sábado, 14 de fevereiro de 2015

O CARNAVAL NO BARRACÃO DE CADA UM


Sou do tipo que pula carnaval com os dedos. Apesar de saber um ou dois passos de samba e de cantar samba (samba, ponto) o ano inteiro, fora de estádio de futebol nunca gostei de multidão, barulho demais, música ruim e gente suada trombando comigo. Mas passo longe de ser do tipo ativista contra a festa, daquelas pessoas meio frustradas que acham que carnaval seja alienação, com o papo pseudo-cultural soberbo que é usado para disfarçar a pouca profundidade intelectual de quem faz o discurso. 

Confesso algo que não sei se me orgulha, possivelmente não, mas jamais me incomodou. Nunca fui a um "baile" de carnaval, como eram chamados os dias de folia em clubes. Nem matinê, criança, nem as festas noturnas. Sou caçula de 3, mas nasci fora do tempo, meus irmãos bem mais velhos e apesar de ter muitos amigos até a juventude, minha turma de crianças era de brincar na rua, subindo em árvores e muros. Nos anos 70, cidade do interior, frequentar clube era bem pra uma classe social que eu só ouvia falar que havia e que custava o que não tínhamos para gastar.

Quando eu tive idade para fazer o que eu queria, nunca quis ir a um "carnaval". Meu pai me emancipou aos 16, mas minha turma de amigos era do tipo que, com grana curta, fazia festas de carnaval em casa com direito a fantasias e tudo o mais, com boa música, geralmente ao vivo, comida e bebida - isso sim, uma prioridade. Em outro ano, saíamos pra acampar, roubar galinha em alguma fazenda próxima pra indefectível galinhada, jogar truco e tocar violão durante as noites. Teve um ano que resolvemos brincar na rua - o carnaval de rua na minha cidade era bem esperado - e saímos no Bloco dos Palhaços. O inusitado foi que usamos pernas de pau. Fizemos, aprendemos a andar com elas e lá fomos nós, um bando de garotos e garotas com 1 m e 50 de pernas finas mais altos. Tenho a fantasia usada até hoje - mandamos fazer iguais - e me tornei mestre em pintar a cara com pasta d'água e tinta guache.

Depois, nos tempos de independência financeira, carnaval se não fosse pra viajar pra roça e descansar do mundo, sempre foi sinônimo de trio, pra mim. Trio quase elétrico, em casa: livros, filmes e assistir desfiles pela TV, quando havia samba-enredo bom (agora, por exigência das transmissões, os sambas são tão corridos que mal reconheço o ritmo).

Lamento que não tenha nascido nos anos 40, 50 no máximo, porque eu adoraria ter vivido outros carnavais. As músicas, pelo menos, são do tipo que me fazem cantar bem feliz. Hoje, e não tem nada a ver com a idade (sou do Ano da Graça do Tricampeonato) tenho o espírito da Quarta-Feira de Cinzas. Em caso de fantasia, ela sempre volta pro barracão.

Bom carnaval, como quer que seja, a cada um.

1 comentário:

  1. Obrigado pelo texto e pela Roberta Sá.
    Obrigado, César

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