segunda-feira, 1 de abril de 2013

"ASSIM FALAVA ZARATUSTRA"




Assim dizia Zoroastro, como também Nostradamus e também nada podem ter dito sobre uma globalização apocalíptica para este final de tempos, ou início de boas novas, se ainda acreditarmos que um sopro divino criou a raça humana. A história nos ensina, mas o aprendizado e a experiência humanas, mais facilmente compreensíveis à luz da análise da repetição cíclica, esbarra no medo genético, instintivo e paralisante de se sair da caverna a um novo perigo. Esta é a atitude assustada e atual em face da globalização.

A chiadeira, hoje, é global. Na Suécia, Espanha, Estados Unidos, Brasil e em outros menos desenvolvidos, uma discussão analítica e menos ideologizada, estabeleceu a fonte e o vilão-simbolo, assim como os mamutes e tigres de dente de sabre o foram para nossos ancestrais paleolíticos. Uma reação humana, intuitiva e previsível ao choque inicial justifica a paralisia, mas não a falta de criatividade, (ou vontade política) de se sair da caverna e descobrir que grupos organizados e liderados podem caçar vencer e se alimentar dos seus antigos medos e perigos rondantes.

Os conglomerados multinacionais, nossos mamutes do século XXI, são por isso os eleitos e rotulados predadores insensíveis, gananciosos e irresponsáveis, ou melhor, responsáveis pelo desemprego, a concentração dos capitais e conseqüente especulação financeira e ainda de práticas que desestabilizam a pirâmide social, o planejamento e as políticas macroeconômicas globais. Santa ingenuidade é se pensar que algum dia, capitalistas e dentes de sabre selvagens se comportaram diferentemente. Hoje, uma versão capitalista do saber popular prevalece, de que nem os fins, nem os meios precisam de justificativas.

É da essência do ser humano, o aprimoramento contínuo da sua habilidade individual e capacidade de enfrentar riscos, para a acumulação máxima de benefícios com um fim e em favor de um grupo específico e por decorrência isto se aplica aos sistemas por ele criados, pois é do criador fazer de sua criação sua imagem e semelhança. Mas mais que filosofar, o que nos interessa aqui é analisar a resultante do emprego dessas qualidades desde tempos imemoriais, sendo irrelevante e estéril o “como e quem”  poliu a primeira pedra de sílex e inventou a primeira lança, mas tão somente  “o que”, pois revela essa habilidade individual com a finalidade de enfrentar um risco específico.

Desde os anos 80 uma constante em reuniões gerenciais de empresas é o desperdício, (um overhead crescente nos balanços societários), quando vaidades pessoais discorrem, repetidamente e por longo tempo, sobre a reinvenção da roda, que é o que são, as parte de técnicas e conceitos eficazes e consagrados travestidos em de última geração, de amplo espectro e sem contra-indicações, recém lidas ou aprendidas de algum guru especialista em neologismos. Lanças virtuais, úteis se bem utilizadas, mas que não surtem o efeito imediato de habilidade efervescente. A verdade por trás do sucesso das empresas que as adaptaram foi a capacidade de redescobrir o repensar processos, custos e recursos e acima de tudo conscientizar, redirecionar e munir a equipe com armas, de sílex ou atômicas, adequadas ao fim perseguido. Algumas ferramentas antigas ainda hoje são insubstituíveis, haja visto que um processo de criação ainda é composto de noventa por cento de transpiração.

Nem a posse de uma lança nos primórdios da civilização, nem o vestir jeans, (casual coletivo) hoje, era ou é garantia de sucesso automático, a despeito do que nos quer fazer crer a mídia. Tampouco a adoção de modelos empresariais padronizados substitui o líder e o processo transpiratório de análise, comparação e adequação permanente do atual ao paradigma original da empresa. Diz a Lei de Murphy : as coisas deixadas por sua própria conta, vão de mal a pior. Desvios radicais geram fracassos e destruição de um padrão individual original. Empresas grandes quebram esporádica e ruidosamente, empresas menores silenciosa e diariamente.

A crise atual é de pensar, intuir, se expor e arriscar, seja entre investidores ou gerentes. Confrontar e contestar nunca foram o forte de quem foi permissivo a dominação da Inquisição na Idade Média e essa é nossa herança cultural, ao contrário dos países que se alinharam à Reforma e que coincidentemente são os de maior sucesso econômico e de onde se originaram os ditos conglomerados multinacionais. Mas por outro lado o jogo de cintura, que Portugal demonstrou ao ter como única opção se aventurar ao mar, se utilizando do conhecimento globalizado da época e lançando um novo paradigma inaugurador de uma nova era, demonstra que este é o único diferencial que pode contar, no apocalipse econômico atual. Nada é cem por cento, bom ou ruim, novo ou velho. O sucesso de um modelo, que é sempre flexível no nascedouro se torna rígido e pesado por desleixo e uso o que provoca sua derrocada. Assim acontece com civilizações, empresas e pessoas.

Da década de 20 até a de 70 passadas, a Engenharia Industrial reduziu desperdícios de matérias primas, tempos de mão de obra e aumentou a produtividade desenvolvendo equipamentos e especializando mão de obra, porque o capital era um recurso escasso e caro, matérias primas e energia (ferro, carvão e petróleo, como ensinava o mestre) eram finitas e a Economia ainda era a ciência da gestão da escassez. Com o advento da robótica, do capital virtual, das matérias primas e fontes de energia alternativa, escassa é a mão de obra com visão sistêmica qualificada e a capacidade da ciência econômica em lidar com o monetarismo especulativo desenfreado. Os custos de produção nunca foram tão enxutos e tão padronizados e assim a gordura a ser cortada são os custos fixos, mas isso pode significar cortar vaidades, mordomias e direitos adquiridos e para isso é necessário ter aquilo roxo, (sem proselitismo).

A volta do estudo da filosofia desde o ensino fundamental que já ocorre, o risco da sobrevivência por falta de ar respirável, ozônio e água potável e a nova geração, que brinca com as mais novas tecnologias, engajadas ecologicamente, questionadoras e nos fazem pensar que certamente vão pensar seu futuro mais responsavelmente são uma esperança, mas ainda um futuro para depois de amanhã e o presente ainda é da nossa responsabilidade, bem como a preparação dessa transição. Por isso reza o provérbio chinês: “é melhor acender uma vela do que maldizer a escuridão”.

Antônio Figueiredo é o @ToniFigo1945, mas para os velhos de guerra das trincheiras virtuais, ainda é o Chumbo Grosso, agora, um especialista em América Latina.

11 comentários:

  1. Mais um excelente texto, Figo! Que nos faz pensar, vivas, já que o objetivo é suscitar raciocínio e debates.

    Marx dizia que o capitalismo encerrava em si o germe da própria destruição. O que a história, sempre ela, nos mostra, in my opinion, é que o comunismo sim, contém em si os vícios (abomináveis) e que concorre para o seu fim em si mesmo. Poucas nações são explicitamente comunistas - até a China tem seu peculiar capitalismo de estado - e as que foram fortes, como a URSS, ruíram. A globalização, para mim que sou crua da Silva em economia, me parece desastrosa. Para os comunas.

    Bom, eu sou tão capitalista que sequer comungo com a divisão de um pacote de Trident se este não for fruto do trabalho - do capital.

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  2. É tudo uma questão de se adaptar, sempre foi assim, desde os tigres dente de sabre e mamutes, aqueles não se adaptaram, ficaram na poeira da história!

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  3. Toni, brilhante a sua reflexão e nos leva a buscar razões para a verdadeira torre de babel da atualidade, os objetivos são comuns, mas a compreensão mutua passa por entender universos diferentes.
    Habitamos um planeta cuja especie dominadora se encontra em diferentes fases de evolução, no entanto o acesso a informação torna o sonho de consumo igual a todos, independentemente da capacidade de produção.
    Cresce a demanda por todo tipo de bem, desde o mais elementar que é o alimento ao mais transcendental quer seja a musica ou a religião, e neste mar de desejos sem reciprocidade de produção, haja mediação capaz de contentar a todos, e a medida em que se disseminarem mais os meios de comunicação, maiores serão as demandas, o planeta vive uma encruzilhada, ou evoluímos como seres rapidamente ou os desejos vão nos consumir a todos.

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    1. Caro Geraldo, o texto passou a ser um "apêndice" ao seu excepcional comentário. Forte abraço

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    2. :) grato amigo, modéstia tua, o comentário só existe inspirado pela sua sabedoria na exposição da condição humana atual.

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  4. Apesar dos pesares, nunca o mundo esteve tão em paz, saudável.medicado e alimentado como hoje. Então é não se deixar levar pelo terrorismo-ecológico e continuar com a produção enxuta e inteligente. O resto vem com o tempo.

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  5. Chumbo, fazia muito tempo que eu não lia...Estamos em tempos de babibel (babilônia+ babel)...e seu texto traduz o pensamento de forma coesa.
    Honra poder te ler Amigo da Curva!

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  6. Ainda acho que estamos em tempos de Babibel (babilônia+babel) a cada dia ninguém se entende, a falta de educação é gritante e a ignorância um fato a ser combatido diariamente...
    Amei querido Chumbo da Curva...

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  7. Zinha Bergamin (@Lelezinha_09)01/04/13, 23:24

    Como eu sempre me sinto uma formiga zureta,dentro da babel em que vivemos(ou sobrevivemos?) me fez bem ler seu artigo com tantos apontamentos da tal globalização,mas principalmente com a complementação brilhante do nosso amigo Geraldo Morais qdo ele diz:

    "Habitamos um planeta cuja espécie dominadora se encontra em diferentes fases de evolução, no entanto o acesso a informação torna o sonho de consumo igual a todos, independentemente da capacidade de produção".

    Foi mto bom ler essa complementação.Só sinto que não veremos como se sairão as gerações futuras se continuar nosso mundão da mesma forma que está,com diferentes níveis de evolução!

    Mas que seria interessante podermos avaliar nos tempos futuros,bem que seria!
    Nós,que estaremos "do lado de lá", poderíamos ver o fuzuê que poderá estar neste nosso planetinha tão (mal)amado!

    Abçs
    Zinha

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  8. Excelente! Primor de percepção que muito me honra.
    " A crise atual é de pensar, intuir, se expor e arriscar, seja entre investidores ou gerentes. Confrontar e contestar nunca foram o forte de quem foi permissivo ..."

    muito grata por compartilhar comigo.

    grande abraço.

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