sábado, 23 de março de 2013

O EXERCÍCIO DO PODER: DEMOCRACIA OU DITADURA



É a velha história: alternância de poder é fundamental na - e para - democracia. Muito tempo em um mesmo cargo executivo dá ao sujeito a falsa sensação de supremacia, além da amplificação elástica da possibilidade de se cair e recair em vícios. Os velhos e outros que possam ser inventados. E é fácil virar um ditador, se não de direito, ao menos de fato. Isso vale para executivos que vão do síndico até presidentes. De qualquer coisa, até mesmo da República, mas nem precisa chegar a tanto.

É bem falsa a impressão de que, se há votação (eleição), há democracia. Algumas votações não passam de mera recondução por inércia, e isso acaba gerando uma "democracia do quem manda sou eu". Quer um exemplo exato disso, bem ao gosto das analogias de CorruPTópolis, além de ser, obviamente, gritante? Ricardo Teixeira, que perpetuou-se na presidência da CBF desde 1989 até precisar se licenciar. Sempre reconduzido por "votação". Mas quem manda, naquela Confederação, mesmo sem ele no papel de presidente? Só ele. Nem diretoria, nem "conselho" ou coisa que o valha, têm qualquer poder de decisão. Em que pese a opinião popular contra ele, nós - o popular - não temos nenhum poder para de lá tirá-lo, e só podemos imaginar o que vai, mesmo, no âmago de sua gestão. Saber, de fato, todos os meandros dessa ditadura, inclusive os financeiros, só quando seu reinado vier totalmente a pique. Sim, utilize-se Ricardo Teixeira como metáfora para Renan Calheiros e o Senado Federal, por exemplo. Os fatos recentes envolvendo a ilusão dos "bem-intencionados" bem usados pelo PT do Pedro Avaaz Abramovay que o digam.

Um mesmo pé-de-cristão ocupar, durante um longo período, o mesmo cargo, também expõe o de cujus às próprias limitações. Quando a pessoa sofre de algumas, de ordem moral, intelectual, técnica, quanto mais tempo no cargo, maior possibilidade de registar, para a posteridade, suas incompetências. Claro, quanto mais exposto às mais variadas situações de controle ou falta dele, à crises, à necessidade de tomada de decisões, de atuação, mais claras ficam as suas fraquezas. Qualquer semelhança com o PT de Lula e sua continuidade, Dilma, não terá sido mera coincidência. Não faço tal registro por acaso.

Numa ditadura, só há a mesmice da regra, à qual todos devem ser submetidos, sem exceções, sem argumentação, sem contraponto, sem alternativas. O poder democrático dá trabalho. Muita esperança na mesma mão e contramão de derrotas e desilusões, que, da nossa parte, acumulamos desde 2002. Mas há debate, tentativa, erro. E acertos. Uma das melhores faces da democracia é a possibilidade de argumentação. É que numa democracia, pode-se expor não apenas as próprias ideias, mas também aquelas que são opostas à ela. E vence a competência do convencimento. Claro que, em se tratando da prática eleitoral, há, como há em toda a ciência política, uma série de variantes, inclusive as variantes que pesam o quesito competência. Pode ser até em função de poder financeiro. Não importa. Há sempre a opção de não embarcar na ideia. Mas aqui, no fim das contas, falo apenas da tese política, não da prática eleitoral.

Do condomínio à presidência (inclusive da República, mas torno a ressaltar, qualquer tipo de presidência), um ambiente democrático é provado pela forma como o líder dá tratamento às opiniões discordantes. Um ambiente que tende à uma ditadura, por sua vez, é reconhecido na forma como ele trata os dissonantes. Como, quando e de que forma relega "punições". Inclusive, através de, na maior desfaçatez, em nome da liberdade promover o cerceamento da mesma. Outro exemplo prático disso? A imprensa destas plagas, que é vítima voluntária da subserviência ao governo e às ideologias esquerdo-petistas que nos desgovernam.

"O democrata corrige a teoria pela prática. O ditador é ao contrário.", escreveu Vergilio Ferreira. Se a gente abrir os olhos, vê isso todos os dias, no cenário político tupiniquim. Cá em CorruPTópolis, estepaiz que o PT erigiu no lugar do Brasil, não só a sanha ditatorial tem se mostrado em vários lugares e instâncias, como a burrice de corrigir erros práticos apenas com teorias, é posto, inclusive pela (falta de) oposição. Fora de hora, com escolhas duvidosas. É a velha burrice, que, in my opinion, é bem inerente à veia de um ditador e dos que a ele se submetem. E assim, perde a democracia duas vezes. Pela falta de crescimento pelo tolhimento da liberdade e pela incompetência realizadora. Ou como bem classificou para mim, certa feita, em um de nossos longos debates "internos", o BSchopenhauer: é a "desinteligência pretensiosa". E completou: "É a burrice, estúpidos!".

Com o processo eleitoral-presidencial antecipado em forma de pré-campanha por Dilma e seus laranjas, o Eduardo Campos e a Marina, e o lançamento do tucano Aécio Neves como opção de (ainda reluto crer, pela experiência passada, em coragem) oposição, talvez tenhamos como trazer esses valores para o debate. Mas desde que seja para vencer a eleição, praticando-os.

Democracia - aplicada - também é ato de inteligência.

2 comentários:

  1. Querida amiga Regina:
    O desafio que eu enxergo é o de trazer para o debate as classes menos favorecidas, que são as que estão garantindo a larga aprovação de Dillma e seu (des)governo ....
    As pessoas dessas classes pouco acessam o Twitter, e quando acessam é para falar de coisas banais, como o BBB ou o Esquenta da Regina Casé ....
    Não tenho bola de cristal, mas arrisco um palpite: ou acontece algo de bem grave que deponha contra o (des)governo Dillma e o PT, ou ella será reeleita, em 2o. turno talvez, mas reeleita ....
    Isso empurraria o debate para 2018, quando então tudo estará "arrumado" para que a Marina chegue ao poder ....
    Triste cenário não é mesmo? Espero estar errado, mas é como eu enxergo a política hoje ....
    Durma-se com um barulho desses !!
    Cheers !!!!
    @BobWebBB

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  2. Cá em Petrópolis com os 1179 desabrigados e 33 mortos é fácil ser azêdo para falar desse arremedo de democracia em que vivemos.

    Democracia que cobra impostos leoninos. mas não obriga o estado a fazer uso em favor do povo e não das mordomias e roubos cada vez vez mais escancarados e impunes.

    O instituto da reeleição é a herança maldita de FHC e o PT é a representação mais óbvia do estado arrogante, prepotente, nocivo e inimigo feroz do debate com a sociedade. Eles tem suas verdades e um marketing caro, inescrupuloso e nazista para assegurar a aprovação inusitada de tanto roubo e incompetência.

    Belo texto Regina, parabens.

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