terça-feira, 18 de novembro de 2014

DIÁLOGO SOBRE A VERGONHA

"Hoje é quase impossível não ter a impressão de que os conceitos e as regras da vida moral são apenas símbolos recozidos, envoltos nos insuportáveis 
e gordurosos vapores da cozinha da humanidade." 

(Robert Musil em 'O Homem sem Qualidades')


Queria saber por onde anda a vergonha. Desde sempre, ouço repetições do ditado "não me arrependo de nada do que fiz, mas do que deixei de fazer" e desde sempre me senti incomodada com ele. Arrependimento, vergonha do mal feito, são valores que ligo diretamente à honra. E honra ligo diretamente a um caráter não corrompido. Todo maldito santo dia me arrependo de algo. Todo maldito santo dia sinto vergonha de mim, por algo que tenha feito, mal-feito. De vez em quando, repito alguma bobagem que já fiz, da qual já me arrependi, que já me envergonhou, e sinto mais vergonha ainda. Talvez porque eu seja egoísta tenha tanta vergonha que ela não tem mais como se dividir. Anda todo o tempo comigo, sem poder acompanhar mais ninguém. 

O poeta português Gonçalo Tavarez disse que vergonha, compaixão e injustiça não fazem parte das leis da natureza. Mas na natureza, o único animal que comprovadamente tem consciência é o homem, e penso que a falta de tais valores num homem é, então, o indicativo de que a este falta consciência. Portanto, na lei da natureza humana, vergonha, compaixão e justiça devem estar presentes pois existe consciência. É a consciência que nos indica que a opinião de quem nos cerca é, sim, importante. E por mais que tentem convencer-se, a si e aos outros, de que opinião alheia não importa, negar isso é negar a vida em sociedade. Quem se torna consciente de um ato imoral, ilegal ou apenas equivocado e não se sente, dele, envergonhado, nega a natureza tipicamente humana: nega a honra, e assume-se corrompido.

Por onde anda o rubor nas faces, aquela reação física tipicamente espontânea quando percebemos que perdemos a boa opinião de alguém sobre nós, ou sobre uma nossa ação? Foi substituído pela arrogância, certeza da impunidade, desprezo pelo alheio, pedantismo ou brutalidade pura e simples. Proceder, dos grandes até os pequenos atos da vida cotidiana, sem qualquer consideração ao prejuízo que venha causar a outros, tipifica o comportamento de uma mente desprovida de justiça. E a falta de valores vai-se acumulando.

A regra ensinada por Pitágoras de que é preciso, toda noite, passar em revista o que fizemos durante o dia é um caminho para o encontro com a consciência. Mas parece que ninguém mais anda disposto a gastar seu tempo com tais buscas. A falta de consciência, de honra, de justiça, de culpa e de vergonha é o que caracteriza o psicopata. Somos uma geração deles? Reconhecemos isso? Gostamos disso? E a cara, não fica vermelha? Sem-vergonha!

Quando me deparo com alguém que insiste em dizer que não se envergonha de nada que faz, só do que não faz, corro para meu cantinho íntimo, escondido, e procuro, imediatamente, as minhas raízes. Nelas, sei que hei de re-encontrar-me com uma face rubra.

Publicado originalmente em 29/05/2011. Porque se a História é cíclica, a destepaiz do Petrolão da Dilma não se cansa de se repetir, escândalo por escândalo, desavergonhadamente. Ainda hoje procuro a vergonha, por aí. Se alguém a encontrar, conte-me!

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