segunda-feira, 10 de junho de 2013

CAI A NOITE



[ANDRÓMACA]

Vem Heitor despedir-se de mim para sempre,
Quando Aquiles, com as mãos temíveis,
Prepara o horrendo sacrifício a Pátroclo? 
Quem, de futuro, ensinará o teu filho 
A atirar as lanças e a honrar os deuses,
Quando te tragar o Orco escuro? 

[HEITOR]

Esposa querida, poupa as tuas lágrimas,
A minha ânsia febril vai para o campo de batalha,
Estes braços protegem Pérgamo, 
Lutando pelo altar sagrado dos deuses,
Cairei e, salvador da terra pátria,
Descerei ao rio estigío. 

[ANDRÓMACA]

Não mais escutarei o fragor das tuas armas,
Ociosa está a tua espada no átrio,
Arruina-se a estirpe heróica do grande Príamo.
Vais para onde não mais surgem os dias,
O Cocito chora, através dos desertos,
O teu amor termina no Lete. 

[HEITOR]

Toda a minha ânsia, todo o meu pensamento
Quero afundar na torrente tranquila do Lete,
Mas não o meu amor.
Escuta! o selvagem já está em fúria nas muralhas,
Afivela-me a espada, deixa-te de lágrimas,
Não morre no Lete o amor de Heitor.

A despedida de Heitor in Illiada, de Homero.


Ilustração: Les adieux d'Hector et d'Andromaque, de Vien Joseph-Marie, 1716-1809

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