domingo, 12 de setembro de 2010

MINAS DOMINGO GERAES


Amanhece. Colo na varanda, cheiro de mato e uma xícara de café nas mãos, lá do fogão de lenha. Sinto o aroma desse café, a temperatura da brasa, ouvindo um manga soltando-se e caindo ao chão. E o cachorro, que corre pra pegar a manga, tendo cuidado com o enxame de abelhas que forram debaixo da árvore.

Mas chove. As abelhas estão escondidinhas. Está chovendo e ventando... Por isso, é uma indecifrável onomatopéia de sons: frutos caindo, folhas chacoalhando, bambu rangendo... Mas o cheiro no ar é de terra, mato, café e madeira. E o sol teima em não se mostrar, acobertado por nuvens.

- Espera um pouco, ainda é cinco e meia! O sol vai aparecer, mais tarde. Depois da chuvinha que cai.
- Não, parece-me que não... Hoje o dia ficará fechado mesmo, o sol escondido atrás das nuvens, que o contemplam egoisticamente.
- Então será um dia mais fresco. Melhor pegar uma manta. Aquela, feita no tear. Ou prefere a que a Bisa fez, a de retalhos, sabe?
- Sei! É mesmo aquela feita de retalhos. Mas para não muito tempo. Afinal, daqui a pouco, o leite precisará ser baldeado do úbere das vacas. 


E aquele primeiro leite, chamado "escuma", para beber ainda na caneca de ferro, esmaltada de verde, gasto no fundo.

- Leva na caneca o café quentinho, então. Pro leite ficar mais gostoso. Na volta, escolhe a galinha pro almoço. Mas não me deixa ver matar, sabe que não gosto.

Essa galinha dá trabalho para pegar... Necessário correr, esgueirando-se pelo garrancho, no quintal, até ela se fatigar. Ambos fatigados, prevalece o homem, com um neurônio a mais.

- Chama os meninos, que brincam de bola lá no campinho. A garotada adora correr atrás das galinhas!

Não tem campinho... No máximo um gramado na porta, misturado entre pasto, cupinzeiros, baruzeiros... Bola de lobeira. Mas é o campinho deles. E tem que arrumar aquela trave, que está torta. Quase caindo.

Faca no pescoço da penosa, depenada, sapecada, limpa, aberta, despedaçada. Mais tarde, refogada. Água na boca. O feijão já está na lenha. Água fervendo, juntada aos poucos, pro caldo ficar bem grosso. Hoje o feijão é jalo, bem graúdo, amarelo. Feijão cozido horas. Em panela de ferro preta, a última boca da trempe.

Galinha tratada. Colheita do quiabinho, em pés perdidos no meio do milharal... Espigas de milho para o angu do almoço, para o curau. Também uma abóbora d'água pendurada na cerca.

- Eu queria uma abobrinha menina, batidinha, bem fininha.
- Mas aquela abóbora d'água verdinha, caudalosa...
- Farei as duas. Não me dá trabalho.
- Tudo pronto e entregue à tua alquimia.

O almoço sai cedo. Tem a estrada, de volta pra cidade, chegar antes do entardecer. Mas antes do almoço, no meio da manhã, uma caminhada pelo pasto, procurando uns frutos do cerrado: araticum, pequi, cagaita, cajuzinho do campo, fruta de cera, gabiroba.

- Tem cajamanga?
- Tem cajamanga.

Catação feita, hora do almoço. Saciar a fome, prato composto: arroz, feijão, angu, galinha, quiabo, abobrinha. Fumaça do prato.

- A couve! Tem a couve, refogadinha. E tem arroz doce de sobremesa.

E, no quase meio da tarde, merenda: curau. Pois, a janta sai cedo. Pois, a cama chega logo. Junto com os vagalumes.

- Mas não tem a estrada, de volta pra cidade? Ainda dá pra dormir mais uma noite sob esse nosso céu de estrelas?
- Nada de estrada hoje, ainda há muito dia para ser vivido.
- Então tem que amassar o pão de queijo, assar pro café da tarde.
- Pão de queijo amarelinho, feito com ovo caipira. E o curau?
- Não te preocupes, estará na mesa. Tem broinha também.
- E para a janta?
- Não vai ler um pouco, lá na rede? Vou fazer uma canja. Ainda chove, faz friozinho. Enquanto está no fogo, vou deitar-me contigo.

Um pouco de aconchego. Colo. Pés pra cima. Balanço, calor...

- Deitar-me comigo na rede?! Tem que ter cuidado! Para não ativar meus sentidos. A canja pode secar.
- Tem perigo não. Ela cozinha na outra panela de ferro. E coloquei uma chapa, de ferro também, na boca do fogo. Vai cozer lentamente...

(A 4 mãos com  BSchopenhauer)

17 comentários:

  1. Eu já tinha escrito um comentário e caiu no buraco negro.
    O que quis dizer é que cheguei a sentir todos os cheiros, vi gotas d'água nas plantas...
    Parabéns, amo tudo que escreve. Bjs, Blues

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  2. Blues, desta vez foi com Auxílio Luxuoso. Mas tá valendo, não é? Beijo, obrigada pelo carinho de sempre. Quem tem amigos, não morre pagão. Diz-se isso lá nas minhas Minas Cancioneiros Geraes.

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  3. marcia190712/09/10, 17:44

    você é má, muito má! o que eu faço agora com a vontade de comer um pão de queijo, um arroz feitinho em panela de barro?
    eu quero minas gerais...

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  4. Marcinha, hello! E o Clooney, pra dividir a rede com você, não quer não? Vai dizer que não notou o melhor da festa...hehehe

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  5. Ainda tenho nas botinas o pó de Minas
    Ainda tenho a boca molhada pela menina das Gerais
    As noites nas veredas e cerrado ainda arrepiam minha pele.
    Como esquecer minha Minas das Saudades Gerais ???

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  6. Chumbo Grosso, um poeta.
    Volte sempre.

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  7. Ô trem bão sô!
    Isso é minas UAI!!!
    Adoro essas Minas Gerais!

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  8. Não fique com pena da penosa, JC. Você a comeria, sem titubear.

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  9. marcia190713/09/10, 03:10

    aí falando no clooney a a´gua na boca aumentou mais... (rs)
    falando sério você me fez lembrar de momentos gostosos que passei naquela terra
    só faltou lembrar do ores por nobris...
    beijim

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  10. marcia190713/09/10, 03:11

    ps, esqueceu também da branquinha do alambique...
    incrível como tem sempre por perto alguém que torre café na hora ou que tenha um albique...

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  11. B Schopenhauer13/09/10, 14:07

    A contribuição do meu amigo A Schopenhauer deve ter sido muito relevante.

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  12. Nada como estudar os clássicos, B. É um exercício que tenho feito. E que recomendo.

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  13. Olha só...No engenho de meu tio lá em Cupira, meio-agreste de Pernambuco, a semelhança era enorme. E ainda tinha tia Dóra, uma filha de escravos , libertada pela Lei do Ventre Livre, que cozinhava prá nós um fogão igualzinho a esse.
    A casa grande era avarandada em 3 lados, com redes prá todos os gostos. Alta, como convinha à uma sede de engenho; dava uma visão generosa da propriedade.
    A descrição de cheiros, insetos, animais remetem ao mesmo local.
    Xuxa que pariu.
    Duas únicas vaquinhas só prá coletar o leite prá nós: chamado de leite mugido.
    Os machos eram boi de carro. Carro de boi gemedor e zorra, uma carro de boi não com rodas, mas com trilhos, prá não embalar ladeira abaixo sobre a palha da cana.
    Dias terrivelmente quentes, mas noites frias. Nada comparado às Minas Gerais, mas em termos de Nordeste....
    Galinhas de capoeira, carneiros e cabras a postos para abate.
    Macaxeira com costela de bode assada. Federal.
    E mais canjica, pamonha e outros quitutes de milho.
    Chega. Fome, saudade e melancolia.

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  14. Um pouco de aconchego. Colo. Pés pra cima. Balanço, calor...

    É tudo que eu quero neste domingão aqui em casa!

    Êta vida boa!

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  15. Tudo que eu não queria era ler um texto tão nostálgico como este, justamente hoje.
    Parabéns!
    Como sempre perfeito.

    PS- Sou viciada neste blog.

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  16. Mercia Maria Almeida Neves27/02/12, 18:35

    Lindo,Uai!Como a alma dos escritores.Só quem escreve assim, tem alma linda assim...

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