quarta-feira, 29 de maio de 2013

DIÁLOGO SOBRE A ANERVIA

"Passamos tanto tempo enfatizando direitos, que negligenciamos o ensino de obrigações. A quem muito foi dado, muito será pedido”. (Solzhenitsyn)


Paralisia, impotência. Perceber a carência da ação nervosa que imobiliza, por desalento, descrédito ou por exaustão, nos torna semelhantes a um mecanismo de relógio que precisa de corda para funcionar, mas que jaz, esquecido.  Pregar no deserto, para as areias do tempo, sem efeito algum, frustra e cansa. É grande a tentação de largar-se pelo caminho, tal qual o relógio, no fundo de alguma gaveta.

Ninguém deveria ter a obrigação de se portar como um valente incansável o tempo inteiro. Os sentimentos minúsculos, por suas características negativas, são tão presentes na vida de qualquer um como são os outros, os maiúsculos: vontade, determinação, energia, disposição. Quem imagina viver sua vida sem experimentar os primeiros, muito provavelmente não se porta com tanto empenho como sugere o segundo rol de sentimentos exemplificados. Só se entende desiludido e tentado a desistir do que quer que seja, invariavelmente, quem agiu, quem passou pelo estágio da vontade, da determinação, quem teve disposição para realizar algo mediante o mundo que vê representado em idéias ou acontecimentos. Fracasso é o oposto de falta de ação. Já a ausência de vontade caminha em paralelo à inutilidade.

Há um grande contingente que permite que a sua vida flua de modo insignificante e fútil. São os felizes fundamentais, que não se deparam, por desinteresse, incapacidade, omissão ou fuga, com a vida real. Vistos de fora confundem-se com seres alegres. Vistos de dentro, sob análise profunda, são apáticos e sem sentido. Os que expressam o martírio de seus abalos que empresta uma carga de amargura e, sem sombra de dúvida, é responsável por profundo tormento, vistos de fora, superficialmente, são tidos como infelizes. Mas vistos de dentro, são forjados da ânsia de realizar. E só realiza quem é capaz de pensar. Isso é consciência: o intelecto move o espírito realizador. 

O realizador vive com a máxima de que nenhum canto de nenhum lugar pode ficar vazio. Leva sua virtude, justiça, integridade e move-se para aquele lugar. Sabe que pode alcançar o fracasso ou a recompensa. Ambos amadurecem o homem, que reconhece que pode se sentir miserável, exausto, abatido e frustrado, mas jamais com pena de si mesmo. Este é o que carrega suas cicatrizes como forma de se lembrar, e orgulhar-se, do enfrentamento. Morrer atingido por uma bala é o risco de um soldado.

Em tempos onde o marketing do comportamento prega a busca obsessiva por direitos, quem olha e vê, pensa e reage, fracassa e se frustra, tem todo o direito de render-se ao cansaço. Tem o sagrado direito à anervia. Seu intelecto inquieto, pode apostar, não deixará prostrado por muito tempo. O prazer eterno é uma quimera. É conformismo. Viva a decepção, a angústia e o desespero. Onde estiverem esses, não se encontrará a inércia, a preguiça, nem a burrice. 

Desde que me entendo gente, e ultimamente mais que antes e que tudo, sinto-me miserável e orgulhosamente exausta.

(Ilustração: Mulher Triste, desenho de Romeo Zanchett)

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