segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

PELA AMÉRICA LATINA: O QUE É QUE A COLÔMBIA TEM


(Los Musicos, de Fernando Botero)

CHRISTOPHARUS... COLÔMBIA

O voo de Lima para Bogotá na antevéspera do Ano Novo transcorreu tranquilo com uma escala em Quito (2800 m), que “visitei” pela janela da aeronave em um sobrevoo circular obrigatório para alcançar sua pista de aterrissagem, mas o suficiente para constatar que estávamos sobre uma “outra” Cordilheira dos Andes. As fraldas das montanhas circundantes são cobertas por florestas emoldurando retângulos cultivados, que mostram afloramentos basálticos determinantes da boa qualidade do solo. A cidade vista do alto não denuncia a existência de ocupação desordenada das encostas. Cumprida a escala rumamos para Santiago de Cali (1000 m) entre a Cordilheira Colombiana Ocidental e a Central onde faríamos a “conexão” para a “perna final”, Bogotá. 

Nessa etapa não pude deixar de olhar para baixo e me lembrar de uma “pegadinha” da minha professora de Geografia do primário: se um pato botar um ovo na fronteira do Brasil com o Equador, a quem pertence? Sessenta anos depois, rindo gostosa e mentalmente, respondi: “Fessôra, ou às FARC ou nem vão perceber que um milagre aconteceu”. É a quase virgem Floresta Amazônica Peruano/Colombiana, que se interpõe entre Brasil e Equador e onde vivem apenas 11% dos peruanos e 3% dos colombianos. Generosa e bendita Cordilheira, que derrama tanta fauna, flora e rios para Brasil, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia e o único e verdadeiro espírito de “sudamericanidad”.

A chegada à Cali, como é comumente chamada, (Tribos Calima, descendentes dos Chibchas, os nativos que mais resistiram ao colonizador no Vale do Cauca), aconteceu após um sobrevoo de aproximação sobre extensos campos de cultura, que não soube identificar e me surpreendeu a informação de que fossem de cana de açúcar. Ali existe um importantíssimo polo sucroalcooleiro, inclusive orientado para etanol automotivo, além do plantio de café de altitude (acima de 2000 m) e pecuária de corte de qualidade comparável a existente no Uruguai e Argentina e que foi o “bife de chorizo diário obrigatório” em todas as noites de Cartagena. Foram três horas de “bunda irrequieta e pés sapateando” nos bancos do aeroporto, pois a cidade é considerada a “cidade baile” da Colômbia com muita “rumba” (salsa) no ar e o “calenho”, além de caloroso é muito comunicativo. 

A região tornou-se conhecida menos por sua atividade festeira, econômica e pelos Jogos Panamericanos de 1971, que pelo Cartel de Cali que dominou a região de 1970 a 2000. Indaguei um motorista de taxi na mesa ao lado sobre os resultados da Cooperação USA x Colômbia, que retrucou que hoje o cartel e o tráfico internacional não existem mais em Cali, pois o país passou de exportador a consumidor de drogas, cada dia mais barata e diversificada, (existe por uma mais barata que o “crack”, residual ao refino da cocaína) e nisso reside um dos grandes desafios da Colômbia atual, fato constatado no dia seguinte nos periódicos de Bogotá, para onde voamos naquela noite. A noticia seria a da execução de 5 pessoas em uma “guerra de bandos”. O voo noturno não nos permitiu observar essa transição da Cordilheira Oriental para a Central, ainda que muitas aglomerações iluminadas pudessem ser observadas do alto em todo percurso.

Photo: Bogotá - Vista Panorâmica

Bogotá (2.625 m) está localizada em um altiplano, (Sabana de Bogotá), na Cordilheira Central mostrando-se uma típica “cidade americana” sob todos os aspectos, não só na organização do seu padrão de construções, como na nomenclatura e desenho viário, mas com um estilo de vida europeizado. A cidade é dividida em zonas a margem de um eixo central e seus viadutos de acesso a um subsistema de largas avenidas de distribuição e seu respectivo conjunto de vias secundárias intrazonal, que impressiona pelo estado de conservação, limpeza, amplidão, quantidade e beleza de espaços públicos arborizados, tendo por pano de fundo os “cerros” de Guadalupe e Monserrate. 

Caminhar pelas ruas, apesar do “desconforto da altitude”, (não encontrei “chicletinho” de coca para mastigar), é extremamente prazeroso, pois no clima seco do planalto em Janeiro é potencializada a luminosidade do sol sobre o céu sempre muito azul realçando os tons pastel e ocre da maioria das edificações, porém sob uma temperatura média muito amena. Sob o sol uma sensação de calor forte (25º C) e mais adiante sob uma árvore uma temperatura quase fria (17º C). À noite prepare-se para 12º C. 

A Grande Bogotá hoje beira os 12 milhões de habitantes, (25% da população colombiana) e tem seus espaços públicos com muitos quiosques e restaurantes onde sempre se ouve muita música, mas em volume respeitoso ao ouvido dos desinteressados. Acho que um TRIO ELÉTRICO faria sucesso na Colômbia de Cali, mas não nessa de Bogotá. (Photo: Distrito Histórico Candelária, Bogotá, de Ethel Davies) 


Para a redação final deste artigo fui checar as informações do simpático “taxista calenho” e me surpreendi. O ano de 2012 foi auspicioso em iniciativas indicadoras de índices declinantes da violência, (Proposta de Paz das FARC em foro internacional e a redução da atividade guerrilheira na Colômbia, pela perda progressiva de bases de operação a partir da Venezuela e Equador), mas a leitura dos índices de homicídios na Colômbia, uma informação de difícil obtenção por pesquisa, (e por isso aqui faltam dados de Barranquilla e Cartagena das Índias) e principalmente, todas referentes a um mesmo ano, Bogotá ostentou uma taxa de 17:100 mil (2012), Medelín apresentou 110:100 mil (2009) e Cali 73:100 mil (2011), sendo a média da Colômbia de 44:100 mil (2011 – 20.680 mortos), o que faz da Colômbia ao lado do Brasil (54.000 mortos – 28,5:100 mil) a “dupla violenta” da América do Sul. (Desconhecem-se dados da Venezuela). São rotina por lá as denúncias unânimes da sociedade de corrupção política e baixo nível da Educação e nesta semana soube-se do recrudescimento da atividade das FARC no sul da Colômbia, próximo à fronteira do Equador e o presidente Santos foi acusado de permitir o aumento dos índices de violência. 

A Colômbia vive hoje sob “estrita normalidade democrática”, o que inclui até o indiciamento do ex-Presidente Uribe, (do mesmo partido político do atual mandatário), acusado por crimes de corrupção, mas a partir da sua independência viveu constantemente sob o clima de revoluções, contrarrevoluções e grupos
paramilitares de todos os matizes, porém agora não é “uma Oposição” quem reclama, mas a Sociedade cansada de “viver com medo”. Hoje a insegurança não é mais oriunda da briga política partidária e ideológica.

Talvez não seja coincidência o nivelamento e associação dos índices de violência, pois existe uma clara parceria criminosa no narcotráfico entre grupos colombianos e brasileiros. Lá na sua maioria são antigos grupos políticos, que desideologizados passaram para o lado do crime e por aqui grupos criminosos, que estão passando para o lado da política. Todo poder concorrente estabelecido e que se assente acima da capacidade de enfrentamento do poder constituído implanta uma ditadura do terror e com isso pratica a política do medo coletivo. Brasil e Colômbia têm uma triste identidade: CRIMINALIDAD.

Antônio Figueiredo é o @ToniFigo1945, mas para os velhos de guerra das trincheiras virtuais, ainda é o Chumbo Grosso.

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1 comentário:

  1. Isso mesmo Antônio. Cana de açúcar. Tenho amigo dos tempos da pós-graduação que trabalha lá. O insitituto de pesquisa é sustentado por uma alíquota sobre os lucros ou sobre a exportações.
    Colômbis é rica em recursos naturais, Deus permita que o povo consiga encontrar um caminho que os distancie mais e mais da violência política e civil.
    Muy bien. Abrazos

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