O SER: MULHER

Gênero: humano. Mulher é a mais bela metade desse gênero. 
A outra mais bela metade é o homem. (Velvet)

(Este texto foi publicado em 08 de março de 2011. 
Como nada aconteceu que mudasse minha opinião, vale a reedição)

Nesses (mais de) 100 anos de luta pelos direitos da mulher, cuja representação máxima é este dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher, conquistas importantes foram alcançadas. Mas muito se perdeu e se confundiu, em meio a tal objetivo. Eu não seria eu, esta mulher, se não fosse hoje pela contramão do usual, do senso comum, do falatório "normal" deste dia.

O comportamento feminino está muito masculino e pelo menos isso não se pode debitar da conta dos homens. As mulheres são as primeiras a suspirar e estremecer sonhadoramente as pestanas por um homem que goste de cozinhar e que faça isso com certa habilidade, ao mesmo tempo em que torcem o nariz para a amiga que diz que vai... cozinhar! Se ela disser que cozinhará para o seu homem, pior ainda. Será condenada de imediato. Há algumas gerações o encanto, a poesia, tudo o que determina a peculiaridade de ser mulher precisa quase ser escondido: virou sinônimo de fraqueza, de submissão (e de chantagem).

O "novo" padrão de comportamento é fruto da ditadura do discurso da liberação - muito diferente de liberdade - sexual, que originou uma verdadeira guerra de sexos. Só que não é travada entre homens e mulheres, mas sim defendida e definida por mulheres que fazem questão de, justamente, negar a sua condição feminina, negar sua mulherzice. E se tornaram e se tornam a cada dia mais parecidas com os homens do que muitos deles o são. Em nome da luta contra a discriminação da mulher, esse comportamento fere a coerência.

O modo como os  "revolucionários progressistas" (de todos os gêneros) bradam pelo dia Internacional da Mulher dá a ele uma cara de guerrilha armada. Nada me faz sentir mais discriminada como mulher e mais diminuída em minha condição de ser humano do que um dos seus dogmas: segundo os papas do esquerdismo, Marx e Engels, na família moldada pelos "capitalistas", o homem é o burguês e a mulher representa o proletariado. Não seria possível, portanto, segundo tal ditame, a emancipação dos trabalhadores sem a libertação das mulheres. Essa é uma causa que não me toca. São ideias que não me dizem nada porque nada têm a ver com a minha vida real: proletária sou do estado desde os meus 16 anos de vida quando passei a trabalhar quase meio ano para sustentá-lo, sem nada dele obter em troca. Esse estado que, a propósito, a esquerda tanto idolatra e defende, acima de qualquer indivíduo, seja homem ou mulher ou o que a liberdade individual escolher se tornar.

Sem ideologia onanista: o que o mundo precisa é amulherar-se. Especificamente uma parte dele precisa, justamente a parte que é composta pelas mulheres. Mas só vale para as que nasceram sob o sexo feminino, pois há um tipo de mulher que tem até representante no Planalto Central que nem intervenção Divina faz parecer fêmea. O mundo feminino precisa feminilizar-se. Talvez incorporar a moda imposta aos homens, o tal "metrossexualismo". É isso, a mulher precisa ser metrossexual: gostar muito de si, gostar de se cuidar. Perder o medo de ser "sensível". Usar cremes maravilhosamente perfumados, comprar lingerie de primeira - algumas super práticas, outras simplesmente deslumbrantes -; usar decote com calça comprida, calçando sapatilha. Vestir jeans skinny com a camisa do namorado deixando os botões de cima abertos. Modelar a sobrancelha e caprichar no bikini brazilian wax (se não dividir o banheiro com um cara que vá usar sua cera para depilar o peito). Abusar da saia abaixo do joelho e do scarpin de bico fino mas sair com o cabelo molhado de manhã, que o vento trata de secar. Esmalte e batom vermelhos, mas pagando as suas próprias contas. Receber flores, muitas, sendo sempre cortejada. E lutar krav maga.

Quanto aos homens... ah, sim, precisam perder o medo que a nova sociedade lhes impõe. O medo de serem homens, de assumir o diferencial, o poder que a condição do gênero lhes confere. Há um monte de mulheres que são tão fortes e seguras (e femininas), que se sustentam, a si e à sua família, não precisam nem querem ser submissas, que sabem muito bem qual é o valor de um homem. Deste modelo de homem que é macho.

Torça o nariz quem quiser. Sou independente para dizer da minha condição sem precisar nem por um minuto sequer jogá-la na cara da sociedade, exigindo dos outros aquilo que não conquistei por mérito da minha capacidade. Se for preciso, eu explico, sem medo de palavras proibidas pelo dicionário politicamente correto que nos patrulha, a todos, mulheres e homens. Aqui quem fala é uma mulher: fêmea, dama, donzela, amante, moça, adulta, velha, menina, matriarca, senhora, dona. Matrona, viúva, gata, dômina. Doida, pura, beldade, avião, cidadã. Bruxa, santa, flor, nobreza, delicadeza. Flamenguista e Cruzeirense. Alfabetizada, pagadora de impostos, eleitora. Diva, fada, bibelô, peixão - sereia! 

Aqui quem fala é uma mulher como são centenas de milhares de outras, que não precisam, não querem e não desejam a nenhuma das suas amigas, "felicidades" num Dia Internacional. Desejam, porque podem, a felicidade e tudo o mais em todos. O coitadismo a gente deixa para as inimigas.


"Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos -
dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou."

Adélia Prado

Ilustração 1: A Mulher Com Brinco de Pérola, de Vermeer
Ilustração 2: A Toilet de Venus, de Velazquez

Comentários

  1. Muito legal esse texto, deveria ser leitura obrigatória em todas as escolas do pais.
    Num mundo onde todo é banalizado; sexo, relacionamento, amor, roubo, assasinatos, drogas, dinheiro e a falta dele, temos lapidado uma sociedade confusa com valores morais e éticos dubios.
    Ser homem, diante dessa mulher que se emancipa a cada dia mais, não é tarefa das mais faceis. Agora ser "macho" é facinho.

    Creio que basta ser inteligente para lidar com isso tudo.

    Parabens á todas as mulheres, todos os dias :)

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  2. A meu ver, há uma diferença entre mulher e fêmea, assim como há uma diferença entre homem e macho. Fêmea é a representante bruta do gênero, a que usa apenas de seus atributos físicos sem se preocupar com a essência. Seios siliconados, lentes de contato, botox e apliques nos cabelos são típicos de fêmeas. A sedução como ferramenta de ascenção. Elas ocupam mais espaço nos meios de comunicação, mas, graças a Deus, ainda são minoria. Mulher é muito mais que isso. Pode até ter seu lado fêmea explicitado, mas a mulher é a que comanda, que tem cérebro e dentro dele, idéias. É a mãe, esposa, irmã, filha colega de trabalho e não apenas de profissão. Mulher é a que merece um dia de destaque no calendário, não porque o restante do ano é dos homens, mas porque no restante do ano é de ambos.
    Que se danem as feministas que não sabem ser mulheres, parabéns Às mulheres de verdade.

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  3. O que dizer, diante de tao belas palavras. So sentir. E viva a mulher !!

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  4. Escancaradamente copiado e colado na Tribo dos Manaós.

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  5. Belo texto, Regina.Já mandei para o TT e meu Face. Poesia pura! Bjs

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  6. Adorei, não há porque seguir padrões, se o que importa é sentir e ser feliz.

    pataabraço

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  7. Concordo com vc.. eu sou uma dama, mas nada me impede de querer aprender kick-boxing, pq neste pais, os homens perderao a classe. Agarram mulheres pelos cabelos como no tempo das cavernas!

    Por via das duvidas, aprenderei a dar uns chutes, com salto quinze e claro!

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  8. Regina,
    Belo texto, simplesmente belo.
    Parabéns pela escrita: direta e objetiva para um tema como este, tinha de ter a visão feminina.
    Abraços
    Júnior

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  9. Gelmir Reche08/03/11, 20:49

    Parabéns Regina pelo lúcido texto.
    Está na hora desta "guerra" dos sexos acabar, pois como entender que existam mentecaptos que que têm a capacidade de praticar agressões contra mulheres?
    E como aceitar que existam mulheres que se submetam a estes "homens" que por serem namorados, maridos ou companheiros, se achem donos delas?
    De minha parte, louvo a coragem das mulheres em busca de seus espaços, até porque, tenho mãe, esposa e filhas às quais amo com devoção, exatamente por saber das suas lutas diárias.
    Portanto, a nós homens que sequer um dia municipal temos, resta reconhecer e comemorar vosso dia Internacional, até porque, que numa relação normal, sabemos que é que tem a rédeas da situação.
    Gelmir Gutier Reche

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  10. Marcelo,
    Gostaria de solicitar que você postasse o seguinte vídeo, como contraponto ao texto:
    http://www.youtube.com/watch?v=57neSrYUJpw

    Trata-se de "Canción escrita por Gloria Martín e interpretada por esta extraordinaria cantante mexicana ya fallecida. Extraída del CD "Mujer", editado por "Discos Pueblo", no sé qué año.

    Mujer si te han crecido las ideas
    de ti van a decir cosas muy feas:
    que no eres buena, que si tal cosa
    que cuando callas te ves mucho más hermosa.


    Mujer, espiga abierta entre pañales,
    cadena de eslabones ancestrales,
    ovario fuerte, dí lo que vales
    la vida empieza donde todos son iguales.


    Ángela James o antes Manuela,
    mañana es tarde y el tiempo apremia.


    Mujer si te han crecido las ideas,
    de ti van a decir cositas muy feas,
    cuando no quieras ser incubadora,
    dirán: no sirven estas mujeres de ahora.


    Mujer, semilla, fruto, flor, camino,
    pensar es altamente femenino.
    Hay en tu pecho dos manantiales,
    fusiles blancos y no anuncios comerciales.


    Ángela James o antes Manuela,
    mañana es tarde y el tiempo apremia."

    Mariza

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  11. Sobre o ótimo texto muito já foi postado. Então posto sobre o quadro. Vale dar uma lida:

    "Moça Com Brinco de Pérola, de Tracy Chevalier" - 24/10/2002 - Digestivo Cultural - Ricardo de Mattos - http://t.co/McZOXtd via @digestivo

    Segue trailer do bom filme:

    http://www.youtube.com/watch?v=VNlcsamBP8M

    Parabéns, ótimo dia!

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  12. Sergio Nogueira10/03/11, 16:00

    Muito bom, só pude ler hoje.
    Parabéns, as mulheres merecem muito mais, além deste texto maravilhoso

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  13. Regina, concordo contigo em 99% do texto, que preciso dizer está INCRÍVEL.

    Perfeita a tua observação sobre discriminação da "mulher feminina" ou da "mulher romântica.

    Mas me diga: não fosse o "Dia Internacional da Mulher" você teria escrito este texto no dia 8 de março de 2011? Acho que não...
    O problema é a comercialização da data... Não é um dia para dar presentes para mulheres! Não!
    Mas nos chama a reflexão...
    E se não fosse pelo tal "Dia" não teríamos sido agraciados com teu texto e tuas idéias.

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  14. Não comento. Só pergunto: quando é que você fará seus próprios poemas? Quem escreve sempre curte todos os caminhos do pensamento.

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  15. A verdadeira mulher, bela, meiga, carinhosa, que se emociona ao receber flores, que chora ao reencontrar o homem amado, que vibra com suas conquistas, que se impõe por suas qualidades, que ocupa cada vez mais seu espaço na sociedade, não precisa de datas comemorativas, sempre carregadas de forte apelo comercial.
    A história está cheia de mulheres exemplos, de vida, de cidadania, de mãe, de esposa, de amante, de amiga, de companheira, que buscaram seus espaços num mundo tão ingrato e segregador.
    Mas elas não esperaram que "governos" agissem por elas. Elas arregaçaram as mangas e foram a luta. E venceram.
    E você se encaixa perfeitamente no exemplo de mulher moderna.
    Belo texto. Parabéns.

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  16. Marci Neiva27/10/11, 14:03

    Texto maravilhoso, Rê, como tudo o que escreve! Vesti como uma lingerie fina. Odeio o tal Dia das Mulheres! Não me conformo com isso. Quero respeito e flores todos os dias. E se for possível, sexo. Rsrs... Também adorei a sensibilidade da escolha da imagem. Moça com brinco de pérolas é meu favorito de toda a vida! E Vermeer o maior pintor de todos os tempos...
    Adélia fechou com chave de ouro!
    Feliz em conhecer você,Regina!

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  17. Feliz VIDA a elas!!! Às mulheres felizes!

    Aquelas mulheres que não sentem vergonha de serem quem são!!

    Porque estas sim, merecem todo o respeito, pois a cada dia elas procurarão serem melhores para si próprias, sem pisar ninguém, sem desmerecer ninguém, sem invejar ninguém, sem culpas por serem felizes pois sua felicidade é digna, não é usurpada e nem descaracterizada a base dos mi mi mi.

    Elas não precisam se desculpar com os diferentes, porque elas não exaltam nem as próprias diferenças e assim não precisam exaltar a do outro!
    Não precisam pedir desculpas as mulheres branquelas, negras, vermelhas, eumelaninadas, feomelaminadas porque elas não sabem nem a cor que tem ela própria por dentro, quanto mais a de um semelhante.
    Elas não precisam pedir desculpas para nenhum outro gênero, porque ela não sente sua alma taxonômica. Seu coração usa da morfologia para amar quem merece, e não quem se acha merecido. E não vive elas de culpar aos seus ancestrais que sim, se definiam zigoticamente capaz para definir milhares de gêneros. Elas, as felizes, amam todos os gêneros DESDE que estes não se achem gÊnÊrosos demasiadamente dignos de mais merecimentos que os outros.
    Ah!!! Estas Mulheres Felizes que não precisam se desculpar por sua felicidade são demais!!! a ELAS, um Dia! Um Ano! Uma Vida Longa e Plena.

    Sem desculpas, Sem MI MI MI Feliz Dia das Mulheres.

    ResponderEliminar
  18. Feliz VIDA a elas!!! Às mulheres felizes!

    Aquelas mulheres que não sentem vergonha de serem quem são!!

    Porque estas sim, merecem todo o respeito, pois a cada dia elas procurarão serem melhores para si próprias, sem pisar ninguém, sem desmerecer ninguém, sem invejar ninguém, sem culpas por serem felizes pois sua felicidade é digna, não é usurpada e nem descaracterizada a base dos mi mi mi.

    Elas não precisam se desculpar com os diferentes, porque elas não exaltam nem as próprias diferenças e assim não precisam exaltar a do outro!
    Não precisam pedir desculpas as mulheres branquelas, negras, vermelha, eumelaninadas, feomelaminada porque elas não sabem nem a cor que tem ela própria por dentro quanto mais a de um semelhante.
    Elas não precisam pedir desculpas para nenhum outro gênero, porque ela não sente sua alma taxonômica. Seu coração usa da morfologia para amar quem merece, e não quem se acha merecido. E não vive elas de culpar aos seus ancestrais que sim, se definiam zigoticamente capaz para definir milhares de gêneros. Elas, as felizes, amam todos os gêneros DESDE que estes não se achem gÊnÊrosos demasiadamente dignos de mais merecimentos que os outros.
    Ah!!! Estas mulheres Felizes que não precisam se desculpar por sua felicidade são demais!!! a ELAS, um Dia! Um Ano! Uma Vida Longa e Plena.

    Sem desculpas, Sem MI MI MI Feliz Dia das Mulheres.

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