quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

DEPOIS DAS CINZAS



Sobrevivemos ao Fim do Mundo, aquela promessa de espetáculo maia que decepcionou-nos como um retumbante fracasso apocalíptico às vésperas do Natal. Igualmente passamos pelas festas de fim de ano, ao espoucar da champanhota de R 9,90 que de tão doce é apenas dor de cabeça engarrafada, mas que ajudou na disposição da "nova classe média" fotografar a queima de fogos que assiste pela TV e postar no Facebook como se estivesse in loco, gastando os tubos num 5 estrelas no Rio de Janeiro, glamour puro. Passamos pela Festa de Momo, seja pulando e sambando ou totalmente alheios ao Carnaval. Cá chegamos, no dia seguinte ao das Cinzas que, como todos sabem, é quando a ilusão desaparece na quarta-feira e a fantasia tem que voltar para o barracão. 

Para muitos desses sobreviventes o ano começa agora, graças ao ditado tupiniquim de que aqui nessas terras sub-equatoriais entre os rios e montanhas e o mar, o ano só começa quando o carnaval passar. Até o carnaval, a "massa" fica entorpecida. Pois bem, agora estão gritando as contas a pagar, vem a realidade dos carnês de crediário acumulados - que se atrasarão por conta das "biritas" a mais no feriadão e da já comprometida renda com outros parcelamentos usados para comprar o que sequer era necessário. Para mim, ainda não é ano-novo. O meu ano, impostuinte consciente que sou, inicia-se depois de decorridos cerca de 150 dias, que é tempo em que toda a nossa capacidade de produção é destinada exclusivamente para o sustento do estado e sua máquina (inerte, inútil e cara) de governo. 

E o governo? O que esperamos do ano-novo do governo? Vamos comemorar a volta da inflação, o terror de novos prejuízos na Petrobras, o horror, o horror¹ das mortes nas filas do (não) atendimento do SUS. A mesma estatística alarmante de assassinatos como uma das mais altas do mundo. Vamos esperar novo rombo nas contas públicas em novos números fiscais mascarados por Mantega e companhia. O rosário de sempre, já que nada muda no país. Nem a corrupção. Ah, a corrupção...

Hoje, o estado através dos seus agentes governamentais e partidariamente aliados investem contra aquilo que a sociedade mais tem demonstrado desejar, ainda que de forma incipiente: combater a corrupção, posicionando-se contra a impunidade que sempre foi a ordem do dia. O julgamento do mensalão e a conseqüente condenação dos criminosos ali envolvidos teve um efeito pedagógico sobre a sociedade brasileira. Toda pedagogia democrática aproxima o indivíduo da cidadania, e um case recente deixa isso claro: a revolta popular manifestada nas redes sociais pela recondução de Renan Calheiros como presidente do Senado, a Câmara Alta do Congresso Nacional, em forma de uma petição online defendendo seu impeachment. Como manifestação de desagrado ao status quo, o referido exercício é excepcionalmente positivo. Como medida real e prática, no entanto, todos os que se envolveram na "mobilização" já sabem, a essa altura, que não tem valor legal algum. Além de uma reflexão sobre tal conjuntura, vejo aqui um desafio. Um senhor desafio.


Recentemente, a revista Isto É trouxe à luz das palavras os fatos que já se descortinavam e eu mesma tratei de contá-los bem antes, sobre os planos de vingança de Renan Calheiros contra o Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, por este ter ousado denunciá-lo ao STF por crimes que, apurados, reuniu provas que Sua Excelência o senador, cometeu. Para isso, sacou dos aliados pró-impunidade de sempre, como o ex-presidente e também senador Collor de Melo, para disparar de diversas formas os rancores contra o trabalho de Gurgel em particular, do Ministério Público Federal, em geral. 

Pois bem. Ao presidente do Congresso cabe determinar o andamento das propostas examinadas nas Casas. Corre por lá a famigerada PEC 37, a PEC da Impunidade (veja box à esquerda) que pretende retirar todo poder do Ministério Público em substanciar os processos criminais com provas necessárias, dentre outras características.

Evidentemente que Renan Calheiros utilizará, sob "O silêncio cúmplice do Senado", a aprovação da PEC 37 como uma das ferramentas de retaliação. Isso posto, torna-se claro para mim que há um cenário maniqueísta bem à nossa frente. O bem contra o mal, e não tenho dificuldade alguma em classificar, neste caso, quem representa qual lado. Pois bem, faz-se óbvio que qualquer medida que favoreça a impunidade tão desejada por todo perpetrador de crimes, a saber os do colarinho branco, imediatamente corre em oposição aos interesses nossos, as pessoas de bem, que gritam e clamam por Justiça, por punição, por uma limpeza ética na política nacional. 

Além de toda a ofensiva de difamação através de várias formas e frentes como tentativa de enfraquecimento e desmoralização pública do MPF e de Roberto Gurgel, a ameaça neste caso é contra toda a sociedade, aflita pelo combate rápido e eficaz contra a corrupção. Este é o ponto convergência que vejo com o caso da mobilização do "Fora Renan". Todo aquele contingente de quase 1 milhão e 500 mil cidadãos que assinaram o abaixo assinado pelo impeachment de Renan têm, ao meu ver, o dever moral de também assinar a petição contra a aprovação da PEC 37. É incoerente que não o façam, e este é o meu desafio: o crescimento das assinaturas na petição contra Renan foi orgânico, natural? Ou inflado por interesses de um grupo que tem a vice-presidência daquela Casa de Leis? De quem é a ferramenta onde o jovem bem-intencionado hospedou sua petição? Ponto, volta a linha, parágrafo, porque tem mais.

Que nos questionemos a nós mesmos e aos outros que gritam contra Renan, porque não nos posicionamos ao lado daquele(s) - institucionalmente falando - a quem Renan mais deseja prejudicar, combater, desmoralizar e inviabilizar, justamente porque ameaçam sua condição, até hoje intocável, de impunidade? Se não soubermos responder, certamente que os incoerentes somos nós e os Renans da vida política da Nação é que estarão certos. E como até hoje tem sido, vitoriosos. 

Depois das Cinzas, com qual dos lados seremos coerentes? Entre o bem e o mal, é apenas questão de escolha.


1. Frase dita pelo Coronel Kurtz (Marlon Brando) no filme Apocalipse Now.

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