domingo, 21 de abril de 2013

QUANDO UM NÃO UNE UM POVO



Acabei de ver NO, a história sobre o plebiscito que mudou os rumos do Chile. A reconstituição dos 27 dias da disputa entre o Sim e o Não, demonstra que muito daquele setembro de 1988 ainda resiste em uma América Latina que insiste em ser caudilhesca. Afinal, se Pinochet determina que a campanha televisiva só passe a 1 hora da manhã, Maduro, há um mês, determinou. que Capriles só tivesse 5 minutos em rádio e TV. A televisão de Maduro, assim como a de Pinochet, não tinha o menor pudor de chamar a imprensa internacional de “vendida”, “parcial” e com interesses antipatriotas. No mais, Pinochet tentou fraudar o plebiscito, mas militares moderados acabaram com a farra, ao surpreendentemente, dizer na TV estatal que o NO havia vencido antes do resultado oficial. 

O filme mostra que em 1988 duas novidades chegava ao Chile: o microondas e um novo jeito de fazer política. E ambos, para indignação da esquerda, viam dos Estados Unidos. O publicitário vivido por Gael Garcia Bernal é um filho de exilado que entra na campanha do NO com uma visão mais sociológica do que ideológica, e os embates com os representantes dos partidos soam bem atuais para o brasileiro. Os que foram presos, tiveram amigos e parentes torturados, exilados ou desaparecidos querem uma campanha denuncista e raivosa. O jovem quer algo mais leve. A esquerda quer lembrar o passado. O publicitário, festejar o futuro. A esquerda quer tango, o filho do exilado, rock. A esquerda, que nem acredita na possibilidade de vitória, quer acerto de contas. O jovem confiante que o povo quer mudança, aposta na reconciliação.

Uma das cenas mais simbólicas é a de policiais batendo em um manifestante. A câmara congela e um locutor em off fala sobre o policial, depois a câmara novamente congela sobre o manifestante e entra a voz em off. E as duas situações vão se alternando com o locutor falando sobre os dois homens, para no final que os dois são chilenos e que os dois amam o Chile e têm o direito de lá viver. Pode parecer piegas agora, mas naquele momento foi revolucionário.

Estive no Chile, há duas semanas, e pude sentir que eles de alguma maneira conseguiram criar uma convivência entre os prós e os contra Pinochet. Em Santiago há uma estátua de Allende e um monumento às vítimas do regime militar. Mas ambas, segundo o guia, não são tão grandes a ponto de ofender os que apoiaram Pinochet nem tão pequenas a ponto de humilhar quem era contra. Enquanto estava lá o corpo de Neruda era exumado para se confirmar se ele teve ou não sua morte antecipada por simpatizantes de Pinochet dentro do hospital onde estava internado. O fato dominou os noticiários dos dias que antecederam e que se sucederam à exumação. Grandes debates nas emissoras e espaços grandes nos jornais. Mas tudo muito civilizado sem jargões dos anos 70. 

E andando nas ruas limpas, admirando o respeito dos motoristas aos ciclistas e aos pedestres, vendo praças e parques absolutamente lindos e bem preservados, observando os cachorros de rua mais cheirosos, bem cuidados e mansos que já vi, percebi que o grande segredo do progresso do Chile e seu povo com boa formação educacional e cultural. Um povo que, como intuiu o publicitário em 1988, entre o radicalismo e o futuro, aposta na alegria. 

PS- Momento pitoresco: um dos poucos edifícios com janela quebrada que vi na região central de Santiago foi o da Embaixada do Brasil. E o guia, brasileiro, por supuesto, explicou a razão: a Embaixada está na esquina da praça onde os estudantes fazem manifestações. Então como sempre tem pedradas, brasileiramente, se desistiu de ficar trocando o vidro.

Mirtes Guimarães, jornalista mireiroca que traduz o cotidiano para o blog.

7 comentários:

  1. Estive no Chile pouco antes de vc e também percebi o luxo da cidade, o bom trato. Muito antes, acompanho a história do país e nessa ida lá, vi que Pinochet é muito amado. O povo é grato a ele por ter feito o dever de cabo a rabo. Matou muito, mas quem entra numa guerra, não pode lamentar seus mortos. Saído do governo, Pinhochet já senador vitálício, mandou e desmandou no Chile, até seu momento último dentro do país que amou e soube defender. Sou pró Pinochet, sou contra o esquerdismo, essa doença confinada aos países pobres, como uma doença de chagas.

    ResponderEliminar
  2. Outra coisa a chamar a atenção de um turista brasileiro é a limpeza das ruas. Pode se caminhar na capital Chilena, mesmo em dias de eventos , e não encontrar descartáveis e sacos de papel pelo chão. Educação funciona. A gente devia copiar.

    ResponderEliminar
  3. Outra coisa a chamar a atenção de um turista brasileiro é a limpeza das ruas. Pode se caminhar na capital Chilena, mesmo em dias de eventos , e não encontrar descartáveis e sacos de papel pelo chão. Educação funciona. A gente devia copiar.

    ResponderEliminar
  4. Outra coisa a chamar a atenção de um turista brasileiro é a limpeza das ruas. Mesmo em dia de evento, não se vê descartáveis e sacos plásticos pelas ruas. Educação funciona. Isso a gente devia copiar.

    ResponderEliminar
  5. Zinha Bergamin (@Lelezinha_09)22/04/13, 00:30

    Pôxa,Maninha, como é bom visitar gente civilizada,não? rsrs

    Fico pensando:quando será que teremos um país limpo, com calçadas bem cuidadas,prédios bem pintados,cidades com belos jardins,e com um povo valorizando tudo isso?

    Se tivéssemos um governo que prezasse tudo isso, talvez em uma década,as faces das cidades mudassem também e teríamos tudo isso!
    Mas qual!Com este governo, NEVER!

    É tudo questão de educação,civismo, respeito ao próximo e a si mesmos!Quando teremos tudo isso?

    Fora o respeito pelo modo de pensar diferente do próximo,que é primordial a um povo civilizado!

    Enfim,são sonhos que temos e não sabemos se um dia serão realizados... principalmente qdo me lembro daquele pensamento cruel (mas verdadeiro) do Chico Anysio,que dizia que"O brasileiro é um povo tão mal educado que, quando vê uma placa:-Não cuspa no chão, cospe na placa!"

    É cruel, mas é verdade! Acho que em matéria de educação cívica estamos loooonge,muito longe ainda!

    ResponderEliminar
  6. Mirtes, uma das observações mais marcantes da minha viagem, foi exatamente esta isenção de polarização entre os anti e os pró Pinochet. O Chile soube inteligentemente fugir dessa "dicotomia burra" e assimilou o que de melhor cada Governo lhe ofereceu.
    Estudantes hoje por "melhoria dos seus direitos" e não por ideologia. Quem paga impostos exige o que melhor lhe satisfaz.
    Parabéns !!! Chi Chi Chi Le le le

    ResponderEliminar
  7. Mirtes, uma das observações mais marcantes da minha viagem, foi exatamente esta isenção de polarização entre os anti e os pró Pinochet. O Chile soube inteligentemente fugir dessa "dicotomia burra" e assimilou o que de melhor cada Governo lhe ofereceu.
    Estudantes hoje por "melhoria dos seus direitos" e não por ideologia. Quem paga impostos exige o que melhor lhe satisfaz.
    Parabéns !!! Chi Chi Chi Le le le

    ResponderEliminar