segunda-feira, 13 de maio de 2013

MENINOS SONHAM HOMENS



Nesta semana meu artigo tem sabor de gratidão e mais principalmente de “reflexão triste”. Acabei de lançar pelo site da AMAZON o meu primeiro livro: MENINOS SONHAM HOMENS e a gratidão é pela generosidade da @ReginaBrasilia, que tão gentilmente cedeu espaço no seu blog Veneno Veludo,  para a série LATINOAMERICANIDAD e que acabou constituindo-se na “ideia semente” do livro. Já a reflexão deriva da constatação de que precisamos cuidar da “formação infantil” das nossas crianças para que cresçam felizes, fruto de uma infância plena, para que venham a constituir-se em “brasileiros conscientes” da sua responsabilidade e acima de tudo, da sua importância na formação de uma Nação, que engatinha democraticamente, mas que será na qual viverão. Esta poderemos prepará-la, mas não construí-la customizada para eles, pois não somos amos e senhores de seus sonhos e aspirações. 

Fiz recentemente uma viagem pelo interior de São Paulo e constatei uma realidade assustadora ao percorrer o RODOANEL, desde a saída da Rodovia Castelo Branco até a Via Anchieta e depois na subida de Santos, desde a Imigrantes até a Airton Sena. Um processo de favelização assustador toma a Periferia da Capital e isso me fez voltar aos tempos de infância e juventude, morador que fui da periferia paulistana de então. Minha infância passei-a quase toda na Vila Maria, (1951 a 1956) e minha juventude parte dela em Artur Alvim, (1961 a 1963) e depois Vila Maria até casar-me, contudo em cenários muito distintos das atuais periferias. Tanto na Vila Maria, quanto em Artur Alvim o que se via então eram casas simples divididas em quarteirões regulares demarcados por ruas de barro e sem qualquer infraestrutura sanitária, mas com instalações de eletricidade regulares. Eram, ambas periferias, pobres, mas não miseravelmente favelizadas.

Aquela Vila Maria tinha uma “boca de fumo”, ou melhor, “um ponto de encontro de maconheiros” próximo à Igreja da Candelária, mas a droga então era de “uso privativo de malandros” e não a chaga social de hoje exposta pelo “tráfico empresarial de drogas” e nesse ambiente a infância não sofria os riscos modernos e tampouco representava um “mercado potencial” a desenvolver. (Na verdade, Vila Maria foi se tornar importante “boca de fumo” na década de 1970). Já em Artur Alvim a “barra pesada” era o famoso Baile do Risca Faca, uma gafieira imortalizada por Germano Mathias na década de 1960. Aos meninos nada era restrito, proibido ou perigoso, fosse a frequência aos campos de futebol às margens da Dutra na Vila Maria ou na Cidade AE Carvalho para os meninos de Artur Alvim. Mesmo as lagoas ermas da várzea do Tietê não tinham outro risco, que não a morte por afogamento dos “moleques mais atrevidos”. Essa liberdade era vista todas as manhãs quando crianças desde os 6 anos de idade caminhavam a pé pelas ruas dos bairros rumo à sua escola desacompanhadas de seus pais ou outros adultos. Os folguedos de fins de tarde e começo da noite aconteciam também nas ruas com toda a segurança e nela encontravam-se meninos e meninas de até 14 anos, quando aconteciam os “primeiros beijos”.

Em minha juventude, (1961 a 1963), trabalhei no Banco da Lavoura de Minas Gerais em uma agência que ficava na esquina da Rua Américo Brasiliense com a Avenida do Estado, em frente ao Mercado Municipal. Era de praxe todo final de mês fazer o “balancete contábil”, (nessa época o máximo em tecnologia eram as calculadora DIVISUMA da Olivetti) e para isso éramos convocados para uma “esticada”, após o expediente, que se estendia normalmente até às 02:00 ou 03:00 hs da madrugada seguinte. O único meio de transporte disponível àquela hora era o “bonde da Vila Maria”, (o saudoso 34) e para tomá-lo era preciso atravessar o Parque Dom Pedro. Alguém se arriscaria a fazer isso hoje em dia?

Nem é necessário nos dias de hoje tentar imaginar o que se passa nas periferias paulistanas e nas do Rio, BH e Porto Alegre, atualmente empurradas para muitos quilômetros além e as de Recife, Salvador e Fortaleza, ou de qualquer uma das capitais e grandes cidades brasileiras, que recebem “refugiados do Programa de UPP” do Rio. Os programas televisivos sensacionalistas e as Delegacias de Polícia têm a sua tragédia quotidiana e dramaticamente registrada. Mas o pior é o que vem sendo explorada pelo próprio Governo, jogando às costas da “sociedade reacionária”, a responsabilidade pela “quase convulsão social”, a que está submetido o Brasil. Fosse a situação atual provocada por um regime autoritário nacional e ou estrangeiro como acontece em muitos países do mundo, certamente estaríamos preparando uma “geração revolucionária”, que redimiria a Nação no futuro. Mas quando são as Autoridades Constituídas, que demonstram sua incompetência e inapetência para enfrentar tão graves problemas, só nos resta “chorar pela infância perdida”. Lembrei-me aqui de Casimiro de Abreu, que declamava no Primário:

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida,
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia,
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias de minha infância
Oh! meu céu de primavera!
Que doce à vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
- Pés descalços, braços nus -.
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
- Que amor, que sonhos, que flores -
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

MEUS OITO ANOS - Casimiro de Abreu, 1859.

Casimiro, tive o privilégio de te cantar... os “brasileirinhos periféricos de hoje” não.

Antônio Figueiredo, o @ToniFigo1945, é economista e agora, além do tradutor da conjuntura econômica da América Latina - e do mundo - para o blog, é autor de livro.

7 comentários:

  1. O mais triste é constatar que há vários tipos de acomodações
    1- daqueles que recebem uma ou todas as bolsas
    2- das ditas representatividades civis
    3- a mais covarde delas: da oposição.
    Assim, fica apenas nas mãos da classe média e da imprensa a luta contra a venezuelação do país

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  2. Preciso comprar o livro, mesmo sabendo que vou sofrer de nostalgia. Também penso em escrever sobre a nova infância que vem desenhando-se em tintas putrefatas nas últimas duas décadas, que, se já se encontra envelhecida, erotizada e violenta antes dos 10 anos de idade, não promete melhora nas décadas que virão.

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  3. Zinha Bergamin (@Lelezinha_09)13/05/13, 18:49

    Que saudade de minha mãe vc me deu...

    Ela vivia recitando a 1ª estrofe desta bela poesia e me pedia que a decorasse,pois é mto linda... E é mesmo!Lindíssima! Mas eu evitava decorá-la porque, era mto tímida, e sabia que assim que houvesse alguma reunião de amigos e familiares,ela fatalmente me convidaria a recitá-la! Seria a morte para mim! rsrs Caipira é mesmo uma melda!

    Enfim,apesar dos pesares pela nossa meninice e juventude tão perdidas nos dias de hoje,valeu a leitura,pois me lembrou mto minha "mãinha"!

    Gde abç a vc!

    Zinha Bergamin

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  4. Mestre Antônio!

    Que privilégio saber que suas obras estão tendo o devido respeito pelo merecimento com que coloca as palavras e as contextualiza de forma a um entendimento para a educação,como o #SOSEducação que tanto Cristina Brasilia.
    Sábios sentem outros sábios à distância.
    Parabens Regina, por sua sua visao e sensiblidade.
    Parabens Mestre Antonio, por sua lucidez e inteligência, eis fatores de sabedoria nata.
    Feliz de ser seu amigo.
    Felicissimo quando colocar as mãos em tua obra.
    Tê-la, entendê-la e guardar como exemplo para o futuro.

    Belo Trabalho Amigo
    Continue. E que Ele te abençõe sempre por ter esta mente brilhante.

    Com minha admiração e amizade


    Afetos do Sul!

    José Carlos Bortoloti
    Passo Fundo - RS -
    www.epensarnaodoi.blogspot.com.br

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  5. Adalberto Day13/05/13, 19:04

    Antônio
    Belo texto. E o livro deve ser um sucesso.
    Também escrevo várias passagem de minha infância em Blog. Aquela que pude usufruir dos estudos, lazer, e aos trabalhos caseiros que muito me orgulho.
    Normalmente quem teve uma boa infância, com os atributos de bons valores, será também um adulto com valores e e costumes morais e de muita ética.
    Parabéns
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

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  6. Toni, seu belo texto me encheu de saudades, nostalgia de uma infancia pobre e ao mesmo tempo feliz, saudavel, singela, de certo modo pura.
    Me trouxe tambem a constatação de que se em nosso tempo havia a pobreza e dentro dela um modo de sobrevive-la e supera-la pelo trabalho, o estudo o apoio familiar, o que temos hoje é a miséria, mas uma miséria principalmente de valores, donde surge a revolta de mãos dadas com a violência e sem projeto de vida surge uma guerra civil, não menos violenta que a que assombra a infância Palestina, mas muito mais suja pois é onde se lambuzam os donos poder.

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  7. Gostei bastante da leitura deste post e, certamente se o livro chegar a Maringa, o comprarei. Quanto a venezuelização do bréjil, isso vem ocorrendo desde janeiro de 2003 no dia da posse do pinguço de garanhuns que conseguiu a partir de então destruir todos os sonhos de quem tem mais de 60 anos vividos. Não posso deixar de mencionar o Regime Militar que nos legou Itaipu (hoje praticamente doada a los hermanos paraguayos); a EMBRAPA, a EMBRAER e muitas outras benfeitorias e benefícios que já não mais existem porém, e sempre há um porém, ouve um golbery no caminho e no caminho havia um golbery que patrocinou a chanchada apelidada de lulla, um vagabundo por excelência, ignorante por opção mas mentirozo contumaz que destrui todos os valores que existiam atgé então.

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