O HOLOCAUSTO EM UM DIA


Em maio deste ano completar-se-ão 10 anos que estive no Museu em Memória do Holocausto, um dos 12 que visitei em Washington, DC, do total de 19 museus do fabuloso complexo Smithsonian. Mas o Museu do Holocausto não se enquadra, e "visitar" não define o que significa conhecê-lo. Não é como ir ao Aeroespacial e subequatorialmente procurar qualquer referência - e não encontrar nenhuma - a Santos Dumont, depois de se deslumbrar com as Apolos. Nem passear pelo National Gallery e descobrir que tem uma exposição itinerante de Tollouse-Lautrec, o que faz dar pulos de felicidade. Nem chega perto de passear pelas esculturas do Hirshorn Garden e entrar no Museu de História Natural parecendo que está dentro de uma série de TV. O que acontece quando alguém decide passar pela entrada do Museu do Holocausto é uma experiência além da observação visual. É sensorial. E é capaz de mudar a vida de uma pessoa.

O prédio é sisudo, bruto, objetivo. Tudo nele é feito e conduzido para que o visitante use os sentidos, muito além da visão, para perceber bem essa parte trágica, triste e desumana da história do mundo.  Ao entrar, todos recebem um passaporte que conta a história de uma vítima do Holocausto. A exposição permanente é dividida em três partes, O Assalto Nazista, A Solução Final, e O Último Capítulo, e começar o percurso a partir da exposição "Remember the Children: Daniel’s Story" é penetrar na história, com os sons de uma casa qualquer, pratos, talheres, risos das crianças. A história do menino Daniel vai sendo contada pelas páginas do seu diário. A mudança de ambiente para o gueto, com outros sons, outros cheiros, diferença de altura e até de umidade é algo que penetra na memória de uma forma inesquecível.


De tudo o que jamais esquecerei saltam da razão o cuidado e a competência na preservação e na forma de apresentar o acervo. Os vídeos com as experiências médicas usando judeus como cobaias são assistidos em áreas cercadas por muro, cuja altura varia de acordo com a faixa etária recomendada, para que crianças não vejam os horrores que algumas pessoas são capazes de imputar a outros seres humanos. E da memória dos afetos, aquilo que Nietzsche descreveu como sendo tudo o que nos afeta, salta como inesquecível o sentimento despertado em mim naquele momento. Tudo que experimentei e assisti pelo caminho havia me deixado alerta, abismada sim, por mais que eu já conhecesse grande parte da história e tivesse visto muita coisa sobre o Holocausto. Lá foi possível me sentir chocada além do que consigo narrar. Mas ainda era, até então, a fase de revolta, pura, animal. Não me envergonho em reconhecer que seria quase impossível não matar um monstro nazista daqueles se me deparasse, cara a cara, com ele. 

E então vem a dor. A dor na alma, que o corpo sente e reage instantaneamente ao entrar no boxcar, um dos vagões, nada mais que uma caixa de madeira, dos muitos comboios que transportavam os judeus pelas Ferrovias do Holocausto rumo à Solução Final. Nem todos conseguem entrar no ambiente da câmara de gás, onde antes da porta homens, mulheres e crianças despiam-se e dobravam as próprias roupas e adentravam para a morte com os sapatos nos pés. É quando o rosto se inunda das lágrimas que ninguém segura, quando os olhos que estavam na câmara escura se acostumam com a claridade e vêem os sapatos daqueles que se tornaram pó, cobertos de cinza, envoltos no cheiro delas. Nunca serei capaz de me esquecer disso, mas antes do que vi, não esquecerei do que senti emudecer dentro de mim. Eu duvido que alguém consiga gritar lembrando-se da revolta que sentiu momentos antes. O horror dessa dor fala alto em absoluto silêncio.


Na última parte do caminho tem a informação do destino de todos que foram vítimas do Holocausto. Aquele passaporte recebido no início, que personaliza em cada um os horrores do nazismo é fechado ao saber o que ocorreu com aquela pessoa. Johanna, a minha persona naquele tour, seu marido e sua filha não sobreviveram a Auschwitz. Sua outra filha que foi separada da família no gueto foi libertada do campo de Bergen-Belsen em 1945 e emigrou para a América em 1947. 

Então, depois do "encerramento", você precisa se reencontrar consigo mesmo. Ao final há uma capela ecumênica, um salão estrategicamente iluminado apenas por luz natural e velas, parada necessária para que as emoções, as tensões do corpo e da mente reencontrem algum equilíbrio. É respirando ali, tomando a percepção de seus sentidos de volta, porque se está vivo, que se tem a mais completa consciência que todos nascemos pessoas, mas alguns nascem sem qualquer traço de humanidade. Nascem sem o sentimento da alma. Foi sentada ali, ouvindo as batidas do meu coração no peito, que decidi nunca esquecer. 

Comentários

  1. A horrível "banalidade do mal".
    César

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares