sábado, 18 de setembro de 2010

É TUDO LADEIRA



Tem que subir a ladeira.

Nessa ladeira, não teria uma rancho de pau a pique bem no meio dela? Sabe aqueles ranchos vazados, sem paredes? Sozinho no meio da ladeira, sem mais nada, a não ser o cerrado em volta. Assim, lá no meio, perdido, de um jeito que dá vontade de parar, conhecer o que tem dentro.

É dia. Tem sol escaldante. Insuportável mesmo. Subindo. A ladeira é bastante íngreme. O sol, o vento, o cerrado em volta... excrucia o corpo, alcançando a alma. Tempo seco, bocas secas, apenas a medida de meia cabaça d'água. É preciso parcimônia no consumo.

Cascalho no chão, andar com cuidado. Árvores tão pequenas, agrestes... Mal contêm a si mesmas. Não fazem sombra. Algumas já secas, carcaça grossa marcando o chão. Poucas folhas debaixo. Mal conseguem manter alguma umidade alimentar.

Subindo, continuam subindo a ladeira. As faces já rubras pelo efeito do calor, mãos nos joelhos, que doem, ajudando a firmar. O peito já arfa pelo esforço. Um olhar acima, 90 graus. Aquele rancho, única sombra visível. Uma chance de descansar, mas ainda distante, uma distância de metros, que os olhos, o corpo, a alma... medem em kilômetros.

Os movimentos ficam ainda mais demorados, passos trocados em silêncio, ouvindo-se apenas o som dos pés no pedregulho [crok...crok...crok]. Pés arrastando-se sobre as pedras.

A sede formidável, desejando água fresca. Ombros já segurando um ao outro. Mãos sobre ombros, já não se sabe quem suporta quem. Passos já se medem, arrastando-se. A estrada poeirenta que não finda. Aquela rancho, aquela sombra parecem mais distantes, em lugar de se aproximarem. Uma trilha leva outra e o descanso ainda longe, parece uma promessa que não se cumpre.

A dúvida!? Alcançar ou não alcançar?! Dará tempo?! Parar não, já não chegaram até ali?
Impossível parar! O homem nunca pára! Progride ou regride. Parar? Nunca! Ainda que deseje. Não param. Parar é voltar. Um conhece o caminho. Conhece o rancho. Sabe que no fim da ladeira, há uma clareira.

A ladeira, os pés cansados, o peito arfando sob o tecido fino da blusa, o suor na testa. O frio do alívio, que se mistura ao calor insuportável. Faltam poucos metros. De ladeira.

A modesta construção, com um alpendre que os olhava de frente, quase como que sorrindo para a estrada, nem parece ser uma construção humana. Parece um advento. Ali. Encontrado. Pronto, sem nunca usado.

Ao lado, uma clareira, uma moita de espinheiros, fazendo o papel de cerca, protegendo a entrada, no terreno acidentado de pedras soltas. Mas não o suficiente para impedir a passagem desesperada. É preciso transpor a cerca.

A dúvida - é o cansaço - aquela sombra está mesmo ali? No ponto em que já não é possível mais descer ao início, nem alcançar o topo sem o descanso do sol escaldante, excruciante... É preciso romper a cerca! Se cerca não existir, para fazer sofrer mais um pouco, sentindo debaixo dos pés os soluços da ladeira íngreme, o rancho então também não existe. A certeza de que ela existe é a de que as faculdades mentais ainda não esvaneceram completamente.

Sem parar, alcançar o repouso, o pouso, enfrentar o maior sofrimento imposto pela cerca. Enfim....a cerca existe. Atrás dela está o alpendre, do ranchinho. Do lado esquerdo da moita de espinheiros, a casinha dependurada no barranco. Olhando para os estradeiros, que venceram a trilha da ladeira.

Alívio. Enfim, corpos esgotados, buscam as últimas forças, e conseguem se arranhar na cerca, ultrapassando-a, ao encontro do alívio sombreiro.

A dois, cumplicidade dividida, a dificuldade da subida torna-se menor. É ali, onde se recuperarão, dessedentarão. Sentados, no murinho do alpendre, cada um com as costas na parede caiada, ainda arfantes pelo esforço, encontrarão o descanso, o linimento.... um no outro.

Olham-se. Sorriem-se... Esforço, afinal, recompensado pela certeza de que tudo vale a pena. Quando um se encontra no outro. Enquanto tudo o mais em volta se cala. Quando um toca no outro. Cúmplices. Enternecidos.

Pegam-se, sustentam-se um no outro... Desejam uma brisa, não um vento doido, que mudasse o rumo do tempo. A tarde cai, o sol empalidece, aborrecido. Depois do sol posto, a noite vem e toma-os. A lua, solitária, é solidária. Nem uma nuvem perturbando o céu ingênuo.

Aquele tempo passado sob a proteção, um no outro, em silêncio, ouvindo um murmúrio longe, que lembra um veio d'água que os convida e que faz harmonia com o uivo caprichoso e vadio do vento. Vento vadio que empurra. Tudo absolutamente silencioso. Só o murmúrio longe da água no cascalho, em companhia para o assobio do vento.

Ela o olha. Sorri. Sorri e pensa.... Pensa em parar, em prosseguir, em deixar-se em si. Ela quer raptar o tempo. Prendê-lo no espaço entre a ladeira e o veio d´água. O tempo não existe - quando se quer, revoga-se o tempo. Ah, sim, ela quer. 


Ele sabe. Já leu naqueles olhos, o desejo de aprisionar o tempo apenas naquele espaço. Fica tudo em suspenso. As plantas, os animais, a lua, as estrelas perpassam em volta. Ele quer. Lembra-se do tempo em que desejou, também, raptá-la: o centro do universo... Eis. Agora, contempla-a, recostado, mão no queixo, imaginando coisas absurdas... 


O silêncio. O coração dele estremece. Ele estende a mão, que o trai...trêmula, também. O absurdo já há. Foi-se, perdeu-se, inexistiu-se.

Ela sabe. O antes e o depois não existirão, enquanto o tempo estiver cativo naquele espaço. Pequeno espaço, mas só dela. O espaço dela pertence a ele... foi tomado, apropriado, arrebatado.

Ela sabe. E é ela quem abre os braços. E ele vem. Não. Ele vai. A ordem indiferencia-se? Não neste caso. Não por hora. É um convite, não uma entrega. Ela abre os braços e ele vai. O convite é para a entrega, a última esperança, naquele não-espaço, naquele não-tempo, tudo o mais que existe se encerra.

Ele viu os braços abertos. Pareceu criar asas. Cansado, ofegante ainda da subida, sentiu como se uma mão o empurrasse mais rápido. A sola dos pés vencendo o pedregulho. Não mais sabia se uma mão o puxava ou se outra o empurrava. Só sabia o caminho, e o caminho era chegar àqueles braços. E àquela boca, no encontro que os torna um.

Ela respira. Ele a respira. Não existe mais certeza. Exceto uma: eles se sentem totalmente.
E se entregam ali, sem tempo, sem espaço... sem mais nada. A batida do coração é a dona absoluta do momento. 


De nada adiantou pensar, se não há mais pensamentos. Se não há mais nada. A não ser o êxtase. O absoluto.

É que ele fala, seus lábios junto aos ouvidos dela, e fazem-na cair dentro daquelas palavras, como beijos incendiados.

E basta...Enfim... não há fim. É tudo ladeira.

(Auxílio.Luxuoso - a 4 mãos - BSchopenhauer)

6 comentários:

  1. BSchopenhauaer19/09/10, 08:26

    Ladeira existe para se escalar!

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  2. É verdade, B. Não se vive apenas descendo ladeiras. Seria fácil demais.

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  3. Belo conto, valeu a pena ter esperado para ler com calma.
    Que venham outros!

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  4. Blues, amiga... você ainda está se adaptando a esse estilo mais "longo" de escrita, eu diria. Eu também, hehehe. Beijo, pelo carinho de sempre.

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  5. Eu sinto falta de uma ladeira... minha vida está plana! Inveja branca de quem tem uma para subir todos os dias, com essa mesma vontade!
    Bjos lindona!

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  6. Mih, é como eu disse lá em outro post, antigo: a escalada é opcional. Mas ao subir, a descida pode ser adiada. Ou pode-se despencar ladeira abaixo. e daí, essa é a graça da coisa...

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