvam ou me condenam, para homenageá-la apenas com a minha consciência, pois bem sei que as minhas são palavras são insuficientes para tocá-la.

Em "Sobre o Ofício do Escritor", Arthur Schopenhauer eternizou: "A palavra do ser humano é o material mais durável. Quando um poeta encarna sua sensação mais fugaz com palavras adequadas, ela vive nestas por milênios e volta a despertar em todo leitor sensível." Quando leio comentários de leitores que demonstram gostar de algo que eu tenha escrito, lembro-me dessa passagem e penso: ainda há o que fazer, e vou perdendo o acanhamento de publicar. Mesmo que minha bola toque o chão logo, e cada dia a menos de vida é um dia a mais em que eventualmente desejo que esse momento não tarde, para o bem ou para o mal ainda restarão as palavras que já foram, por mim, ditas. 

1 comentário:

  1. Querida Regina:
    A cada dia você se supera, os seus textos são cada vez mais maravilhosos ....
    Agradeço a Deus por ter-me dado a oportunidade de conhecê-la, mesmo que apenas virtualmente ....
    Um dia, lá no futuro, poderei contar para os meus netos que sou seu amigo, e eles ficarão horas e horas lendo o seu Blog, e indicando para os amigos ....
    Um beijo no seu coração !!
    Cheers !!!!
    @BobWebBB

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