segunda-feira, 18 de março de 2013

POPULISMO E NEOPOPULISMO



É uma constante no Brasil a desclassificação ou menosprezo de algumas linhas de pensamento, o que só pode ser creditado ao “desconhecimento histórico” ou à “má fé política”. Assim, os chamados “progressistas” demonizam o “Liberalismo (Neoliberalismo)” e os “conservadores” centram fogo no “Populismo (Neopopulismo)”, quando na realidade este é uma imensa demonstração de competência política de “captar e entender a voz das ruas”. O problema não está em quem desenvolve as teorias e sim em “quem” e “como” as aplica. 

O Populismo, simplificadamente, é um conjunto de práticas políticas estabelecedoras de uma relação direta entre um líder carismático (caudilho) e as massas, (ditas abstratamente, "povo"), conclamadas “a participar do centro decisório da ação política”, às vezes à margem dos canais próprios da democracia representativa e em outras e na maioria das vezes “fundada” em um partido político oportunista moldado ao pensamento e ação do líder. Historicamente entre nós, no entanto, identifica-se mais com alguns fenômenos políticos típicos da América Latina a partir de 1930, associado então aos processos de industrialização, urbanização e à dissolução das estruturas políticas oligárquicas conservadoras e concentradoras do Poder, principalmente a aristocracia rural. 

A política populista embasa-se menos em um determinado conteúdo ideológico e mais num "modo" de exercitar o poder, através de uma combinação de plebeísmo, autoritarismo e dominação carismática, pois para ser eleito e governar, o líder procura estabelecer um vínculo emocional, (não racional), com o "povo" mediante um sistema de políticas ou métodos de aliciamento das “classes sociais mais baixas” (“pobres”), além da classe “baixa média urbana”, como forma de legitimar-se ao angariar, simpatia, prestígio, votos e finalmente o Poder. Daí a gênese do populismo, no Brasil estar ligada à Revolução de 30, que derrubou a República Velha Oligárquica colocando no poder Getulio Vargas, desde então a figura central da política brasileira até seu suicídio, em 1954. 

Para efeito didático criei uma subcategoria dentro deste conceito e que passei a chamá-la de NEOPOPULISMO, pois ainda que mantenha as “práticas políticas” e discurso de seu predecessor está mais configurado à realidade, aspirações e reivindicações sociais contemporâneas, decorrente que é da “adaptabilidade do Populismo” à influência das ideias do NEOLIBERALISMO das quais aproveita os objetivos e premissas. Embasa-se esse “Populismo Esclarecido”, (estabeleci aqui, ainda um paralelo histórico aos “Déspotas Esclarecidos”) em programas assistencialistas de “renda mínima” e outros assemelhados tão em voga nos dias de hoje e praticamente aplicado na maioria dos países da América do Sul como Argentina, Brasil, Peru, Equador e Venezuela. 

Apesar de ter sido um movimento que provocou uma forte adesão e integração das massas populares à vida política, fator gerador de desenvolvimento principalmente o social e em que pese sua submissão à vontade de um líder carismático, por vezes autoritário, o Populismo sempre sofreu severas restrições à Esquerda e à Direita. Estes por recriminarem as práticas populistas como “vulgares” e "demagógicas", notadamente pela concessão de benefícios sociais através do aumento "irresponsável" do gasto público. Aquela, em especial a “comunista” e a “anarquista”, que apontavam para o caráter “reacionário e desmobilizador” das “benesses populistas”, acusando-as de enfraquecer a luta organizada da classe operária, pois tudo passa a depender da vontade despótica do caudilho. Isso no Brasil observou-se na década de 30, quando se iniciava a “organização sindical espontânea” e Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”, com suas leis trabalhistas acabou por impor uma “organização pelega” mais de acordo com os interesses do Estado. É importante notar que essas são práticas do Populismo, época em que, em sua maioria, os líderes carismáticos eram também ditadores. (Hitler, Vargas, Perón, Mussolini, para nomear alguns). 

Uma outra característica do Populismo e do Neopopulismo é que são expressões políticas ideologicamente “insípidas e inodoras” e são encontradas tanto à “Esquerda Progressista” quanto à “Direita Neoliberal ou Conservadora”, (respeitadas as considerações e o enquadramento no artigo anterior) e um dos seus objetivos principais sempre foi o de anular o “protagonismo da burguesia”, (Classes Média e Rica) e sua capacidade de ação política autônoma, visto que toda ação política é intermediada e desenvolvida pelo líder populista, que se “intitula” a “voz das massas” e por isso acima de todas as classes e sempre empunhando a bandeira da defesa da "moral e dos bons costumes" ou da "lei e da ordem". Enquanto o Populismo na maioria dos casos no passado empunhava uma bandeira nacionalista, o Neopopulismo em tempos mais recentes e atuais adota o emprego de uma combinação de “antibióticos e cortisona” no perfilhamento pragmático à obtenção de seus objetivos, desde a mescla de políticas neoliberais de desregulamentação e desnacionalização com uma forte política social assistencialista até a da “adoção do Socialismo Interno” e uma Economia de Mercado nas suas “relações Externas”. 

Sem dúvida alguma é a América Latina o ambiente mais propício ao desenvolvimento dessas novas experiências do Neopopulismo e isso certamente é parte das múltiplas tentativas de autoconfiguração política da região, porque culturalmente ainda buscam sua identidade nacional e a integração racial da sua população nativa com os fluxos imigratórios, que tem no máximo 100 anos. Nos últimos tempos tem-se notado a tentativa de formação de “blocos políticos ideológicos”, mais da parte da Esquerda, mas sem que isso tenha se traduzido em avanço econômico organizado dada à disparidade estrutural entre o Brasil e seus parceiros e a pouca complementaridade econômica. As tentativas de formação de um “bloco econômico regional” vêm patinando desde o Acordo ALALC, (Tratado De Montevidéu – 1960, idealizado pela CEPAL, que a rigor apenas realizou “acordos de preferência tarifária”, sem contudo avançar na “integração econômica), sendo substituído pela ALADI, (Tratado de Montevidéu – 1980), que buscou cobrir aquela lacuna. Já o MERCOSUL (Declaração de Iguaçu – 1985), um protocolo de intenções entre Brasil e Argentina, referendado e consolidado pelo Tratado de Assunção (1991) com a adesão de Uruguai e Paraguai ainda segue sendo um “protocolo de intenções”, pois a efetiva integração econômica está por acontecer e até mesmo os acordos de preferências tributárias seguem incumpridos no seu cronograma. 

Por outro lado a vulnerabilidade individual de cada um dos países em particular frente às muitas “crises da dívida” mundiais da década de 90 e primeira década do Sec. XXI é que foi a responsável pelo aparecimento dessas “lideranças neopopulistas”, mas cada um buscando soluções exclusivas para seus problemas externos, além da busca da consolidação do seu espaço político interno. Pela primeira vez na História os países latino-americanos e os “em desenvolvimento” crescem, enquanto o restante da “economia mundial” segue estagnada e com isso a adoção de políticas assistencialistas tem marcante presença e importância. 

O “laboratório latino americano” tem com isso demonstrado a relevância dessas novas formas de organização política, mas agora superada essa fase de estruturação interna, mostra-se fundamental a necessidade da integração econômica latino americana como contraponto às ações externas de formação de blocos político-econômicos, de forma a se ter uma efetiva formação política integracionista. Há que se pensar na América Latina como detentora das mais importantes reservas minerais e que ao longo da História por ter insistido no modelo de “exportação de commodities”, que não lhe tem servido à montagem de um modelo estruturado e sustentado da sua Economia. Assim o desafio agora é: que modelo podemos desenvolver integrados?

Antônio Figueiredo é o @ToniFigo1945, mas para os velhos de guerra das trincheiras virtuais, ainda é o Chumbo Grosso, agora, um especialista em América Latina.

7 comentários:

  1. A verdade é que cá nas nossas terras morenas, entre as montanhas e o mar, "O Brasil escapa da esquerda e da direita não em sentido do centro, mas cai direto num populismo lulo-dilmista, que nos custa caríssimo, em nome de um nacionalismo jeca e da fraternidade paternalista de igualdade aos miseráveis." Aspas minhas, mesmo, em texto publicado por aqui.

    ResponderEliminar
  2. opcao_zili18/03/13, 15:25

    Parece-me que esse neopopulismo centra-se mais em desconstruir as instituições,a educação, transformando o povo em zumbis políticos que dizem amém a todas as mentiras que dizem para se firmarem no cenário nacional. Sinto-o mais destrutivo que qualquer outro, citado por você.Difícil achar um meio de desmascará-los, quando não temos uma imprensa para ajudar.

    ResponderEliminar
  3. Caro Antonio

    Espero que o povo perceba que este neo-populismo, mitos carismáticos e #BolsaXtudo não trazem crescimento necessário no quesito Desenvolvimento Humano (San.Básico, Saúde, Educação,Segurança) que patina a olhos vistos e vive também de remendos como na Economia Nacional e que em Outubro2014 votem com seriedade.

    Marisa Cruz

    ResponderEliminar
  4. Antonio, só nos resta o povo entender. Mas acho que estamos mais perto do que nunca. Vamos empurrar essa oposição em que já desponta um lado não tão burro quando do PSDB DEM

    ResponderEliminar
  5. Não há dúvida, prezado amigo, de que este Governo, baseado no de lula ( só uso letra maiúscula para designar pessoas que merecem meu respeito) criou uma nova profissão no Brasil : Bolsista do Governo.
    Eles não precisam trabalhar, basta votar no pt na próxima eleição.
    E o Brasil brasileiro que se vire.

    ResponderEliminar
  6. Tomara que o Papa Francisco seja para a América Latina o que João Paulo II foi para a Europa Oriental. Que ele derrube o "muro" da vergonha populista

    ResponderEliminar
  7. Zinha Bergamin (@Lelezinha_09)19/03/13, 19:18

    Ufa!Demorei para "roubar" um tempinho para ler seu artigo,que sempre é mto bom!
    Mas, mesmo atrasada,cá estou e com prazer!

    Pois é,amigo,"tirando a gentinha" que o Senhor colocou aqui,nós teríamos tudo para ser uma das grandes potências do mundo!

    Temos tudo:minérios,tempo ameno sem grandes tragédias,seja por terremotos,ou neve impiedosa,mas temos um "beco sem saída" para vencer e fazer esse povo (que é patrocinado pelo Governo Bolsa XTudo,como bem disse a amiga Marisa (18/03 - ás 16,05)), para que saia dele...

    Faltam agora líderes que ensinem ao povo a porta de saída do assistencialismo vergonhoso,e que eliminem tb o analfabetismo escravizante para que cresçamos realmente como um país forte e livre!
    (Seria bom também descobrirmos uma vacina contra essa mania doente do brasileiro que gosta mais de "ganhar" as coisas do que conquistá-las!)

    Como sempre,seu artigo foi mto claro e inteligente!
    Gde abç,
    Zinha

    ResponderEliminar