sexta-feira, 7 de março de 2014

PMDB x PT: "EM CASA DE ENFORCADO NÃO SE FALA EM CORDA"


As aspas do título não são minhas. Tal citação é de autoria do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, há 5 anos. Na ocasião, ele estava no Senado para a sessão solene em homenagem aos 15 anos do Plano Real, e foi perguntado sobre a crise que assolava aquela Câmara Alta: denúncias de irregularidades muitas envolvendo a gestão do então presidente, senador José Sarney, do PMDB. Ela cabe muito bem para a atual nova "crise" que se avizinha. Crise para dona Dilma Rousseff e o PT, claro, ao verem abalada, estremecida e sob o risco de rompimento a duradoura aliança com o partido de Ulisses Guimarães. Ao ler notícias com cara de release distribuído pela SECOM da Presidência dando conta que "para conter racha, Dilma convoca cúpula do PMDB para reunião no domingo", a frase ocorreu-me de imediato. Ao contrário do que faz parecer o ufanista texto, dando Dilma como bombeira, articuladora, "jeitosinha", uma reunião com a cúpula do PMDB não garante o resultado que a presidente quer. Não é que falar em corda para quem se sente enforcado pode ser bem perigoso? É assim que o PMDB se sente.

Apesar de algumas reações muito virulentas, em tom histericamente histriônico de vários petistas contra o PMDB no geral, e contra o seu líder na Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (RJ) em particular, a Presidência se esforça para criar a opinião publicada de que o deputado carioca está isolado em suas queixas quanto a aliança dos dois partidos, retratando-o como um meninozinho birrento que deseja cargos nos ministérios. Tal ideia ganha corpo fácil porque é, de fato, a primeira coisa que vem à mente de qualquer um quando se fala em PMDB: fisiológico, interesseiro, tudo o que faz é chantagem etc. Não posso afirmar que não seja. Mas seguramente posso apontar vários outros aspectos para que não seja só uma questão de 'negociar' espaço e prestígio junto ao governo do PT, que detém as melhores fatias do Orçamento Geral da União.

As divergências do PMDB com o PT não começaram nessa semana. Remontam desde sempre. A cada problema com algum PMDBista descoberto em malfeitos como no caso do escândalo que levou à demissão do diretor-geral do Departamento Nacional de Obras de Contra as Secas (Dnocs), afilhado do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, o PT através de seus dirigentes, parlamentares ou militantes expoentes tratam de rifar o PMDB em público. O oposto também acontece. Na época em que Lula era presidente, este intervinha sempre, e sempre puxando a brasa para a sardinha do PMDB. Daí vem a sua força dentro do governo Dilma, evidentemente, tendo alçado à Vice-Presidência com ela.

É justamente o péssimo cenário político-eleitoral da Dilma, além de sua falta de habilidade natural para a negociação política, o fator determinante para que o PMDB esteja menos perseguindo um reajuste de acordos no campo federal, desta vez. Não se trata só de cargos. Antes de ter em sua razão a cobiça, a defesa do rompimento da aliança com o PT tem o olho no futuro, inclusive por causa dos estados. Se falarmos naquilo que é praxe, essa distribuição de cargos estratégicos para poder político e gerenciamento orçamentário, nos estados tem muito mais cargos que no governo federal. Sem contar que, longe dos olhos da grande imprensa, onde ainda há bons responsáveis jornalistas que não se furtam a apontar irregularidades que vira e mexe caem na tentação de cometer aqueles mais "probos", estrategicamente é muito melhor garantir poder local. O PT está muito mal diante a população. A parcela fiel de eleitores dependentes do Bolsa Família não será suficiente para garantir a reeleição de Dilma, caso a chamada classe média perca a empáfia (e reencontre a inteligência) de lavar as mãos na covardia de abster-se, votar em branco ou anular o voto. Mesmo essa parcela de escravos da urna pelo assistencialismo do governo federal não transfere essa dependência para os governos estaduais. E nem para as bancadas de deputados. O PMDB precisa e quer continuar forte nos estados. 

Por essas e outras é que o deputado Eduardo Cunha não está reclamando por conta própria e sozinho. O PMDB é o partido de maior capilaridade dentre todos. Grande e influente no interior dos estados país afora, seus diretórios estaduais funcionam como células: têm independência. Não há uma cega obediência ao comando central porque não lhes interessa isso, como ocorre com o PT, por exemplo. Seu poder reside, justamente, no fato de que cada liderado tenha o seu chefe político por perto, não numa longínqua Executiva Nacional a que poucos têm acesso. Assim, cada estado vai se adonar da sua própria decisão sobre a manutenção da aliança. Já tem deles se manifestando: ao ressaltar que é importante a "alternância de poder", Jorge Picciani, dirigente do PMDB do Rio de Janeiro "prevê divisão da legenda entre Dilma e Aécio", informa o Portal Vox. O senador Aécio Neves, candidato de oposição à Dilma, vem tirando o sono - e o sonho - dos petistas a cada dia que passa.

Perder poder regional é muito ruim para o PMDB, que é um partido com grande capilaridade, como dito ali acima: ele não vai enfraquecido, com a imagem ultra-arranhada, para as disputas municipais em 2016. Aliar-se a outro candidato, mesmo que ocorra uma derrota eleitoral, tende a ser uma grande vitória política. Ainda que reeleita, Dilma não teria uma vitória folgada, por isso tampouco fácil. Entraria muito desgastada num segundo mandato cujo cenário já está fadado à catástrofe: o pós-Copa e o pós-eleição quebrarão o Brasil. Não quer, o PMDB, estar junto do PT na hora do abraço do afogado, pois ele seria o primeiro a sucumbir.

Duas coisas saltam aos olhos na atual "crise" entre os dois partidos. A primeira é que, mais eloqüente que as falas do porta-voz da dissidência Eduardo Cunha, é o silêncio dele: de Michel Temer, o vice-presidente da República. Não era para ser ele o bombeiro, já que ele é o VICE da Dilma? Seu silêncio nos diz que interessa e muito o falatório de rompimento da aliança. E isso leva ao segundo aspecto: no momento em que passa a mirar a sobrevivência do seu próprio poder, sob a iminência de se ver arrastado para a derrota presidencial e, ainda que isso não ocorra, mediante o enfraquecimento enorme do PT nos estados onde não é bom para o PMDB figurar ao seu lado, não tenho dúvida alguma em afirmar que entre uns e outros cargos em ministérios ou autarquias, o PMDB olhará para a baixa popularidade da Dilma, a rejeição da população quanto à corrupção engendrada no PT e vai tomar conta do que lhe é mais caro. Não titubeará em dar uma solene nanica ao PT, recomendando que embale Mateus os seus genitores.

5 comentários:

  1. Zinha Bergamin07/03/14, 16:30

    Excelente e delicioso seu texto,Rê! Análise interessante e com bastante sentido!

    Que bênção seria esses dois partidos mamadores se "extranharem" de uma vez e se apartarem...

    (Sonhar não custa; mas é mto difícil o PMDB largar as tetas pois ele é bem conhecido por saber
    usufuir das benesses no meio dos poderosos!)

    Enfim, o negócio agora é torcer para que eles "se arranhem" cada vez mais! Esperemos! rsrs

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  2. Excelente análise, cara amiga Regina, parabéns!
    Apenas observo que o PMDB de hoje está muito longe dos ideais do PMDB de Ulisses Guimarães.
    O PMDB, com o passar dos anos, se tornou um amontoado de políticos que fazem mais politicagem do que o exercício da política autêntica propriamente dita. É um balaio de gatos.
    Vou acompanhar com interesse essa reunião, espero que haja corda suficiente para todos se enforcarem.
    Um grande TFA para você, cara amiga!
    #Cheers !!
    @BobWebBB

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  3. Concordo com cada palavra. O PMDB foi atraído pelo PT para ser destruído, como vem acontecendo com outros partidos. Por isso não participo de movimentos contra tudo e contra todos, é isso que o PT quer, pois sempre induzem o foco para algum bode expiatório a fim de desviar a atenção de seus escândalos, esses, sim, gravíssimos.

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  4. Em resumo, o PMDB está apertando a corda no pescoço do PT no legítimo direito político de manter a sobrevida para o futuro. Mas desejo que o PMDB e o PT se autodestruam praticando o abraço do tamanduá na onça. A onça, presa pelas garras do tamanduá não consegue se desvencilhar chegando até a morte, mas antes de morrer, consome totalmente a cabeça do tamanduá.

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