domingo, 5 de dezembro de 2010

AISTHÉTICOS - APELLATION CONTROLÉ


Falei no post anterior sobre tipos de uvas, produção e maturação do vinho. Teve até uma bela pergunta na área de comentários sobre clone de uva. Muito legal isso. Quero no entanto, antes de nos irmos às compras, falar um pouco sobre classificação de vinhos, isso será super útil quando finalmente formos às compras.

Classificar vinho entra para valer na história, em 1855 quando os mercadores franceses já cansados de comprar “gato por lebre”, começaram a desconfiar da falação dos produtores e proprietários das vinícolas. A maioria destes proprietários eram os donos dos castelos (Chateaux’s) e é claro que estamos falando da região de Bordeaux.

Li em algum lugar que ao entendermos da classificação dos vinhos de Bordeaux, fica bem mais fácil entendermos o que estamos comprando. Os vinhos de Bordeaux sempre foram considerados os melhores e são estes que vamos estudar aqui, por ora.

Os comerciantes ingleses traziam o vinho francês em barris e engarrafavam eles mesmo. Um belo dia alguém resolveu dar o mesmo tratamento ao vinho de Bordeaux que dava ao vinho do Porto; engarrafar e guardar um ano ou dois. Ficaram maravilhados com o resultado, a maturação em garrafa havia “melhorado” o vinho consideravelmente. Isso fez com que os impostos aumentassem em cima de bons produtos que poderiam agüentar o armazenamento prolongado.

O Departement Du Gironde produz atualmente 700 milhões de garrafas de vinho por ano, sendo a vasta maioria vinhos “ordinários”, “de mesa”. Vinhos de consumo imediato do dia-a-dia. Mas também produz uma quantidade inacreditável de vinhos excepcionais.

A pedido do Napoleão, os produtores e os comerciantes de vinhos da região de Bordeaux deveriam criar um sistema de ranqueamento dos vinhos, baseados em preço e qualidade. Porém, nem os comerciantes e nem os produtores queriam assumir a missão. Coube então ao “Le Courtier” (o mercador de vinhos, que visitava os castelos, provava os vinhos e levava amostras para os comerciantes) a tarefa de classificar os vinhos de Bordeaux, e aqui falo apenas dos tintos.

A classificação começa por Medóc onde havia o consenso de que era ali que haviam os melhores vinhos produzidos anualmente. Três casas de Medóc foram agraciadas com a denominação de Premiers Crus, Chateaux Lafitte, Chateaux Margaux e Chateaux Latour. Incluíram nessa lista um castelo de Graves (município vizinho) por ter, também, produção excepcional de vinho, o Chateaux Haut-Brion. Ao todo listaram mais de 60 Chateauxs ao longo de mais 4 Crus. (Deuxieme, Troisieme...etc etc).

A região de Sauternes & Barsac recebeu uma classificação parecida para a região, assim como a região de St. Emilion também foi “enquadrada”. Anos mais tarde foram enquadradas as regiões de Graves e Pomerol. Uma última classificação é o Cru Bourgeois. São vinhos de mesa que podem trazer no rotulo Cru Exceptionel, ou Cru Superior, mas de regra são vinhos mais baratos que não resistem tanto ao tempo

Algumas considerações: o sistema de classificar os vinhos em Premier Cru ao Cinquiême Cru é apenas para qualificar os produtores. O Instituto Nacional de Vinicultura da França não obriga ninguém a colocar nada no rótulo. Mas é claro que quando consta Premier Grand Cru no rótulo, é certo que vamos pagar uma fortuna pelo produto, e vai valer a pena, diga-se de passagem. O sistema chama-se Apellation Controlée e quem se enquadra normalmente coloca isso no rotulo da garrafa.

Por exemplo, na classificação do Medóc nada impede um castelo “subir” de classificação quando produz uma safra excepcional, e quem produzir abaixo da qualidade normal, será “rebaixado”.

Só para ilustrar o descrito acima; o Chateaux Petrus  era classificado em 1855 como Cru Bourgeois, pois era produzido numa vinícola pequena na região de Pomerol, fronteira com St. Emilion. Depois da 2.a Guerra, o Chateaux Petrus produziu em 1945 um vintage renomado. Nos anos subsequentes recebia prêmios e reconhecimento internacional como um dos maiores vinhos do mundo.A proprietária lutou muito para mudar a classificação e conseguiu. Com um marqueting forte, invadiu os EUA na década de 60 e principalmente junto à rede hoteleira, fincou nome. Graças ao Henry Sole no Restaurante Le Pavillion em Nova York o Chateaux Petrus consolidou a fama, tendo nada menos do que o Onassis como um dos maiores consumidores desse vinho. Também, a U$ 5000 a garrafa, só o Onassis e mais uns 5-10! Só para vocês terem uma idéia, o Chateaux Petrus 1946 saí pela módica quantia de U$ 20.000! O de 82 sai a U$ 6000! Mas tem consolo: o de 1978 sai á U$ 1200. Bacana né?

Bom, com essas informações podemos finalmente olhar as prateleiras com MUITO mais calma. Aprendemos com os franceses como se classifica vinhos e temos os parâmetros corretos para fazermos as nossas escolhas.

Nos supermercados brasileiros a oferta de vinhos franceses é pequena, se compararmos com os Argentinos, Chilenos, Portugueses, Italianos e Nacionais. O que vem para o supermercado de vinho francês é o que chamamos de vinhos ordinários. Sim, tem alguns bons com preço em conta. Nada demais nisso. Mas lembrem que os latinos não tem nenhum sistema de classificação, só preço!

Na compra em supermercado posso garantir que os nossos hermanos nos suprem com belos produtos e com custo benefício superior ao dos nossos amigos franceses.


(Veja o post anterior do autor, sobre o tema: Vinhos - Os Aiestáticos)

6 comentários:

  1. Amigos:
    Vamos parar com esses posts sobre enologia, que a verba de representação está acabando. Prá cada coisa que leio quero por alguma garrafa na prateleira e aí não dá.
    Grandes lições.

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  2. Não entendo nada de vinhos. Bebo-os, simplesmente. Lendo esse texto, tenho vontade de beber mais.

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  3. Amigos, esse é o grande "problema" do vinho, quanto mais eu estudei, maior ficou a sede !
    Jájá vamos falar de adegas e prateleiras ! (rindo muito aqui).

    Lunarscape

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  4. Doc, precisamos fazer um brinde, juntos. Todos nós. Não virtual, mas real. Há de chegar esse dia. Abraço, meu amigo.

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  5. Será que o querido amigo vai me perdoar por gostar de tônica light, que disse ser bebida de gay? rsrsrsrrs

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  6. Velvet, esse dia chega, basta fazermos acontecer.

    Bluesette, não há nada de errado com Tonica Light, mesmo que seja gay toda vida...


    Lunarscape

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