segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

DESTINO, O SENSO DE HUMOR MACABRO DE DEUS

Não raro, reescrevo textos. Ainda que por uma certa preguiça de procurar desculpas novas para os ciclos de sempre, aquelas desculpas envernizadas como se fossem teorias e que comumente os observadores da vida arrumam para si e para outrem, reescrevo (me) muito mais porque tenho convicção de que as pessoas, com o tempo, são capazes de mudar comportamentos de acordo com a necessidade de suas circunstâncias, mas a sua essência, essa não se altera. Um tempo depois, o que observei anteriormente ao meu redor (e dentro de mim) continua lá, mas as circunstâncias são outras. Detalhes antes despercebidos se exacerbam, ou, como defendo a seguir, o destino - o senso de humor macabro de Deus - resolve brincar de outras formas. 

O argumento do título (e no texto a seguir) foi originalmente escrito em outubro de 2011. Nele digo que somos o que fazemos para mostrar o que somos e esse "fazemos para mostrar o que somos" é justamente o que me fez lembrar deste texto, nesta manhã. Nunca deixei de achar que destino é o nome confortável que se dá ao senso de humor macabro de Deus, que brinca com nossas circunstâncias a depender do seu tédio. Reescrevo o argumento já que é uma das formas que tenho para (re) mostrar quem sou.



Certamente, com um macabro senso de humor, O Criador se passa muito bem pelo papel do que costumeiramente chamam de destino. Sempre achei que no mundo das pessoas reais, que acordam pela manhã para pagarem os seus boletos, não há espaço para mistérios metafísicos. Esses "mistérios" só sobrevivem nas teorias dos que nada têm de concreto para fazer - possivelmente os filósofos moderninhos estão nessa categoria. Pessoalmente penso que tudo na vida é questão de construção. A cada ato, uma consequência. O que para mim é realidade, para outros, no entanto, é menos doloroso denominar destino, e assim, aparentemente, alegar que não tem nada a ver com ele.

A verdade é que, quer queiramos, quer não, a nossa vida resume-se a uma sucessão de instantes passageiros aprisionados entre o "tudo" que ficou para trás e o "nada" que temos pela frente. O futuro é escuro no sentido de não haver a luz de o saber (não sombrio, apenas desconhecido). A vida dá-se no presente, e é só o presente que pode nos fazer rir ou chorar. 

Somos o que fazemos, mas somos o que fazemos para mostrar o que somos. Da mesma forma que não posso afirmar o que sentirei ou o que farei daqui por diante, posso afirmar, diante do Divino senso de humor totalmente politicamente incorreto, que quando eu sair das tempestades por Ele emprestadas, posso sair melhor ou pior. A mesma pessoa, definitivamente, é impossível. A cada tempestade do destino, uma nova circunstância. Só assim as tormentas fazem sentido. E quem sabe, assim, é possível, ao menos um pouco, compreender qual é o senso de humor de Deus, disfarçado de destino a nós catapultado.

Sempre afirmo que a natureza detesta vácuos. Ela se adapta. De alguma forma, preenche, ocupa, alarga, estende, reprime. Mas ocupa os espaços. Em se tratando do instinto de sobrevivência, é ele que fala mais alto. De alguma forma, o instinto se adapta ao destino. Mas acaso a natureza nos pareça inerte, o único remédio que temos é pensar. Continuar, ou interromper o senso de humor do destino?

Tenho orgulho do que fui e do que me tornei pelas coisas que vivi. Não posso garantir que continuarei a me orgulhar pelo que ainda serei (o futuro é escuro, não escapo de saber disso), se é que serei, e se é que seguirei. Só posso escolher entre viver assim ou morrer assim. Não posso garantir que escaparei das tempestades escritas pelo destino ou se correrei para elas. Não posso garantir que tal tempestade não irá perseguir-me por muito ou pouco tempo. Não posso garantir se voltarei a sorrir, sem ser por convenções e obrigações. Se voltarei a dormir, ou a desejar que descubra-me errada, passando a acreditar num destino metafísico. Eu (tal como você e qualquer um) só posso garantir o que já aconteceu, e garantir que o passado não pode, não deve e não precisa ser creditado - ou debitado - na conta do destino. Só na conta das pessoas que construíram ou destruíram a tal realidade, afetando as circunstâncias.

Ocasionalmente o destino põe todo o seu senso de humor para fora e brinca de fazer concessões, permitindo além dos desencontros, o encontro de circunstâncias. Para alguém singrar as mesmas águas. Para fazer parte da história, do navegar do tempo de alguém. Faz parte do seu senso de humor alterar a superfície da realidade. Já vi descreverem como "um tapa do destino", é quando dou de cara com a percepção que, na verdade, não fiz (nem sou) parte da história, e o singrar do tempo de alguém é apenas uma transição - já que o tempo passa pela inércia - até que possa aportar em outro lugar. Quando o futuro do outro não se lhe parece cheio de águas sombrias, quando não existem mais avarias no casco, a vela está cerzida, recebeu um motor novo. É nesse exato momento que chega o tempo do meu não-lugar: não sou porto, nunca fui água e nem jamais a vela - ou o motor. A circunstância prova-me que tenho sido um barranco. Nas margens da vida. 

O senso de humor macabro de Deus peleja, mas ensina. Que se você não sabe de tudo, então, na verdade, você não sabe de nada, e foi usado pelo destino para divertir o Criador em momentos de tédio. É difícil entender que você não sabe nada, e compreender que o significado disso é o tamanho de sua importância. Na mesma proporção, o mais difícil é aceitar que você sabe muito bem de tudo, então sempre saberá que você é importante, mas mesmo assim tornou-se protagonista das perdas nos barrancos do seu destino. Talvez seja então o momento de interrompê-lo, re-escrevendo o parágrafo final até que reste só o pó. Com ou sem aquele humor macabro a brincar com as suas circunstâncias.

(A photo acima tirei na vinícola Concha Y Toro, outubro/2015, em uma das circunstâncias. Naquela ocasião eu já sabia, mas havia esperança de navegar, e não de ser barranco.)

1 comentário:

  1. Deus é Deus e dele não se zomba. Somos meros mortais criados a sua imagem e semelhança, mas que nos tornamos seus filhos ao cremos em Jesus, seu Filho, o qual morreu pelos nossos pecados, sendo nós inimigos Seu, com diz as escrituras.

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