segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

PELA AMÉRICA LATINA: CARTAGENA DOS FORTES

Ilustrações: Balcones de Cartagena e Palma in Fuego, de Patricia Quintero-Pinto



CARTAGENA DE INDIAS

Como diz a música de Groover Washington Jr: We saved the best for last..., e isto significa CARTAGENA DE INDIAS, um “dervixe” da minha memória e dos tantos filmes de pirata da década de 50 e da minha infância. Quando comecei a planejar minha viagem, Lima seria a última cidade a ser visitada, pois achava que 15 dias seriam suficientes para “o descanso”, mas minha curiosidade histórica seguia navegando sua “rebeldia aventureira” e disso nasceu a certeza de que se não chegasse ao Caribe e em especial a Cartagena não estaria satisfeito de todo. Por que não mais uma “perna de voo” e a perspectiva de muita salsa, praia e sol? Isso é que são “férias de verão”...


Não há como entender o sucesso da América Espanhola Sulamericana sem se conhecer a importância logística histórica e heroica de Cartagena e seu complexo de fortificações. Desde a chegada dos primeiros exploradores/ colonizadores às novas conquistas evidenciou-se a existência de ouro e prata através de decoração e artefatos que eram usados e ou foram encontrados, tanto na cultura asteca (México – 1519), na Inca (Peru – 1532), como na Sinú (Colômbia – 1533) e por isso a cidade foi fundada em 1533, começando com 200 habitantes dedicados à escavação de tumbas da antiga e extinta cultura local, o que acabou por atrair muitos piratas e aventureiros. Com o fim desse espólio a cidade praticamente desapareceu e a grande maioria remanescente passou a dedicar-se à agricultura.

Foi a partir da mineração após a descoberta e colonização do Equador (1534), Bolívia (1535) e Chile (1540), que a cidade retomou sua expansão, sendo que nessa época foi fundada Bogotá, uma base de apoio à Rota Andina, mas a maior parte do produto da mineração de Peru e Alto Peru (Potosi – Bolívia) era transportado por mar até o Istmo do Panamá e dali para Cartagena, com o mesmo acontecendo com a produção da Venezuela e então desde Cartagena até a Espanha. Estima-se que as minas de Potosi, aonde a montanha chegou a ser rebaixada “centenas de metros”, chegou a fornecer 60% da produção mundial de então, sendo dali extraídas 40.000 ton/métricas de “prata pura”, o que rendeu à Coroa Espanhola 8.000 ton/métricas em direitos de exploração e que provocou na Europa a observação do “primeiro fenômeno da Inflação”. Não consegui estatísticas sobre a exploração de ouro, (Chile, Peru, Colômbia e Venezuela) e esmeraldas colombianas, encontradas nas cercanias de Bogotá em 1537. Cartagena foi também um importante “porto negreiro”, provendo mão de obra principalmente à mineração.

Tanta riqueza atraiu desde os primórdios a “cobiça pirata”, quer a licenciada pelas Coroas Francesa e Inglesa, quer de bucaneiros aventureiros, sendo atacada e devastada em 1563 pelo francês Roberval, quando iniciou a construção de suas primeiras fortificações e poucos anos depois por Martin Cote de Biscaia. Em 1586 foi a vez de Sir Francis Drake que cobrou um resgate de aproximados 200 milhões de dólares atuais. Após este desastre a Espanha começou a investir pesadamente na defesa da cidade, contratando para isso os mais renomados arquitetos militares europeus e estima-se que o investimento total entre 1610 e 1810 foi da ordem de 56 bilhões de dólares em valores atuais, (11 km de muralhas e o Castelo de San Felipe de Barajas, que ilustram a matéria. O mar chegava até às muralhas em ambas as fotos). Após isso Cartagena tornou-se inexpugnável.

Chegamos à multirracial e principalmente, à “cidade mais negra” da Colômbia na tarde de 7 de janeiro, quando a cidade comemorava ainda a Festa de Reis e intuitivamente de imediato me senti em “casa”, sensação esta posteriormente justificada pelo igual burburinho das ruas, a salsa tocada a todo volume,  gente festeira por todas as partes e a “comida de rua”, quase baiana, mas não tão “quente”. A pesquisa corroborou que o tráfico de “escravos mais dóceis” foi ali introduzido pelos portugueses durante o reinado de Felipe II de 1580 a 1598, (Reino Unido Portugal e Espanha) e certamente oriundos das mesmas tribos africanas. Cartagena, certamente faz abraçar baianos e cartageneros muito fortemente em seus laços étnicos, culturais e condições socioeconômicas.

A cidade, agora incentivada pelo turismo, começa a conhecer um “boom imobiliário” com a construção de altos edifícios para hotéis e de apartamentos, não só face ao consistente crescimento econômico colombiano dos últimos 10 anos, mas principalmente após o levantamento de “restrições de segurança” de sites especializados, pela redução da violência, e enfraquecimento de um cartel de drogas local atuante por muitos anos, o que tem evidenciado e valorizado o Caribe Colombiano, que conta ainda com a Ilha de San Andrés, o carnaval de Barranquilla e muitos outros “paraísos caribenhos”.

Foi em um passeio de barco que conhecemos a Isla del Encanto, a 2 horas de Cartagena, passando pelas impressionantes fortificações de Boca Chica e em uma ilha próxima mais adiante um “castelo” do traficante Juan Carlos Abadia, de tão “triste referência” para a Polícia Civil de SP. Na ilha nos alojamos em uma barraca de praia próximos a dois casais venezuelanos, com quem nos certificamos dos fortes laços que os unem aos colombianos e que não resistimos à curiosidade de perguntar-lhes da “Venezuela de Chávez”. Eram pai e filho, corretores de seguros em Caracas e nos disseram que hoje a “classe média venezuelana” e a oposição encontram-se sitiadas e imobilizadas pelo Governo de um lado e as “classes mais pobres” do outro num confronto entre “nós” e “eles”. 

As condições sociais atuais são de carestia, altíssimos índices de criminalidade, estagnação econômica, forte e crescente processo de estatização, falta de infraestrutura, principalmente de energia, (os apagões por racionamento são cada dia mais longos), sucateamento da PDVSA, exploradora exclusiva da maior “reserva mundial de petróleo” e sua maior e exclusiva fonte de riqueza, (Petrobrás deles), que chega a parar por falta de energia e obsolescência operacional e principalmente o aparelhamento do Estado com acusações diárias de corrupção e favorecimento. Não é clara e tampouco inteligível para eles a política chavista de suprimento de petróleo a baixo custo a muitos países, enquanto as carências venezuelanas são colossais. 

Um programa habitacional para satisfazer a necessidade de 2,5 milhões de habitações teve até agora a realização de 325 mil e a projeção de outras 325 mil, que não são realizadas por culpa “deles”. A oposição venezuelana imprudente e irresponsavelmente cometeu uma “omissão terrível” ao não apresentar candidatos à eleição legislativa de 2005 e com isso entregou um “mandato de ditador” a Hugo Chávez, que se outorgou de todos os direitos, até o de ter um Congresso e uma Suprema Corte para chamar de “tudo meu” e com isso a de “calar” as opiniões dissidentes. O que mantém alguma aura de democracia à Venezuela é que a liderança maior de Chávez está sobre Caracas e o restante do país propicia resultados eleitorais como o de 2012.

A Venezuela de hoje não é “bolivariana”, é “chavista” e a grande preocupação é o que será o “país sem Chávez”, hipótese cada dia mais iminente, pois não existe “outra liderança”, que o rivalize em “carisma e feitiço” sobre as massas. À minha pergunta: Que pasaria com la muerte de Chávez ?, responderam-me: Dios proveera lo mejor a Venezuela...
...
“Quienes proveerán ló mejor a la América del Sur”. Com esta desconfortável e incomodada certeza retornei ao Brasil.

Photos: acervo do autor

Antônio Figueiredo é o @ToniFigo1945, mas para os velhos de guerra das trincheiras virtuais, ainda é o Chumbo Grosso, agora, um especialista em Latinoamericanidad!

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8 comentários:

  1. Caro Chumbo

    Parabens por trazer o cotidiano destes Povos da América Latina. Ler, analisar e chegar a uma conclusão não Doi e tira as teias de aranha do cerebro, rsr

    Sempre me pergunto por que povo latino americano precisa de Salvadores populistas do *Toma Lá e Obedeça* ao invés de Governantes com Objetivo firme para o Desenvolvimento Humano e assim transformar os Feudos do Sec.XXI em Países de Verdade.

    Marisa Cruz

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  2. Um pouco mais tarde, a cidade tinha menos de 2.000 habitantes e uma igreja. A fama aumentando dramaticamente de riqueza da próspera cidade transformou-a em um local de pilhagem atraente para piratas e corsários - Corsarios Franceses e Inglêses licenciados Pelo Seu Rei. 30 Anos Apos sua Fundação, A Cidade FOI saqueada Pelo nobre Francês Roberval Jean-François. A Cidade começou a reforçar SUAS Defesas e cercando-se com Compostos de Paredes e Castelos. Martin Cote, um basco de Biscaia, anos depois atacou. Poucos Meses apos o desastre da Invasão Cote fazer um incêndio que destruiu a Cidade forçou a criação de hum Esquadrão de Combate a Incêndios, o primeiro nas Américas.

    A Bem da Verdade.

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  3. Recuperando e ampliando a memória de minhas aulas de história e, por que não, de estória também...

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  4. Aula perdida possivelmente na escola, e felizmente recuperada aqui. Adorei.
    Parabéns, bjs

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  5. Zinha Bergamin (@Lelezinha_09)25/02/13, 18:46

    Como sempre,uma aula enriquecedora! Quanta história!

    Sem querer,a gente fica apenas "conversando com o próprio umbigo" e desconhece detalhes ricos sobre assuntos que nos foram apresentados nos tempos escolares,mas que, na nossa imaturidade,tanto etária como intelectual,não nos demos conta...

    Mto bom ler você,meu amigo. Vou esperar mais textos enriquecedores assim!

    Bjs!

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  6. Um dos poucos lugares que tenho curiosidade de conhecer na "nuestra américa" é justamente Cartagena. Acho que a culpa é de Gabriel Garcia Márquez. E você a aumentou.

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  7. opcao_zili25/02/13, 20:02

    Belíssima descrição que me lembrou,tb, os filmes de piratas.rsss Triste constatação do caos venezuelano. Meu sobrinho desaconselha qualquer visita por lá. Perigosa demais. Ficou com muito medo de não poder voltar. Triste

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