segunda-feira, 25 de julho de 2016

ESCREVER, OFÍCIO SEVERO

"A palavra do ser humano é o material mais durável. 
Quando um poeta encarna sua sensação mais fugaz com palavras adequadas, 
ela vive nestas por milênios e volta a despertar em todo leitor sensível." 
Schopenhauer (Sobre o Ofício do Escritor)

Este é um texto escrito em 2012 que, no reboque do Dia do Escritor, republico com diversas edições, claro, em relação ao original. Porque dúvidas e certezas podem persistir ao tempo, mas as nossas circunstâncias mudam. E a nós, conforme essas.


Qualquer um que escreva é escritor ou só aquele que é editado, publicado e colocado à venda (com sucesso comercial ou não) pode ser assim nominado? Tenho como verdade que ser escritor é a única profissão em que não se é ridicularizado por não ganhar nem um centavo com ela, conforme sentenciou Jules Renard. Pode-se morrer pobre e ainda assim ter um baita orgulho da sua arte. Não é um emprego, portanto, já que escrever, ao menos no meu caso, jamais dará dinheiro algum. É um ofício severo. Mas antes, é um luxo e uma necessidade, um alento e um porto seguro. Sempre.

Fernando Pessoa disse que escrever é esquecer, e como é fácil concordar com ele! Pesa na ainda na balança do escritor genial que é, o que ele próprio disse em outro de seus mais antológicos poemas: "O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente". Incontável o número de situações em que escrever é meu recurso para esquecer da dor que veio, da que deveras há de vir. É nessa ocasião que escrever salva-me de mim mesma.

Minha formação é no magistério (Magistério mesmo, História e Letras) e apesar de nunca ter atuado profissionalmente, algum traço insistiu em mim: tenho por vício incentivar as pessoas a escrever. Há uma grande resistência contra escrever que não compreendo bem. A maioria teme a escrita. Alguns dizem: "não tenho talento". Eu respondo: como sabe, se não escreve? A resposta para mim é muito simples, simplória até. Você pensa? Afinal, para escrever "só existem duas regras: ter alguma coisa a dizer e dizê-lo" (Oscar Wilde). Todo dizer nasce no pensar. Penso, logo escrevo. E se digo "escreva", é apenas para transmutar em letras o seu pensamento. Ou o sentimento, em outra hipótese. Não raro ambos, fórmula que, por sinal, costuma render bons escritos, provavelmente os melhores.

Todo o processo da escrita precisa ser permeado de prazer e sem dúvida o prazer começa no hábito da leitura. É um ciclo, mas que não se fecha em si: lemos, escrevemos e quando descobrimos que alguém sentiu prazer ao ler o que escrevemos, sentimos mais prazer. O que escrevemos é um reflexo do que pensamos, do modo como vemos o mundo - e nos vemos nele, de como extraímos dos mundos interior e exterior, as reflexões. É a materialização da opinião que temos sobre o que somos, em essência, e da coragem em expor tudo isso. Quando escrevemos legamos ao leitor uma parte importante dessa essência, dividimo-nos, por assim dizer, com ele. 

Para escrever há que ler, sempre. Proust disse que para escrever uma boa história não é preciso inventar nada, pois o bom escritor já as tem dentro de si, basta saber traduzir. Sobre o mesmo ofício, outro gênio, Jorge Luis Borges, afirmou que "chega-se a ser grande por aquilo que se lê, não por aquilo que se escreve". Ler é fundamental! Você homenageia o escritor lendo-o, não falando sobre ele! Você se torna grande porque ler é mais generoso do que escrever. 

Viver exclusivamente da escrita, não é difícil concluir, não deve ser simples. Porque há dias em que nada vem. Eu há meses que estou nesse período em que nada vem. Ao menos nada que seja publicável neste blog, porque o que vem não anda a sobreviver ao "delete" do teclado, já que a autocrítica, esta jamais falta. Realmente, não posso afirmar que viver de escrever seria uma empreitada fácil. Nessas ocasiões de vácuo da escrita, o pensamento simplesmente se recusa a ser ordenado sistematicamente ao ponto de traduzir-se em frases compreensíveis (para outro, que não eu própria).

No fundo percebo que aquilo que chamam "bloqueio" não passa disso: o meu pensamento se recusa a ver-se dividido, espalhado, desnudado, à mercê do julgamento dos outros. Tenho estado exatamente assim. E é frustrante você desejar ter aquelas letras interessantes para dividir, ao menos com algumas pessoas, e simplesmente o seu pensamento ordenar o silêncio. Dedos mudos que obedecem sem oferecer grande resistência, é bem verdade. 

Quando o pensamento em silêncio é mais poderoso, apenas o que me resta a fazer é me calar. E torcer para que outros escrevam o que não sou capaz de falar.

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