domingo, 14 de maio de 2017

MÃE. MAS É SÓ UMA PESSOA


Este texto foi publicado em 2011 e desde então republico todos os anos. 
Porque nada no país muda, apenas surgem novas tristezas, uma sobre a outra, 
sem que se assombre pelo descaso que é a causa delas. 
Desde a primeira vez, até hoje, não foi preciso escrever um texto novo, apenas atualizar as tragédias. 
Porque as mães continuam a prantear o horror de perder os seus filhos.

"São três letrinhas, todas bonitinhas, fáceis de dizer", que juntinhas, carregam um mundo de significados. A palavra MÃE é beatificada. A imagem de "ser mãe" é santificada. Do tipo que ninguém pode ousar algo diferente, como se a maternidade (parida ou não, pois mãe é quem cria) tirasse da mulher, irremediavelmente, o direito de ser humana. 

Toda mãe é pessoa. Não pedra, não folha, não casca de árvore, não vento, nem luz. Pessoa. Ética ou não, bonita ou não, tranquila ou histérica, ponderada ou histriônica. Feliz ou triste, corajosa ou assustada até com o ar que respira. E toda pessoa é tudo isso, e mais, ao mesmo tempo.

Ensinou-me uma pessoa, e já faz um bom tempo, que a perda de uma vida humana diminui-lhe a dignidade de ser um humano. Há mãe que perdeu a chance de viver a dignidade de ser humana. A mãe das tragédias chuvosas país afora, que perdeu seu filho para o barranco deslizando sob a chuva. A mãe de Santa Maria, que não viu seu filho retornar para casa porque a fumaça de um fogo irresponsável sufocou-lhe o ar dos pulmões, quando ela só queria que eles fossem cheios do sopro divino da vida. A mãe idosa que vê seu netinho morrer por falta de leito em UTI, e chora a vontade de ter ido em seu lugar porque, com tão poucos anos, talvez apenas alguns meses, sequer viveu e já se perdeu. A mãe do Santiago, que pode ter visto ao vivo o seu filho ser assassinado pelo tipo mais covarde que há - o que se esconde sob máscaras reais, e as metafóricas, de uma "causa".

A mãe do subúrbio que fez o café para sua filha sair para o trabalho, mas não pode guardar seu prato de arroz, feijão, bife e salada, à noite, porque ela foi esfaqueada num assalto no ponto do ônibus. A mãe de uma dentista que foi queimada viva por um filho menor de uma mãe que talvez nem saiba que o seu é um monstro, tutelado pelo estado que não se preocupa efetivamente nem um pouco com mães e filhos. A mãe que iria visitar a família do filho no sábado, mas antes, viu o acidente de carro que o matou, na TV. A mãe destruída pelo Monstro de Realengo, um psicopata que escolheu uma escola para ensinar que a maldade tem o olho humano, a cara humana e lhe arranca o sorriso dos lábios para sempre. A mãe de Boston, do Bataclan e da boate em Miami que, pelo terror de loucos alimentados por ódios talvez maternos (é que nem todas as mães são felizes) explodiram ou crivaram de balas um filho seu, e lhe deixaram outro eternamente ferido por ter sobrevivido. Mas que pela vida deste último e memória do primeiro, é uma mãe que precisa sobreviver. 

A mãe que tentou engravidar por 15 anos e recebeu a notícia que sua criança afogou-se na piscina da escolinha. A mãe que perdeu, ainda que permaneça vivo, o filho para o crack, porque o poder público, que deveria combater o tráfico, não o faz, relegando filhos e filhas à morte em vida, à vida na morte das drogas que assombram mães e pais todos os dias, nas ruas. A mãe do filho que bebe demais e joga seu carro contra um ponto de ônibus, cheio de mães e pais e filhos e filhas, que morrem sem que ele próprio sofra um arranhão. 

A mãe de donos das canetas, que relegam às mortes reais e metafóricas, os filhos de um país inteiro, roubado de si mesmo pela corrupção que lhes faz filhos da não-preciso-dizer-aqui, ao menos desta vez. A mãe dos legisladores que só aumentam as leis inúteis que atrasam a vida dos filhos e das mães que que sequer têm noção do quanto eles, que fingem se preocupar com o "nosso bem" são inúteis. A mãe dos julgadores, que condenam outras mães ao sofrimento por causa da covardia que gera a impunidade.

Não faltam tragédias e lágrimas para contar da mãe que hoje, nesta data, chora por este filho que lhe foi tirado pela violência do dia, da vida, da circunstância, do destino, da imprudência, do descaso. São as lágrimas da pessoa que não é santa, não é pura, não é uma ilusão. É só mãe. É uma pessoa. 

E há os filhos, que por essas mesmas razões ou outras menos anti-naturais perderam suas mães. É outra história, mas é também a sua história. Às pessoas, todas as pessoas que choram a ausência de filhos e de mães, os meus respeitos. Tears are words can't I say. E como sei, que não posso!




5 comentários:

  1. Realmente, essa música possui uma das imagens mais pungentes que conheço: saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu...

    Que dor!

    Lindíssima interpretação da Zizi!

    Abraços afetuosos a todas as mães.

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  2. marcia190709/05/11, 18:11

    ma-ra-vi-lha!
    nem sei mais o que dizer....

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  3. Que lindo e que triste...mas isso é a vida como ela é, e a vida real não é feita de sorrisos diários...beijos Re.

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