segunda-feira, 15 de abril de 2013

CAI A NOITE



A arte de perder não é nenhum mistério; 
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. 
Perca um pouquinho a cada dia. 
Aceite, austero, 
A chave perdida, a hora gasta bestamente. 

A arte de perder não é nenhum mistério. 
Depois perca mais rápido, com mais critério: 
Lugares, nomes, a escala subseqüente 
Da viagem não feita. 
Nada disso é sério. 
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero 
Lembrar a perda de três casas excelentes. 

A arte de perder não é nenhum mistério. 
Perdi duas cidades lindas. 
E um império 
Que era meu, dois rios, e mais um continente. 
Tenho saudade deles. 
Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você 
(a voz, o riso etéreo que eu amo) 
não muda nada. Pois é evidente 
que a arte de perder não chega a ser mistério 
por muito que pareça 
(Escreve!) muito sério. 

Elizabeth Bishop

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