segunda-feira, 8 de abril de 2013

QUEM TEM MEDO DA GLOBALIZAÇÃO?




“Uma semente de mostarda não gera maçãs”, diz a milenar sabedoria oriental sobre se aprender com a História. É o passado que gera o futuro, pois a vida sob todos os aspectos é continuidade e a Economia é um dos aspectos da vida. Assim, para a correta compreensão do processo evolutivo da Globalização, um mergulho no passado é essencial, face às muitas opiniões sobre os reais interesses por trás desse processo. Muitos o enxergaram apenas como uma tentativa de continuidade da supremacia dos países ricos sobre os mais pobres, já outros como uma oportunidade histórica dos mais pobres em fazer prevalecer suas vantagens competitivas para um futuro mais justo.

Assim, passeemos pela história. Já vai longe o meu tempo de bancos da Universidade, lá se vão exatos 43 anos, quando então se louvava o Milagre Japonês e pasmem, o Milagre Brasileiro. Na cadeira de Introdução à Economia ensinava-se: “A Economia é a ciência que trata da escassez”, ou seja, “da limitação dos recursos disponíveis para a geração de riquezas, os chamados fatores da produção”. Os recursos naturais um dia exauríveis, a mão de obra existente insuficiente ou inadequada e o Capital (Investimento), na época o mais escasso de todos os recursos, (falamos de um tempo anterior ao primeiro choque do petróleo em 1973, que foi o fator detonador da expansão monetária mundial descontrolada). Aliás, Karl Marx provocou uma revolução na verdadeira acepção da palavra, a Russa em 1917, que levou à criação do Comunismo em contraposição ao Capitalismo explorando a luta de classes: O Capital, o Trabalho e a Lei da Mais Valia.

Decorrido quase meio século, não existem mais os milagres japonês, brasileiro ou quaisquer outros, o capital já não é tão escasso e nem o regime comunista da União Soviética existe mais. Como bem ensina a experiência, na história tudo navega em ondas cíclicas. Nascimento, crescimento, apogeu, declínio e morte. Para a vida animal, vegetal e mineral, para as sociedades, enfim, para tudo o que existe no Universo. Já pregava Lavoisier: “Nada se cria, nada se perde. Tudo se transforma” e constatamos que esta verdade se aplica a tudo, não só à Química.

Aceita a teoria dos ciclos, partindo-se lá de trás na história até chegarmos aos dias de hoje e enumerando todos os impérios que exerceram ou exercem hegemonia: Egito, Grécia, Pérsia, Roma,..., saltando milênios..., a Inglaterra, em cujo império o sol nunca se punha, a Alemanha de Hitler, a União Soviética e os Estados Unidos, cabe uma pergunta: Qual o “ciclo vital” de um país rico e hegemônico no decorrer dos atuais tempos ? Cada vez mais curto é a resposta, pois mesmo potências são consumidas pela simples razão de que, a cada dia que passa as vantagens competitivas que permitem o seu surgimento
e manutenção se exaurem com maior velocidade. 

Relembro então as primeiras aulas na faculdade e questiono: Porque nenhum mestre se referiu a este como sendo também um recurso consumível? Porque ninguém previu que um dia poderá faltar oxigênio até então um recurso natural infinito? Teriam falhado os mestres no ensino? Não. Aqui parafraseio um grande filósofo francês: “A guerra é um assunto importante demais para ser deixada por conta exclusiva dos militares”. O mesmo se pode dizer da Economia e dos economistas. O homem conceitua e age e a natureza reage e determina novas condições para que o homem produza novos conceitos e aí vai o cachorro atrás do rabo. Como todas as ciências, a Economia por si só, não tem todas as respostas, nem mesmo para as realidades econômicas e é, portanto, insuficiente para se entender a globalização. Palavra de economista.

A relação de importância que se fazia entre países ricos e pobres pode ser entendida comparando-se seleções de futebol em Copas do Mundo de antigamente. Usualmente as “seleções da primeira vez” eram verdadeiros sacos de pancada das seleções tradicionais. Atualmente não existe mais ingenuidade. Seleções multicampeãs dia após dia tem mais dificuldades em vencer seleções da “ilha do xique xique”. Qual é a explicação? A globalização. Nestas alturas o leitor deve estar pensando: “Este cara delira. Está sonhando.
É igual a quem só pensa em mulher. Vê sexo em tudo”. Nada mais errado e a explicação é simples. Todos os grandes craques do mundo, em meio ou final de carreira, tem ido jogar nos rincões mais longínquos e a maioria dos bons jogadores de países até então não tradicionais disputam Copas na Europa, hoje transformada em verdadeira Legião Estrangeira, ao mesmo tempo que explica o enfraquecimento de Brasil, Argentina, que tem “exportado sua excelência” para Europa, Turquia, Cazaquistão, China e Coréia. É o “futebol globalizado”, que é pura troca de experiências em uma aldeia cada dia mais global. Nem índio troca mais pepita de ouro por espelhinho ou colar de balangandãs, pois hoje até índio vê televisão. É a globalização provocada pela comunicação.

Assim, voltando à análise histórica, sempre foi uma característica no intercâmbio comercial entre países ricos e pobres que a relação de valor nas trocas de produtos sempre favorecia o rico em detrimento do pobre. Para se comprar um carro feito nos Estados Unidos uma grande quantidade de café, ou de borracha, ou de minério de ferro era necessária por parte do Brasil. Em outras palavras, o valor agregado, a remuneração dos fatores de produção dos Estados Unidos, valia muito mais que a remuneração dos fatores de produção no Brasil. Um americano valia dez brasileiros. Basta se comparar a “renda per capita” (renda média individual) nas estatísticas oficiais de alguns anos atrás. A diferença estava na capacitação oriunda do conhecimento e uso de tecnologia. E hoje, ainda prevalece a mesma realidade? As diferenças entre países ricos e pobres são ainda tão gritantes? A qualidade de vida comparada é ainda tão desigual? Evidentemente que não. Nem só os Estados Unidos produzem automóveis e nem só o operário americano é o único capaz de fazê-lo. O Japão colocou de joelhos a indústria automobilística americana, os preços caíram e a relação de troca mudou. Países como a França, Itália, Alemanha, Coréia e Brasil e muitos outros começaram a produzir carros competitivamente para atender a demanda da sociedade de consumo. Com isso as desigualdades diminuíram tanto no que se refere à distribuição da riqueza entre os países como na diferença da qualidade de vida comparada.

Tudo é consumível nesta nova realidade social: bens, tecnologia, craques de futebol, lideranças políticas e conceitos. Tudo. O ciclo vital da supremacia é cada vez mais curto e toda vantagem competitiva é temporária. Mudanças constantes como em uma mesa de jogo. É a troca aberta de informações que torna acessível o conhecimento. E Tecnologia é o conhecimento organizado, que enquanto um segredo privado era uma arma poderosa de dominação política, científica, produtiva e militar. Hoje em dia qualquer país sabe como fabricar uma bomba atômica e segundo dizem a fórmula está até na Internet. É a globalização do conhecimento. Mesmo nas atuais crises financeiras mundiais, tanto ricos quanto pobres são afetados. É Economia de Mercados Globalizados socializando não só vantagens, mas também riscos. Em uma Economia Mundial com dinheiro demais e líderes carismáticos, idéias e capacidade empreendedora de menos o equilíbrio é crítico e até a confiabilidade também só “tem 15 minutos de fama”. A constatação é imediata e nada de novo existe entre o céu e a terra. A globalização principiou no exato momento em que o primeiro macaco encontrou um segundo, formando o primeiro grupo e estes dois encontraram outros dois que formavam outro grupo. Globalização é um neologismo para um processo antigo.

A criatividade através de idéias genuinamente inovadoras e não velhos conceitos rearranjados como Reengenharia, Qualidade Total e IS0 9000 e muitos outros em moda, tem o mesmo poder que a detenção de segredos tecnológicos no passado. Isto nos leva a outra constatação: “Cérebros”, são neste início de novo milênio o fator mais escasso. Certamente, caberá à geração “new age”, a da era de Aquário, nos brindar com um novo Renascimento ou até mesmo um novo Iluminismo, desde que como nos tem ensinado a história a que preparemos nossas gerações futuras: nossos cérebros. Porque quem tem
“cérebros” e “capacidade criativa” não pode ter medo da Globalização.

Antônio Figueiredo é o @ToniFigo1945, economista, tornado na prática, agora, um especialista em América Latina.

14 comentários:

  1. Texto exemplar meu caro. Vou postar lá no face. Um abraço do Denis.

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  2. A tecnologia tranformou o conhecimento, que antes era muito mais a elegância do erudito nos salões da corte, em poder.
    Conhecimento é poder.
    O chip japones na ponta do míssil americano que talvez exploda na Coréia indica bem essa relação de conhecimento - tecnologia e poder.
    Boa tacada Antônio. Continue.
    Abraço

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  3. opcao_zili08/04/13, 19:04

    Excelente e didático, professor. Quem será que tem medo da globalização?Apenas os que querem manter a população ignorante para dominação total, sem "cérebros".

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  4. Mais um excelente texto Antônio

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  5. O grande erro é pensar que o processo de produção industrial pode ser expandido indefinidamente. Uma ordem cósmica nos diz agora: Parem de consumir! E isso mudará o curso da História. Leitura oportuna Schumacher: "O negócio é ser pequeno". Obrigado pela oportunidade de comentar. Bakunin.

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  6. Antônio
    Muito boa sua crônica.
    Começa bem ao citar o passado gera o futuro, mas também é no presente que entendemos o porquê somos assim, ou as coisas são assim. Com esses dados projetamos o futuro.
    Saber do passado é entender o presente e quem sabe melhorar nosso futuro socialmente, economicamente e de pensamentos.
    Essa economia que voc~e aprendeu que trata da escazes, pode até ter suas razões, mas para a época. Hoje já tratamos de um mundo bem mais globalizado, não menos selvagem, mas a escassez não só de alimentos, como conhecimentos é vertente, é perceptível aos olhos de quem a vê de uma forma mais digna.
    Você está certo os tais milagres econômicos, já não existem mais. Vivenciamos uma dura realidade principalmente na Europa e EUA – com reflexo no mundo.
    Seu relato é uma breve história da história contemporânea de momentos de muitas alterações ideológicas, formações de outras e o declínio de várias, mesmo ainda insistindo no “Obvio fracasso”.
    No mundo globalizado ninguém é mais bobo Antônio...só quem quer ser, e continuar no atraso econômico, cultural, ideológico, e ainda existem vários países assim. Mas como diria um amigo “Vê se o Lula é bobo na hora de ir para Cuba ou para o SUS como o Chaves, foi se tratar onde existe mais condições tecnológicas”. No futebol como voc~e cita, também evolui em todos os cantos do mundo. Nos anos 50 e 60 aqui no Brasil, qualquer grande Clube do eixo RJ e SP, vinham aqui e goleavam, agora que se cuidem para não ser o contrário.
    A Globalização de hoje é muito mais rápida que outrora, mas ela já existe desde que o homem chegou ao fim do mundo “Chile”, embora lenta, porém globalização é coisa da pré-história, desde o homem das cavernas.
    Sempre afetou a todos as crises, e pensar que muita gente torce contra esse ou aquele país, um absurdo, no mundo extremamente rápido nas questões tecnológicas, um depende do outro e devemos nos agarrar no conhecimento e mudança de atitudes globais.
    Palavras chaves em seu texto: Globalização, Ideologias, criatividade, Cérebros.
    Parabéns
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história

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    1. Caro Mestre

      É sempre agregador ouvir a voz da experiência e da sabedoria. Na verdade a "grande crise" atual é a de "falta de ousadia". Como dizia um grande amigo mineiro, bom de truco e de cachaça: Estou ferrado, mesmo... então TRUCO !!!
      As pequenas e grandes conquistas históricas sempre se deram sob o mantra "sangue, suor e lágrimas. Hoje o "sangue" é o alheio, o "suor" é do operário e as "lágrimas" dos desprotegidos. E pensar que há 40 anos pensávamos que a tecnologia viria para nos liberar do "trabalho dominador" para nos dedicarmos ao social e familiar.
      Só se esqueceram de prever que a população do mundo cresceria 100%, (eram 3,5 bi e agora 7.5 bi) e agora sabemos, que mantida as atuais taxas de crescimento demográfico chegaremos a 15 bi em 15 anos.
      Certamente faltará comida, água, emprego, saúde, habitação e sobrará mais miséria, principalmente para os asiáticos e africanos. O que fazer ?
      Ao adotar-se a solução empregada até hoje, históricamente, PRECISAMOS DE GUERRAS e PESTES... ou será que a humanidade "humanizou-se" para buscar outras soluções ?

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  7. Sem dúvida, caro Antônio, um excelente pensamento sobre os efeitos da Socialização da "Economia de Mercados Globalizados".

    Se me permites, no entanto, faço uma pequena observação, quase uma constatação, que em parte se contrapõe a isso que escreveste: "Com isso as desigualdades diminuíram tanto no que se refere à distribuição da riqueza entre os países como na diferença da qualidade de vida comparada".

    Isso é verdadeiro para a relativamente pequena parcela do mundo que pode participar da globalização, pois veja que ainda temos um nível brutal de pobreza, fome e sede no mundo, em países que não tem acesso à tecnologia e que, por isso mesmo, são explorados como fonte de recursos naturais apenas (vide exemplos na África, Ásia e mesmo o Brasil, dito "celeiro do mundo")

    Isso posto, e embora concordando com a tese do artigo, te perguntaria: ceteris paribus (só pra recordar as aulinhas) os "cérebros" e a "capacidade criativa" sairão dos países já globalizados, formados em um modelo ainda de exclusão, de escazzez. Háverá essa capacidade de criar um modelo que seja inclusivo e efetivamente globalize a humanidade?

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    1. Caro Afonso

      Não existe "justiça automática" e nem "almoço grátis". A diminuição das diferenças ocorreu pela luta dos "menos desenvolvidos" fazendo vales suas "vantagens competitivas". A História não se baseia em "justiça" e sim em "guerras".
      Os países africanos e asiáticos mais pobres tem recursos e vantagens competitivas, mas também ditadores que "fecham seus países", que é a única forma de manter sua dominação.
      Até a década de 50/60 tínhamos nossos "coronéis" e não tínhamos "capitais". Caminhamos, lutamos e avançamos.
      Que eles façam o mesmo, pois como diz o ditado: Mateus, primeiros os meus.

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    2. Caro,

      Não me parece condizente, esse teu comentário, com o que escreveste: "caberá à geração “new age”, a da era de Aquário, nos brindar com um novo Renascimento ou até mesmo um novo Iluminismo, desde que como nos tem ensinado a história a que preparemos nossas gerações futuras: nossos cérebros."

      A continuarmos com o pensamento nem um pouco inovador (criativo) de que "quem pariu Mateus que o embale" não haverá Renascimento ou um novo Iluminismo. Ou então eu fazia um conceito errado do que seria a tal Era de Aquário.

      Sempre tive a particular impressão de que seria justamente sobre o paradgima da "vantagem competitiva" que conseguiríamos transformar o mundo, ao transformar competição em colaboração; individualismo em solidariedade.

      Ou seja: Mateus? Os nossos...

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    3. Amigo,

      Tanto quanto vc fui e sou um dos navegantes da "nau da esperança" da Era de Aquário e firmemente acredito nela. Não pelo fato de que a "bonança" amoleça os sentimentos e gere a "fraternidade", mas porque o ser humano só busca integrar-se quando a "desgraça acontece" e é coletiva.
      Por outro lado, para que todos usufruam do mesmo benefício, as nações tem que ter condições "assemelhadas", que não é o que vemos nos "regimes ditatoriais" que como "ostras", se fecham em suas conchas para se defender e com isso expõem seus "povos" às condições mais degradantes.
      Neste ponto, amigo, não há como ajudar ou salvar a quem não quer ajuda ou ser salvo.
      Obrigado pela polêmica.

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    4. Como bom conhecedor e amante da história, que sei que és, te pergunto: não existem, na verdade, duas condições para a criação de "ostras"? A primeira, imposta pelo criador que as coloca em "plantações" isoladas; e a segunda, que, uma vez isoladas, as condições tornam-se propícias ao surgimento de ditadores? De outra forma: uma vez isoladas do mundo (causa primeira), o surgimento de regimes ditatorias não é consequência natural?

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    5. Caro amigo, seu comentário me trouxe a constatação de que até a "esquerda materialista" evoluiu. A admissão de um "criador" para um "marxista" deve ser comemorada por todos os anjos e santos da "casa do criador" (risos). Brincadeira !!! Você sabe o quanto admiro a sua "rebeldia questionadora".
      Não saberia te responder sobre o ato de criação ter sido feito em áreas isoladas ou não (colônias), mas pelo comportamento de toda a "criação" no processo evolutivo sabemos que os seres vivos sempre migraram e continuam migrando para ambientes mais favoráveis e até mesmo adaptando-se às mutações desfavoráveis ao desenvolvimento da sua espécie.
      Não é o que exatamente ocorre com as ditaduras ?

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  8. Prezado Toni, seu texto brilhante nos faz lembrar que a economia é ciência fundamental para equilibrar e otimizar recursos cada vez mais escassos, por outro lado a globalização é um processo que nos faz perceber que estamos todos na mesma nau, navegamos juntos e ao mesmo tempo solitários por este vasto universo e somente o rompimento das fronteiras, principalmente as psicológicas e culturais, (porque as físicas estão cada dia mais tênues), nos darão a força necessária na preservação da especie.

    A Globalização já tornou obsoleto e anocronico todo e qualquer líder politico que pensa hoje em reserva de mercado e isto por si já demonstra a mudança cultural, somente quem hoje agrega é capaz de seguir em frente e se desenvolver.

    Grato pelo belo texto que nós ajuda a refletir e conscientizar sobre o nosso dever com o resto do globo.

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