segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

PELA AMÉRICA LATINA: VIVA CHILE!


(Torres Del Paine, Patagonia, Chile photo by Gavin Hellier)

CHI-CHI-CHI-LE-LE-LE VIVA CHILE
Por Antônio Figueiredo

Nos idos de 1962 um amigo trabalhava na Olivetti em Guarulhos – SP e foi mandado ao Chile para treinamento, de lá voltando encantando com Santiago como cidade e com a polidez e modos “britânicos” do chileno e evidentemente com o sucesso que por lá faziam os brasileiros, pois a Seleção Brasileira de Pelé, Garrincha, Didi, Vavá, Zito e Newton Santos, sem mencionar os outros cinco “monstros” disputava a Copa do Mundo que lá se realizava. Nos anos posteriores ganhei excelentes “amizades chilenas” no Brasil, que endossaram as impressões do meu amigo.

Ao subir no avião comecei a preparar meu “quadro mental comparativo” brasileiro/chileno: um governo João Goulart para nós e um Salvador Allende para eles; vários Governos Militares por 21 anos para nós e um só Pinochet durante 17 anos para eles, além dos meus 50 anos de curiosidade acumulada. Foi assim que atravessei os Andes, vindo de Buenos Aires, ainda “tangorolando” alguma coisa para encarar esta “outra realidade” da América do Sul, não sem antes recolher mais algumas informações na tentativa de entender sua “importância geopolítica” e o “chileno comum”.

O país tem uma extensão de 4.300 km de comprimento e uma largura média de 175 km, que é o que lhe permitem os cumes dos Andes sua fronteira natural com os vizinhos. A capital Santiago concentra 25% da sua população total de 40 milhões e sua economia baseia-se no cobre e salitre, (no nordeste desértico) e vinhos mais tradicionalmente e frutas mais recentemente. (Região Central). Entretanto em conjunto com a Argentina e mais recentemente com a participação do Brasil desenvolve o projeto mais ambicioso de integração econômica da América do Sul, o Corredor Interoceânico Aconcágua, que ligará o Porto de Valparaíso no Pacífico aos Portos do Atlântico através de um túnel de 52 km sob a Cordilheira, transitável 365 dias por ano e que reduzirá drasticamente o fluxo da perigosíssima rodovia de 180 km e de tráfego restrito no inverno e passante pelo Passo Cristo Redentor na fronteira Chile-Argentina. O Chile quer ser uma porta no Pacífico para as economias da Costa Leste.

Pois bem, o que rende ao Chile o seguinte comentário na Wikipédia (Maio 2010)? “Atualmente o Chile é uma das mais estáveis e prósperas nações, reconhecidamente de médio porte e uma economia emergente. Lidera a América Latina em desenvolvimento humano, competitividade, renda per capita, globalização, paz social, liberdade econômica e baixa percepção da corrupção. Está também altamente avaliado em sustentabilidade do estado e desenvolvimento democrático”.  Esta foi a pergunta que me propus a responder nessa viagem.

Ao traçar o perfil histórico das Décadas de 60 e 70 socorro-me não só do que está disponível na rede, mas principalmente de muitas paginas hoje amareladas da minha memória pessoal. Esse foi meu tempo e de minha geração. É lembrar-se dos hippies, da Primavera de Paris, do rock’n roll, da bossa nova, da literatura e da liberação masculina marcas dessa geração, mas também da profunda transformação política e social ocorrida principalmente na América do Sul. Um tempo de “vento de ideias e ideais frescos agitando cabelos e cabeças”.

Não há como negar que foi um tempo de Nacionalismo difuso, pois os que gritavam “Yankees go home”, dividiam-se em “Brazilians, only” e “Welcome Marx”, como se diz atualmente,“tudo junto e misturado” e assim se embandeirava essa “esquerda” na visão oficial. É desse tempo a “nacionalização” de empresas símbolo da dominação estrangeira, tais como : Light & Power (1961)(Energia); Cia. Telefônica Brasileira (1970)(Telecomunicações); o fim do Acordo Hanna Mining x MBR (1965)(Minério Ferro MG); e a extensão do mar territorial para 200 milhas, para o controle das jazidas da Bacia de Campos então sabidas e que agregou outros 3,6 km quadrados ao território brasileiro.

Foi na década de 60, que comecei a ler Celso Furtado por conta de um trabalho na escola secundária  e  através dele  apresentado à “usina de ideias”, que representava a CEPAL, um órgão criado pela ONU para fomentar o desenvolvimento da América do Sul e Caribe e sediada em Santiago do Chile, de quem Celso foi participante na Década de 50. Junte-se a esse quadro o forte protagonismo de Cuba, principalmente depois do episódio dos mísseis de Cuba, desde então sob integral proteção financeira, militar e de suprimento de comida da extinta URSS, que começou a “exportar a revolução”. Disso fez parte a tentativa de Che Guevara de levantar a Bolívia, o que lhe custou a vida e o suporte ao Sendero Luminoso do Peru, às FARC na Colômbia e alguns movimentos no Brasil, o que pela polarização da Guerra Fria os Estados Unidos jamais admitiriam, que se formassem esses “quistos revolucionários comunizantes” em território das Américas.

Pois bem, com a implantação de Ditaduras Militares em toda América do Sul, (Brasil, Argentina, Uruguai e Bolívia), o Chile passou a ser o destino de muitos refugiados e tornou-se um “caldeirão efervescente de ideias, teorias e ideologias” e uma grande quantidade deles direta ou indiretamente ligaram-se à CEPAL e certamente a eleição de Salvador Allende acabou por “explodir” a tampa da panela. Em Setembro de 1973, de imediato ao bombardeio de La Moneda reportou-se a detenção de 30.000 pessoas no Estádio Nacional e ao final da Era Pinochet contaram-se 3.000 mortos e desaparecidos por conta da “repressão”.

Ao atravessar os cumes nevados da Cordilheira estamos em território chileno e a visão primeira é de uma paisagem cinza e desértica desde o alto até as fraldas da montanha cobertas de pedra e areia e que circundam Santiago. O Chile herdou com certeza a pior parte da Cordilheira, pois que lhe restam poucos vales e encostas férteis. A cidade não tem a elegância francesa de Buenos Aires, mas a sobriedade de uma Londres com ruas, calçadas e “paseos” com bancos e cafés com mesas e cadeiras postadas para os transeuntes. Tudo muito bem cuidado e limpo. O “centro velho” de Santiago, ao contrário da maioria das capitais brasileiras, está muito bem conservado e o chileno cortês, mas monossilábico. Em uma livraria vi exposto na vitrine um livro “Dez últimos dias”, ou algo parecido, escrito por uma mulher e exibindo uma foto de Salvador Allende. Perguntei ao homem ao lado a respeito, que me respondeu: “É uma escritora de esquerda, como todas” e se afastou. Outros que tentei abordar em cafés e restaurantes de comidas rápidas pouco interesse demonstraram em conversar. A exceção era a quantidade enorme de brasileiros que lotavam as ruas e o hotel em que me hospedei.

Não vi nas ruas flanelinhas e infância pedinte e tampouco gente dormindo na rua ou pedindo comida ou dinheiro na frente das lanchonetes e isso constatei em um longo giro de reconhecimento da cidade. Em Santiago não existe “miséria aparente”, mas uma coisa me chamou a atenção, os pedintes que vi eram senhoras de idade vestidas com simplicidade. O que isso significaria?

O diálogo tão almejado com um nativo aconteceu no Mercado Central de Santiago e fui direto ao ponto. Ao garçom que nos servia um maravilhoso pescado do Pacífico Austral perguntei-lhe sobre Pinochet e o que “deixou” para o Chile. Ele de pronto respondeu: Pinochet era um Nacionalista e hoje em dia é História, mas sua contribuição ao Chile Moderno foi de absoluta transformação e está por toda parte. Inquirido sobre os “mortos e desaparecidos” respondeu: “Em uma revolução sempre   haverá um único vencedor, mas mortos sempre existirão muitos dos dois lados e cada qual assumiu seus riscos. Isso aconteceu há muito tempo, portanto é passado”.

Aquele amigo argentino do “churrasco uruguaio” em La Plata trabalha há muitos anos dos dois lados da fronteira e ao nos encontrarmos em Santiago perguntei-lhe das diferenças que via no Chile de Pinochet, Bachelet e Piñera: O Chile vem se desenvolvendo enorme e constantemente nos últimos 30 anos e a mudança política, para um lado ou outro, pouco interfere. Perguntei-lhe sobre as manifestações estudantis que tem acontecido em Santiago agora: Também aconteciam no Governo Bachelet e sempre pelo mesmo motivo: Ensino gratuito em todos os níveis. Depois disso consegui algumas conversas rápidas com outros chilenos quando perguntava-lhes o que esperavam para 2013 e a resposta era a mesma: Apesar da preocupação com a crise mundial, esperamos que o Chile continue crescendo e tendo estabilidade política como nos últimos anos.

Que lição tirei dessa visita? CHI-CHI-CHI-LE-LE-LE. VIVA O CHILE, que soube conciliar as suas diferenças e cicatrizar suas feridas e onde todos são “simplesmente” chilenos.

(Photo do Mercado Central by acervo de viagem do autor.)

Antônio Figueiredo é o @ToniFigo1945, mas para os velhos de guerra das trincheiras virtuais, ainda é o Chumbo Grosso.

Arquivo Latinoamericanidad:

7 comentários:

  1. Se eu já tinha vontade de conhecer o Chile, agora mais ainda, com a riqueza de detalhes da narrativa.

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  2. opcao_zili04/02/13, 15:33

    Para eles, guerra é guerra, os 2 lados perdem e é passado, Não existe ranço político. Parabéns CHILE.

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  3. Amei o texto e depois quero dicas do Chile. O mais importante foi ver que lá realmente houve reconciliação.
    Agora, só um toque: nos anos 60 a liberação foi feminina, né não? A masculina ainda não chegou...rs

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  4. Zinha Bergamin04/02/13, 18:57

    Também eu fiquei com mta vontade de conhecer o Chile!
    E é mto gostoso a gente saber que existe "vida civilizada" aqui na chamada "América Latina" rsrs
    Quem dera nosso país acabasse com essas bobeiras do tipo de "Comissão da Verdade" que não consegue disfarçar a sede de vingança que essa turma guarda principalmente dentro do fígado,mas nunca no coração...
    Valeu,amigo. Vou esperar o próximo passeio,e também torcer para que seu livro fique pronto rápido!
    Zinha

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  5. Excelente narrativa. Deu vontade de ir dar uma olhadinha por lá também.

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  6. Não, Márcia. Foi a liberação masculina. Na dec 60 a "masturbação" foi liberada e sem culpa.... hehehe

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  7. Que o chile e os chilenos são diferenciados no atual quadro politico e economico da America Latina é fato, mas só a titulo de provocação, se compararmos o estado de São Paulo com eles, as diferenças, se houveram, serão mínimas.

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