sábado, 23 de fevereiro de 2013

A EXTINÇÃO DA MISÉRIA E O POPULISMO COMO IDEOLOGIA

(Photo: Celso Junior/ÉPOCA)

Duas publicações que li antes do alvorecer deste sábado e que, à primeira vista não dispõem de relação alguma entre si, me fizeram amanhecer desgraçada da minha cabeça, como dizia o Alborghetti.  Primeiramente, o artigo semanal publicado na Folha de São Paulo, da senadora Kátia Abreu, entitulado "O Papa e a semântica", em que ela traça um paralelo entre a renúncia papal e os rumos da esquerda e direita que, em se tratando de política ocidental, fundamentalmente, deve-se tender ao centro, "uma vez que extremismo e radicalismo irracionais, que já causaram muito desastre e muita dor à humanidade", conforme defende. Depois, a matéria esclarecedora - como tem sido a tônica da publicação - da Revista Época dessa semana, A miséria mora ao lado, narrando que, na "semana em que a presidente Dilma anunciou o fim da pobreza extrema no país, famílias que ganham Bolsa-Família catavam comida no lixo da Esplanada - o que nos leva à pergunta: o que é ser miserável no Brasil?". 

Há, e daí porque a matéria supra citada é esclarecedora, um enorme abismo entre a forma de governo, que nada mais é que apenas uma eterna campanha eleitoral da presidente Dilma e dos 10 longos anos do PT no poder, realizando milagres sócio-econômicos à base da propaganda oficial e da publicidade oficiosa exercida pelos genuflexos da imprensa que se limitam a propagar os releases sem questionar os efeitos (ao contrário do excelente choque de realidade que faz a Revista Época), em contraponto às cenas reais das ruas, por onde se descortina a não-extinção de extrema pobreza alguma, caracterizando assim os  excessos na afirmação da "falta de miséria" em solo tupiniquim.

A base ideológica da história do PT deu-se sobre o marxismo stalinista, mas este apenas alçou o poder, com a primeira eleição de Lula em 2002, no momento em que despiu-se da roupa de eterna luta do trabalho contra o capital e internalizou Joãozinho Trinta com sua máxima "quem gosta de pobre é intelectual", travestindo-se do velho populismo de outras eras ao defender que o povo é feliz se consumir supérfluos, porque é bom, a que custo for. Populismo mascarado outrora, agora oficializado como slogan de pré-campanha da reeleição de Dilma: "Do povo, para o povo, pelo povo".

Essa mística de "povo" foi criada exclusivamente pelos seguidores de Marx que descendem dos tupis-guaranis. Não vem do marxismo de raiz, é típica do comunismo-socialismo brasileiro, justamente pela falta de classes sociais pré-marcadas conforme exige o modelo marxista: aqui não há nem uma "burguesia", tampouco uma "classe operária" plenamente definidas. "Povo" é conceito indefinido próprio de uma ideologia "sem ideal" demarcado,  exceto a da mordomia rica para membros do partido (e/ou governo), sempre garantida pela corrupção congênita, e que governa fazendo revoluções um tanto vagas: o fim da miséria é apresentado pelo Governo Federal como um feito revolucionário histórico, mas a realidade nua das ruas prova o seu oposto. Como se não bastasse, em outro lado, o que houve foi uma redução de expectativas. À classe média, conforme esta deveria ser, é impossível hoje escapar dessa realidade: é uma classe sócio-econômica que deu para trás, cedendo lugar à "nova classe média" que não escalou a velha pirâmide por merecimento, mas por decisão governamental. 

Aqui, o governo brasileiro decide que tudo é realizável por canetadas eleitoralmente políticas - sem lastro, sem crescimento palpável - às costas desse mesmo povo - todos somos pagadores de impostos - em benefício de suas clientelas que lhes garante a permanência no poder: são, tanto os grandes grupos empresariais sócio-dependentes do BNDES, quanto a "nova classe média" criada pelas mesmas canetadas que estabelece-se pelos índices de consumo e não pelo lastro de uma formação educacional com reflexo na capacidade profissional de ascensão à melhorias substancialmente duradouras em sua qualidade de vida.

O Brasil escapa da esquerda e da direita não em sentido do centro, mas cai direto num populismo lulo-dilmista, que nos custa caríssimo, em nome de um nacionalismo jeca e da fraternidade paternalista de igualdade aos miseráveis, que nessa semana que passou tornaram-se não miseráveis por decreto, a R$ 2,74 por mês. O que equivale, em média, a 7 pãezinhos a mais em trinta dias. Sem dúvida, para os teóricos e práticos do governo brasileiro, é possível não ser miserável por comer 1 pão francês a cada 4 dias.

O que questiono - tão somente porque me questiono - é se não é justamente a falta de uma direita e uma esquerda que de fato sejam o que devem ser que nos fez cair nesse abismo populista peculiarmente bronzeado com o sol que nos banha aqui nos trópicos. Concordo que o mundo tende ao centro. A principal democracia potencialmente influente tanto do ponto de vista da sua fundamentação - respeito às liberdades individuais e à Constituição - como do ponto de vista de potência econômica, os EUA, na era Obama, deu a sua guinada ao centro - sendo que os moderados tanto do Partido Republicano quanto do Democrata é que decidiram a eleição. Mas para nós aqui no Brasil que nunca fomos nem uma coisa nem outra, não sê-lo por incapacidade ou falta de lideranças me parece trágico. 

É preciso que me convençam de que a ausência de forças eqüidistantes da teoria política é aplicada no país por uma opção consciente de que este seja o melhor caminho. Não sei qual é a resposta correta, se há uma, que diga quem tem razão: se a senadora Kátia Abreu ao defender a extinção do radicalismo, ou se não ser nem uma coisa, nem outra, por uma visível incapacidade teórica e prática de premissas da política como ciência. O que sei é que, dizem, a esperança é a última que morre, mas no que me diz respeito, ela agoniza na razão direta da realidade de CorruPTópolis. Por ora, eu continuo desgraçada da minha cabeça, a imaginar o quão nenhum de nós, eleitores brasileiros, temos consciência de carregar uma sobre o pescoço, capaz de, por tanto pensar, também ficar desgraçada do juízo.

3 comentários:

  1. Querida Regina

    Se pensarmos no último discurso do #LulaImpostor, foi claro como água: Acabamos com Direita,Esquerda,Meio. PT aprendeu a fazer alianças para todos os lados e assim vai continuar com Dilma para 2014.
    Brasil e eleitores terão que escolher entre a continuidade da Corruptópolis de direita,esquerda e meio ou acreditar (a tal esperança) que uma figura da Decensópolis (Terra da Decência) desponte como luz no fim do túnel.

    Marisa Cruz

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  2. Sempre enriquecendo com conteúdo e lucidez. Blog que acompanho e admiro.
    Hugo Wolff

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  3. Zinha Bergamin (@Lelezinha_09)23/02/13, 20:22

    O pior,amiga Regina, que além do povo não saber (e nem estar interessado em saber) o que seja "esquerda,direita,centro" etc,ninguém tem noção do que seja uma coisa ou outra, porque votam em pessoas,não em partidos,(menos os petistas), e se interessam apenas pelo próprio bolso!

    Estamos vivendo sob uma Vergonhosa Propaganda Enganosa! Mas uma Imensa Propaganda Enganosa! Já vi petistas "gritando" como o Brasil melhorou na "era Lula",como o povo enriqueceu, cresceu em educação,como agora a Universidade é para todos,e blá blá blá...

    Desanima muito os que não são cegos e nem passaram por lavagem cerebral...
    Sabe o que me faz lembrar? Uma frase da música do Chico,onde ele dizia:"Quem brincava de princesa acostumou na fantasia..."

    Esse povo foi tão doutrinado, que acabou acreditando na pregação dos espertos!
    Pobre País! Pobre de nós que ainda temos lucidez,mas não temos gente e nem meios para mudar o status quo!

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