terça-feira, 9 de abril de 2013

DA CORRUPÇÃO: NEM SÓ DE MARACANÃS VIVE O HOMEM

"A sociedade não enxerga o Estado como seu prestador de serviços. Quando há uma notícia de corrupção, o cidadão não percebe que aquilo o atinge no seu dia a dia. Uma pessoa que está sofrendo numa unidade de saúde por falta atendimento não vê que isso tem relação com a corrupção que ela vê todos os dias nos veículos de comunicação." 
Ailton Benedito, Procurador da República


Todo mundo sabe - quem é, ama, os outros fingem que não ligam, mas de fato invejam e portanto, odeiam - que o Flamengo tem a maior torcida do mundo, e ao menos no Brasil isso foi recentemente medido por pesquisa. Não por acaso, a torcida rubro-negra é chamada de Nação. Também todo mundo sabe que esta que vos fala faz parte dessa Nação, e além disso, é defensora intransigente do direito do brasileiro curtir o seu futebol - porque eu sou mesmo fã do esporte. 

Vejo, ouço, leio desde sempre os engajados de plantão, desde que me entendo por gente, criticar o prazer do trinômio futebol, cerveja e novela, como responsáveis pela alienação do povo, no que eu discordo, sim. Não percebo que o gosto pessoal dos momentos de lazer, quaisquer que sejam eles, exclua a capacidade do cidadão em ser cidadão. Em pensar. E em agir. Ao contrário. Creio ser possível, pela própria capacidade brasileira de se mobilizar para interesses diversos, que possamos canalizar nossa índole para o exercício da cidadania.

Por quê, então, não temos uma - a exemplo da rubro-negra - Nação de formadores de opinião, de pessoas conscientes de seu papel individual na sociedade? As causas são "externas", culpa dos ópios do povo? O que nos impede de formarmos uma Nação de Vergonha na Cara? Uma Nação de Reação Pró-Brasil? Uma Nação Responsável? Uma Nação Contra a Impunidade? Porque nós conseguimos mobilizar milhões em torno de um jogo de futebol, mobilizamos milhares de pessoas para paradas diversas em avenidas das grandes cidades; milhões em festivais de música pop - salve, Rock in Rio -; milhares em micaretas, atrás do trio-elétrico, em cidades que qualquer porte, inclusive longe das capitais.

Não falo de causas messiânicas, que nessas nem acredito. Falo da vontade que deveria partir de dentro de cada um, individualmente, da capacidade de se mostrar um pouco além de indignado com tudo aquilo que não concorda. De tirar isso do discurso quase que por obrigação, emitido em uma ou duas frases depois de ver o noticiário da TV, mas que é esquecido depois do desabafo com uma hastag qualquer - nesses nossos tempos de vitrines virtuais.

Não falo de revoluções. Porque não acredito nelas, pela simples razão de que uma revolução não é garantia - geralmente é o oposto - de evolução. Falo de nos movermos no dia-a-dia. Não temos mais coragem de conversar com nosso vizinho - sim, tudo que é grande tem de começar pequeno - sobre os desmandos das administrações corruptas que se proliferam? Não temos coragem de tocar no assunto numa reunião de condomínio? Na fila do caixa eletrônico? Não nos motivamos a comentar a insegurança pública que ameaça-nos na saidinha do banco, que ameaça nossos filhos com tráfico de drogas na porta das escolas? 

A gente fica indignado quando vê os ataques terroristas do MST, por exemplo, invadindo fortemente armados, a casa do caseiro da fazenda. Quebram o mobiliário e comem a comida da geladeira. Eles capotam carros, queimam pasto, matam gado. E passam o trator em milhares de pés de laranja. E daí? A gente cobra dos nossos representantes que eles cobrem punições adequadas a essa gente? Isso é só um exemplo. Tal como assistimos às reportagens de caos na saúde pública. Vamos correndo gritar sobre isso. Mas cobramos, efetivamente, o combate da causa, e não de maquiagem nas consequências?

Pois deveríamos começar a fazer isso. Porque não se pode nem deve esperar pelo estímulo do estado. Somos um povo que junta a síndrome do colonizado com a preguiça malemolente, confundidos com o mito do brasileiro cordial. Bobagem. Somos omissos porque sabemos de tudo isso e continuamos a votar nos culpados de sempre. E a não cobrar, efetivamente.

Eu cobro, a partir de hoje, da instituição responsável pela "opinião publicada", a imprensa, que se posicione em relação à PEC 37, a famigerada proposta de alteração da Constituição que interessa direta e unicamente a todos os que cometem crimes no Brasil, a saber, principalmente, os crimes de corrupção. É na imprensa que se pode perceber o termômetro da sociedade. É na imprensa que o pensamento pulsa. Pois urge pautarmos a imprensa, enquanto ela ainda é livre, e na teoria o é. A PEC 37, se aprovada, ameaça inclusive o trabalho da imprensa investigativa no Brasil. Amanhecemos nessa terça, 09, com a notícia de uma grande ação conjunta, coordenada pelo Ministério Público, envolvendo mais de 1.200 policiais, Tribunais de Contas e outras entidades contra a corrupção, em 12 estados. É assim que se faz e abrir mão de ações dessa natureza significa entregarmos de vez o país à bandidagem.

O PT, partido do governo central, que sintetiza evidentemente a teoria e prática dos agentes de governo, principalmente no que diz respeito ao mal-feito, à sistematização da corrução engendrada nas instituições (vide mensalão) e que possui uma penetração oficial e oficiosa na imprensa que chega a ser assustadora, testa todos os limites de reação da sociedade. Onde não houver reação, é por lá que ele vai arrombar. À tudo o que ele representa - e que nós combatemos - mede-se via apoio ora explícito, ora subliminar, dos canais de opinião: editoriais de jornais, colunismo de revistas, viés de notícias na TV espetacularmente valorizando este ou aquele protagonismo. É o meio, e paradoxalmente, às vezes, a própria mensagem do interesse do poder. 

Pois nem só de Maracanãs vive o homem. É hora de cobrarmos que essa instituição tão vilipendiada (até por si mesma) em sua liberdade, a imprensa, seja 100% a favor da sociedade, e não permitir que esta seja mais e mais arrombada, para o seu próprio bem.

2 comentários:

  1. É uma trite verdade .
    Não podemos assistir passivamente .

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  2. Cara Regina

    Essa questão da formação de uma nacionalidade engajada tem sido um dos meus temas de discussão preferenciais. Sei por experiência, ainda que academicamente seja uma tese mais para Gilberto Freyre, que para nós "especuladores intelectuais", que de pouco adianta invocarmos nossa formação populacional com o que de mais "atrasado", (em termos de condição social), se tinha na Europa e Japão.
    Na verdade esses "fluxos imigratórios" aconteceram há mais de 100 anos e o que habita o solo pátrio hoje em dia são efetivamente "brasileiros", que pouca ou nenhuma memória guardam dos usos, costumes e padrões de moralidade de seus ancestrais.Por sinal, muito rígidos. Ou seja, "A Lei de Gerson é criação nossa".
    Já que o cerne da questão é o "gosto de levar vantagem em tudo, certo?" não será a "conscientização filosófica do cidadão", que provocará uma mudança de comportamento cívico, mas sim mostrar-lhe "das vantagens que estão levando em cima dele". Que a ele toca exclusivamente levar a "vantagem das migalhas", porque alguém "descuidou-se em deixar caí-las", enquanto levava o "filão de pão inteiro".
    Abrir seus olhos para que se seu filho tem baixa educação, estará contribuindo para a manutenção da estratificação social perversa vigente, que o Governo faz crer que é culpa dos "olhos azuis do Sul".
    Que é a falta de Saúde Pública, que o faz "vitima preferencial e desprotegida" da dengue. Que as periferias "sem Segurança Pública" levam a vida de milhares de jovens", (seus filhos)pela associação do tráfico com as Autoridades Competentes. Que é a a falta de Segurança das Estradas, que leva a vida de outros tantos e que fará de todos "velhos desamparados", porque chegará ainda o dia em que a população brasileira será composta de imensa quantidade de "velhos órfãos de filhos".
    E, principalmente, que a "derrama", que sofre diariamente com a massa imensa de tributação, principalmente sobre o Consumo, que onera perversamente aos mais pobres, tira o pão de sua boca, para colocar "Romane Conti e charutos cubanos" na boca dos "salvadores da pátria"
    É nessa Revolução que acredito. Na Revolução da Vantagem que não levo.

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