segunda-feira, 15 de abril de 2013

QUEM TEM MEDO DA GLOBALIZAÇÃO - 15 ANOS DEPOIS




(Shenzhen)

Por Antônio Figueiredo


Sem dúvida de todos os textos semanalmente publicados aqui no Veneno Veludo nenhum causou tanta polêmica como o QUEM TEM MEDO DA GLOBALIZAÇÃO. Aqui e agora vou confessar, que por falta de tempo para cumprir com o compromisso semanal assumido, fui buscar o texto dentre meus velhos escritos lá do ano de 1998 e que mesmo assim continua provocando tanta polêmica dada à sua permanente e renovada atualidade. A Globalização é um fenômeno de natureza dinâmica desde o início dos tempos e assim após 15 anos decorridos do escrito, já temos a possibilidade de fazer um comparativo da percepção inicial sobre o seu “perde e ganha”, que a despeito do temor de que uma vez mais os países mais ricos e hegemônicos seriam os grandes favorecidos, constatamos que eles foram os “grandes perdedores” e os “grandes ganhadores” os BRICS e muitos dos países em desenvolvimento. Gostaria, contudo de aqui retroagir mais alguns anos nesta análise usando dados das minhas experiências profissionais à época, que me revelaram uma constatação intrigante.

Lá pelos idos de 1988, depois de uma tentativa fracassada de 4 anos em me tornar um “homem do campo”, já naquele tempo um “pequeno e médio produtor” era um “sem amparo”, voltei às minhas atividades profissionais regulares, só que desta vez no ramo da Informática. Vivia o Brasil então sob a Lei de Reserva de Mercado, na minha avaliação pessoal a “parte burra” do “programa de substituição de importações” promovida pelos Governos Militares e subsistindo ainda a “proibição de importações de praticamente tudo”. É desnecessário dizer-se que isso incentivou a prática do contrabando e, por conseguinte da “corrupção aduaneira e da Polícia Federal” e é ainda dessa época que Roberto Campos em plena tribuna do Senado apresentou-se com uma garrafa de champagne e uma taça e fez um brinde aos “contrabandistas do Brasil, mantenedores do país tecnologicamente atualizado”. Coube a Fernando Collor com seu discurso sobre as “carroças brasileiras” romper definitivamente com essa “estupidez histórica”.

O Brasil por sua proximidade logística e relações comerciais históricas teria sido o “parceiro ideal”, mas cometeu um “erro estratégico”, que foi a manutenção da absurda Lei de Reserva de Mercado, que nos fez perder mais esse “bonde da História”. As ambições geopolíticas do Brasil, à época em disputa aberta com a Argentina, (Visão Geopolítica de Golbery C. Silva), que já tinha seu reator nuclear, (Atucha, iniciada a construção em 1968 e operante em 1974), eram o ingresso na tecnologia nuclear e a construção da bomba atômica, (Acordo Nuclear Brasil – Alemanha – 1974). Não por acaso ou coincidência que todo desenvolvimento do potencial hidrelétrico brasileiro concentrou-se na Bacia do Paraná como um “fator dissuasório” na visão geopolítica dominante contra esse “risco nuclear” instalado às margens do Rio da Prata próximo a Buenos Aires. O controle desse processo não seria possível sem o uso de computadores e por isso uma lei que incentivasse o desenvolvimento de “tecnologia verde e amarela” era “essencial”.

Computadores e tecnologia eram então considerados “bens de capital” e por isso empresas americanas detentoras das patentes, principalmente de microprocessadores e “chips de controle” repassaram “sob royalties” a terceirização da fabricação para países do Sudeste Asiático, (Japão e Taiwan). Os USA ganhariam por pelo menos 30 anos seus “royalties” e os asiáticos, então abundantes em mão de obra muito barata, a ocupação de seu fator de produção mais competitivo. Os USA, contudo cometeram um erro estratégico, pois acostumados ao “mainframe”, (computadores de grande porte – IBM e etc), não se deram conta que o “computador pessoal” não lhes garantiria a continuidade do “domínio tecnológico”. O principio do que “quem faz, aperfeiçoa” transferiu o “domínio tecnológico” ao Japão, que passou a explorar a mão de obra mais barata de Coréia e Taiwan, que assumiram o “domínio tecnológico” e que em cascata passaram a explorar a mão de obra barata de China, Filipinas, Vietnã, Indonésia e outros vizinhos. O PC havia quebrado um paradigma estratégico industrial, pois tornou a “tecnologia e o produto” um “bem de consumo”.

Em 1994 passei a envolver-me em planejamento de processos integrados de logística de suprimentos dentro da área de Informática, que foi quando se começou a falar de China, até então um “regime extremamente fechado”, mas que ensaiava os seus primeiros passos rumo ao seu “comunismo capitalista”. É dessa época as primeiras transferências de fábricas de Taiwan para o Continente e um “desafio logístico” colossal se apresentava, pois a maior parte da produção sediada na província próxima de Guangdong, (a primeira das cinco Zonas Econômicas Especiais – ZEE’ s), tinha que buscar o Porto e o Aeroporto de Hong Kong, ainda sob protetorado Britânico. Das outras ZEE chinesas mais ao Norte a opção era o Porto de Shanghai. Dada à precariedade das estradas e uma malha ferroviária obsoleta o Governo Chinês oferecia transportes a “preços de banana”, que era realizada por veículos militares do Exército Chinês e custos mínimos de operação portuária. As ZEE foram criadas no final da década de 70 por Deng Xiaoping após a morte de Mao Tsé Tung.

Em 1997 estive pela primeira vez em Taiwan e então já se comentava de núcleos de industrialização mais tecnológicos de empresas locais que se transferiam para o Continente mediante um processo de isenção total de impostos, mas com o compromisso de transferência de tecnologia, o que veio a comprovar que a guerra entre ambas nunca passou de “discurso político”, pois o que nunca interessou à China era a “ruptura do fluxo de capitais de investimento” via sua “província rebelde”. Em 1999 estive em “Mainland China” como lá se diz e entrando por Hong Kong, que já havia passado para o domínio chinês. A visão da cidade era impressionante por sua modernidade e organização até a “primeira alfândega”, (antiga aduana inglesa), mas a partir daí o cenário mudava dramaticamente, a começar pela “segunda alfândega”, (a antiga chinesa), que parecia uma dessas rodoviárias de interior. Viajamos por uma rodovia “modernizada”, passando ao lado de Shenzhen, que era então uma pequena cidade de pescadores, mas que já exibia dois
altos edifícios e um terceiro em construção.

Hospedamo-nos em um hotel, que era também restaurante e boate/discoteca frequentada por uma quantidade muito grande de adolescentes chinesas, a partir de doze anos, já prostituídas, às margens da rodovia, (única via asfaltada) e circundada por ruas de terra e construções muito humildes típicas de uma zona rural. A fábrica que visitamos ficava em um antigo complexo militar com edifícios dormitórios e galpões transformados em área industrial sem qualquer “planta produtiva”, com jornadas diárias de dezesseis horas, inclusive aos sábados e domingos e os salários pelo que soubemos muito baixos e sem quaisquer benefícios sociais adicionais. Durante o horário de trabalho havia intervalos de descanso e os operários debruçavam-se sobre a bancada de trabalho para um ligeiro repouso. O dono da indústria parecia com um “peão” e não falava inglês, tendo para essa finalidade contratado um jovem de uma província a oeste.

Pois bem, essa é uma imagem de catorze anos atrás e Shenzhen hoje possui porto e aeroporto internacionais. Tem hoje cinco milhões de habitantes com um perfil urbano ultramoderno, assim como toda a China Moderna dos trens-bala, rodovias e suas obras de arte moderníssimas e uma infraestrutura invejável de portos e aeroportos e riqueza que lhe propiciou ter patrocinado uma Olimpíada. Mas nem tudo são flores nessa economia, que deverá ser a mais importante do mundo nos próximos anos, além de ser o maior credor atual dos USA. A China sabe que se os USA e a Europa forem mal, toda economia mundial globalizada irá de mal a pior e por sua cultura e experiência milenares sabem que o desafio maior está adiante, pois fazer isso sob um regime “praticamente ditatorial” foi fácil, (aqui no Brasil vivemos fenômeno semelhante durante a Ditadura Militar), mas que estender o direito de propriedade aos camponeses, equiparando-os aos “chineses metropolitanos” é uma tarefa impossível. A economia chinesa incorporou até agora  500 milhões de cidadãos e o dilema agora é o que fazer com os outros quase novecentos milhões, pois necessita de altíssimas taxas de crescimento para essa finalidade, (foi nisso que os militares falharam no Brasil, após o primeiro choque do petróleo em 1973), além do fato de serem extremamente dependente de recursos naturais externos como comida, petróleo e matérias primas, além do fato de que muitas nações no futuro podem vir a competir com a China com mão de obra ainda mais barata. A Globalização atual é a dos “custos e preços baixos”. A globalização do direito do consumidor.

Com certeza esta não é uma vantagem competitiva que o Brasil e a América Latina possam oferecer, além de que a Indústria não é mais a “locomotiva” dos empregos e seus altos salários da mão de obra especializada não contem tanto como no Modelo Econômico de sessenta anos atrás. Sobram nossa riqueza mineral em metais e petróleo conjuntas como “reservas de barganha” para “pactos estratégicos” e um solo e clima propícios à produção de alimentos, além das maiores reservas aquíferas, para matar a fome e a sede futuras do mundo. Como comentamos no último artigo os capitais hoje e no futuro serão recursos “quase supérfluos” e não é à toa que países principalmente do Extremo Oriente, bem como da Europa e Estados Unidos buscam parcerias para o futuro, que garantam o “suprimento de boca”. Este sim a grande vantagem competitiva para um mundo que caminha a dobrar sua população nos próximos quinze anos.

Estes últimos quinze anos já os perdemos por “indecisão estratégica” e que pela razão inversa pertenceram à “atrevida China”. Precisamos decidir urgentemente o que vamos querer ser, quando crescermos.

Antônio Figueiredo, o @ToniFigo1945, é economista e agora, o tradutor da conjuntura econômica da América Latina - e do mundo em geral - para o blog.


10 comentários:

  1. bom dia..

    legal seu blogger.


    Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.

    Antes tem o seu prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.

    Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará.

    Não são assim os ímpios; mas são como a moinha que o vento espalha.

    Por isso os ímpios não subsistirão no juízo, nem os pecadores na congregação dos justos.

    Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos ímpios perecerá.
    Salmos 1:1-6

    Abraços
    Jesus Cristo te Ama!
    Ele é o Caminho e a Verdade e a Vida.

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  2. opcao_zili15/04/13, 18:16

    Seremos tudo isso e muito mais se o PT não vender o país inteiro para os gringos e chineses.Já começaram a vender terras com reservas de água doce.Se continuarem assim, vendendo sem nem saber o que ( duvido que conheçam nosso subsolo) ficaremos reféns dos estrangeiros. Pagaremos caro para matar a sede, e, pior, em casa.

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  3. Acho que o problema maior é que o governo acha que nós já "crescemos" e por isto não pensa a longo prazo. Isto,mais uma ideologia comercial equivocada está nos fazendo reféns até da Argentina.

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  4. Você sabe que voltei faz 1 mês da China, e confesso ainda me recuperando do impacto de modernidade e infra estrutura; trens e metrôs a cada quadra, os negócios são tratados de forma profissional; a maneira quase (e sim) militarizada das crianças saindo para a escola... Mas o que me encantou foi o respeito e absorção dos "velhos" no mercado.
    O Mundo ainda não é globalizado, as agencias de notícias sim, mas cada região, cada continente ainda cavalga no bairrismo ufanista regional ( nem preciso falar daqui né)... Excelente aula Antônio.

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    1. Tânia, vc está desafiada a escrever sobre essa sua experiência. Teríamos muito a aprender de quem em 20 anos saiu da "idade média" para o Sec. XXI

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    2. Uiiiiiiiii ok aceito o desafio, o título você já forneceu "Da Idade Média para o Sec XXI - A China que camuflou o vermelho"... Vou rascunhar algo até sexta ok?

      Beijos!

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  5. Toni, depois da reserva de mercado, o Brasil novamente toma o bonde do atraso e atola na lama do Mercosul, enquanto a Globalização transforma Nações inteiras via acordos bilaterais.

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    1. Geraldo, esse é o objetivo desta série e gostaria de transformar em forum os temas abordados com idéias, exemplos e principalmente muita reflexão. Conto com vc

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  6. Ótima ideia Toni, o Brasil está precisando disto, refletir sobre o momento atual, sua historia e o futuro que queremos para o País, será uma satisfação participar.

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  7. Zinha Bergamin (@Lelezinha_09)15/04/13, 22:28

    Então,no tempo dos militares, eles fizeram até que coisas importantes,como Itaipu,e mais outras obras,mas eram cautelosos, não tinham o "filling" para o comércio exterior...

    No tempo do FHC ele e sua equipe, já foram mais ousados, lembro-me do "Serjão Motta" que enfrentou críticas e mais críticas qdo "peitou" a oposição,mas conseguiu avançar para a telefonia moderna! Foi um tempo melhorzinho,onde o país começou a se inserir na modernidade.

    Mas na "era Lulla", ele mais surfou nas benesses deixadas pelo FHC do que nos trouxe algo inovador, ousado, dinâmico! Pena; foram anos mornos, onde o que mais cresceu foram as indefectíveis bolsas e a corrupção!

    Fico torcendo para que ainda sobre alguma coisa para o próximo presidente não- petista, que tenha capacidade e empenho em colocar-nos nos trilhos da modernidade e na tecnologia mais avançada!

    Mas,quando penso no "aparelhamento" que fizeram ao país,e na volúpia que eles têm em permanecer no poder, duvido muito que o país saia dessa estagnação.

    Pobre do pequeno-grande país!

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