sábado, 1 de junho de 2013

DE ESTIMAÇÃO

Estimação: Ação ou resultado de estimar, ter carinho, gostar, ter respeito etc;
o mesmo que estima. (Dicionário Caldas Aulete)


Início de junho, voltando do trabalho, à noite, entrei num posto de gasolina no meu caminho, onde há várias lojas. Precisava comprar ração para a Cristal, minha bichon frisé de um ano, e ali havia uma pet shop que ficava aberta até bem tarde. Na frente da loja havia, como praxe, vários "aquários" com bichinhos para venda. Num deles havia uma ninhada de 6 filhotes de lhasa-apso, 5 machos e uma fêmea, nascidos em abril. Todo filhote tende a ser considerado fofo, uma gracinha, essas coisas. Cães peludinhos, ao que me parece, despertam-nos essa "fofice" um pouco mais, e chamam a atenção de qualquer um. 

Naquela noite, pela pressa, cansaço, e pelo hábito de ver constantemente filhotes expostos na loja, não me prendi à entrada. Até que um dos filhotes começou a "latir". As aspas são porque não era bem um latido o som que saía daquela criaturinha. Baixinho e rouco, quase delicado, quase pedindo desculpas pelo incômodo em fazer barulho. Um dos filhotes estava tentando "escalar" o vidro. Fui até a vitrine e fiz uma festinha com o animal. Comprei o que precisava e antes de ir para casa, fui à padaria ao lado. Quando voltei a passar na frente da loja, o filhote jogou-se contra o vidro novamente, e começou a ganir. Chorar, né? 

Nada na minha vida, até hoje, que eu me lembre, fiz por impulso absolutamente impensado. Tampouco depois de tomada uma decisão, qualquer que seja, fico a remoer, posteriormente. O que está feito está feito - ou não - mas é definitivo. Não sei precisar porque a atitude daquele filhotinho, o único da ninhada a agir assim, não me saiu da cabeça. Voltei à loja no dia seguinte já com a decisão tomada: eu iria comprar aquele bichinho.

Assim que cheguei na porta, a cena se repetiu. O atendente riu, e me disse que "a cachorrinha" - era a única fêmea da ninhada - havia chorado por um tempo depois que saí na noite anterior. Perguntei se ela se comportava assim o tempo todo, toda com pena daquela bolinha de pelos, imaginando-a sofrendo no confinamento daquela caixa de vidro. O moço disse que não. Todos silenciosíssimos, e que havia sido só comigo. Voltei para casa com ela nas mãos - não sem antes um bom desconto, porque mineira não compra nada sem negociar. Isso aconteceu há 10 anos atrás.

Diz-se que o cão escolhe o dono, e das quatro cadelas que tenho - além da bichon frisé tenho outra lhasa e uma akita - a Cacau, essa bolinha de pelo cinza que se jogou contra o vidro quando passei pela porta, me escolheu. Seu comportamento, de fato, sempre foi digno de monastério tibetano, capaz de permanecer por horas impassível, aos meus pés, ou debaixo da minha cama. Latir nunca aprendeu. Mas aprendeu a "pedir" enlouquecidamente por pão-de-queijo, quando o cheiro deles sendo assados ou vindos das sacolas da padaria invadia a casa.

Gosto muito, senão jamais teria, de bichos de estimação, cães em particular. Não sou do tipo que trata-os como gente, como bebês, como filhos. Tampouco tenho o estilo (para meu gosto muito fake) de quem diz gostar mais de bicho que de gente mas que não vai viver com eles no meio do mato, faz isso em murais de Facebook mesmo. Meus bichinhos não dormem na cama comigo, porque eu não vou dormir na casa delas, então o equilíbrio de nossa relação é brincar, fazer festinha, alimentar, tratar e conversar. É, claro, converso com elas, sim. E não, elas não falam comigo mesmo!

Não é a toa que são chamados bichos de "estimação". Existem para serem estimados, recebem afeto, atenção e cuidados e sem dúvida nenhuma retribuem muito bem. Pode parecer, e para muitos certamente é, insensibilidade chorar por um animal quando há desgraças e tragédias humanas por demais mundo afora, e perto de cada um de nós também, basta olhar à volta. Mas insensível é não amar. Passados 10 anos, aquela bolinha de pelos cinza da foto acima, tirada na semana em que chegou à minha casa, a Cacau, na tarde dessa sexta, 31, depois de uns dias internada e uma cirurgia, morreu. E um pouco da minha história de afetos, com ela. Era o MEU bichinho de estimação.

Sem comentários:

Enviar um comentário