NÃO ME OFEREÇAM IGUALDADE


Seu Toinzim era um pequeno comerciante, tinha uma mercearia e uma banca de frutas no Mercado Municipal. Lá nas Minhas Geraes, meados dos anos 70, era muito comum a tal da caderneta, para comprar "fiado". Possuidor do estranho hábito de pagar suas contas, além quitar todos os impostos, sem receber as dívidas da freguesia, Toinzim quebrou. Faliu. Para não ficar a dever o gazofilácio do estado, vendeu tudo, inclusive a casa. A família mudou-se, uma esquina acima, para uma casa menor, mais velha, alugada. 

Comprou uma Rural azul-índigo desbotada, manchada, barulhenta e muito, muito dura. Durante a semana, puxava saibro (areia rosa) de beira de rio, para vender em construções. Lá pela quinta ou sexta-feira, abastecia a caçamba com laranjas e aos domingos de jogo no Uberabão, o estádio oficial da cidade, vendia as ditas, descascadas. Tinha uma maquininha de manivela que fazia as cascas virarem tirinhas curly. A caçula da casa ia com ele, e tal qual Guido à Giosuè, enquanto descascava laranjas, contava histórias que convenciam a filha de que tudo aquilo fazia parte do jogo que a encantava, campo e arquibancada, desde tão cedo. Eu tinha apenas 6 anos, e ainda havia cachinhos nas pontas dos meus cabelos. 

Tudo na história da vida de uma pessoa é responsável por como é, quem é, como se porta e pensa, no presente. Mas foram minha infância e adolescência, até quando entrei na faculdade já trabalhando, cruciais para que, neste "Dia Internacional da Mulher" passados mais de 40 anos, eu possa escrever o título acima, plenamente orgulhosa da minha convicção: não me ofereçam igualdade. Mas nem que a vaca tussa quadradinho e babe xadrez em verde-e-amarelo! 

Não sou exemplo para ninguém, não dependo da complacência de ninguém e não preciso provar nada a ninguém, nem a mim mesma. Sem necessidade alguma de receber rótulos como guerreira, lutadora, batalhadora, etc. Não pretendo mudar o mundo, Deus que livre o mundo, dessa má sorte. Jamais desejei cair de cabeça (sem cérebro) em alguma causa, social ou de coisa alguma. Trabalho desde antes de entrar na faculdade, aos 16 anos; morei sozinha aos 18, no Mato Grosso do Sul; vivi 2 anos em Ribeirão Preto antes de chegar cá nesta Brasília; um casamento aos 21, pari aos 24 depois de passar os últimos 5 meses da gravidez no ermo (à época) faroeste caboclo do Tocantins, trabalhando em dura campanha para presidente e governador em 1994. Ah, com um 38 na cintura, às costas, e nos pés sempre calçada de botina mateira, com solado de pneu. Lá atravessei riachos secos de madrugada, a pé, "buchudinha", porque pontes eram queimadas por adversários para que, justamente, nosso carro não pudesse passar. Sem abrir mão de usar, um só dia sequer, batom geralmente vermelho, e sabonete cheiroso com sua equivalente loção hidratante, depois do banho (perfume, não usava, enjoei na gravidez).

Com tanta coisa vivida desde tão jovem, não seria agora, passando pela prateleira etária dos 40, que eu me transformaria ou numa moçoila doce e romântica (mas amarga por dentro, recalcada e perigosamente infeliz), ou na feminista-nada-feminina conforme regra das criaturas que comemoram 8 de Março como sendo o ápice orgástico de suas vidas. Mas não mesmo!

Para me saber mulher, plena, não portarei bélicos discursos cabra-macho-sim-senhor, contra o "subjugo patriarcal e burguês da sociedade dominada pelos homens". Tampouco piscarei sonhadoramente os meus (longos) cílios bem marcados por rímel MAC Extreme Black, suspirando à janela (ou no mural do Facebook com cards cafonas com as frases que nem são de Clarice e outras piores que são de Caio Fernando Abreu, tempos mudernos), à espera do príncipe encantado cuja obrigação é ser o único responsável supremo pela minha felicidade eterna. 

Pago minhas contas e muitos impostos de pessoa jurídica em dia, tento educar minha filha para que seja capaz de fazer o mesmo, leio 2 a 3 livros por semana, dirijo muito bem, muito acima da média dos homens que enchem as ruas com barbeiragens. Mas não conte comigo para uma manobra complicada de ré, que sou péssima nisso, quase passo vergonha. Cozinho divinamente, com pé no chão à beira de um fogão de lenha ou bem paramentada ao lado de um chef qualquer (qualquer um, inclusive eu mesma). Não sigo novela, conheço as regras do futebol e reconheço o desenho tático dos times em campo (futebol europeu, porque o tupiniquim... né?). 

Não sei costurar nem bordar, detesto lavar roupa, não gosto de doces, bebo caipirinha sem açúcar e não fumo, nem careta nem capeta. Passo uma camisa masculina impecavelmente, do tipo que quando ele tira o paletó ao fim do dia, a tal se manteve sem uma ruga sequer. Não sou nada ciumenta, zero mesmo, e canto sem desafinar, apesar da voz curtinha. Gerencio crises sem que meu coração dê um salto a mais, qualquer que seja a natureza, mas choro feito bebê faminto quando leio... deixa pra lá (quem escreve, sabe). Tenho senso de humor corrosivo, sou cínica, e muito, muito carinhosa. Sem bregar, o que considero inaceitável. 

Para proteger aqueles que eu amo (que cabem nos dedos das mãos do Lula e ainda há umas vagas) eu sei muito bem do que eu sou capaz, e quem quiser, pode imaginar. Adianto que qualquer coisa que deduzam, ainda será pouco: sou baixinha, só como carne mal-passada, nasci sob o signo de Leão com uma pele de pêssego que abriga um lobo furioso dentro dela. 

Em nenhum momento da minha vida, e oportunidades pessoais e profissionais não me faltaram, vi os homens como adversários, e jamais tentei "vencê-los". Acho duvidosa a Lei Maria da Penha, apesar de reconhecer vários méritos pontuais que a tornam praticamente necessária. Para mim, pessoalmente, não admito pensão alimentícia, e considero que a frase mais relevante de todos os tempos dita pela Eliana Calmon, depois da sua superexposição desnecessariamente verborrágica foi: "Ter sido malcasada foi fundamental para o meu sucesso profissional". Idem.

Igualdade, com os homens, por quê? Eu não disputo o Prestobarba do meu homem para fazer a minha, porque ter barba não combinaria com meu rosto, nem com meus lábios grossos. E muito menos, que Deus nos poupe a todas disso, aceitaria encontrar a embalagem vazia da cera, na hora do bikini brazilian wax, porque o cidadão a dividir o meu banheiro usou-a para depilar o peito. E sabe-se-lá mais o quê, melhor dizer adeus ao sujeito antes de descobrir. 

Homens e mulheres, antes de se definirem por gênero, devem se definir como "ser humano". Qualquer outra coisa além disso, os diminui, a ambos, de várias formas, e não importa para mim, a opção de prática sexual que tenham, pois não se trata disso. Ano passado eu disse, em post nessa mesma data, que a mulher é a melhor metade do gênero humano. A outra melhor metade é o homem. E assim eu comemoro: desejo às mulheres, seja como for a vida que levam (fácil não é para ninguém), que não precisem comemorar um dia internacional chamado "da Mulher". Ao invés disso, parabenizem o homem que... 

...À noite, antes de debater com você sobre política, futebol, livros, filmes, a novela (que ele assiste) ou o reality show de música, pergunta como foi seu dia, se você se alimentou e chegou bem em casa. Sem nunca deixar de desejar que durma bem, com o beijo especial que só pertence à você. Que tenha tais debates interessantes antes e depois de um bom sexo, filosofando com Nietzsche só para começar. Que manhãzinha, cedo, mesmo antes de você abrir os olhos, lhe destina um longo bom dia chamando-a de Gata. Ou que nunca acorda antes que você mas nunca deixa de correr para a cozinha, onde você está com o café, para te beijar. Que a faz sorrir todos os dias, todo santo sagrado dia, aconteça o que acontecer, inclusive quando você chora. Que, por pura e descomplicada cumplicidade, encara com você os seus e pede sua ajuda, sem vexar-se por macheza cafona, para que você resolva por ou com ele o maior problema de sua (dele) vida. Ou que os esconde todos, para não jogar cargas em suas costas.

É aquele homem que enche o seu peito (sutiã 44, sem ou com silicone, que seja) de um orgulho quase imoral de tão grande, pelo sucesso que alcança. Que se exaspera porque você fala demais, nem ouve, mas jamais deixa de acatar as suas ponderações (faz questão de pedi-las, registre-se), quando é você que detém a razão, e ainda a elogia por isso. Que sabe muito bem o que é uma boa "pegada" (ah, se sabe!), sem deixar de abrir a porta do carro para você. Isso tudo acontece a ponto de você não se lembrar que inventaram um dia para bradar por igualdade, porque (graças aos Céus) existem diferenças entre homens e mulheres. Você só lembra das diferenças, as que contam, naquela hora digamos... mais gostosa. 

Tem Dia Internacional do Ser Humano? É esse que desejo ver qualquer um comemorar. 

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Comentários

  1. Jorge Lima08/03/12, 18:25

    Muitcho bem Regina. Viva a diferença! Abração.

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  2. Tá vendo porque a Velvet é a minha ídala?!!!!! Vá descrever bonito o que vai na alma lá no Uberabão, sô!!!!!

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  3. Parabéns a nós todos, então.

    Abs.

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  4. Putz, baita texto... Matador, de antologia.

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  5. Esqueci de dizer que adorava aquela maquininha de descascar laranja. Pegava a casca enrolada e ela virava colar e pulseira...

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  6. Por essa e outras que aprendi a lhe admirar e amar (no melhor sentido possível). Você anda de skate no meu coração.

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  7. Marcia, eu fazia "cortina" com as cascas de laranja, para cabana de árvore. Monei que era gud nóis não hevava, mas eu pleiava muito!

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  8. Um colirio de post, simplesmente cativante.

    Lunarscape

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  9. Te admiro, te entendo, te respeito, não viemos pra competir com eles, e sim para construirmos juntos, muitos ainda precisam aprender, viver e viver para um dia ( espero ) entender. Que texto Regina, que texto!!

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    1. Somos o resultado dos nossos antepassados, e do que fazemos com o que herdamos e vamos aprendendo, ao longo da vida. Isso é o que pessoas como você, eu e - graças a Deus - tantas mais, nos tornamos: anti-hiprocrisia, acima de tudo. Beijo, Xará!

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  10. Jose Frederico Rensi Garrido05/03/13, 17:10

    Como sempre não há necessidade de comentários! Fique bem Regina.

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  11. Que isto Regina, que texto, chapei, te admiro muito mulher!!

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  12. Meu coração está acelerado, estou radiante com este texto. Regininha tu arrasou menina!!! Minha admiração deu saltos quânticos.

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  13. Uau, que belo texto, traduz muito do que vai na sua alma, coisa linda de se ler !!
    Parabéns menina, ainda terei o prazer de ler um livro seu ....
    Ah, não sabia que você era baixinha, agora sei ....
    "É nos menores frascos que se encontram os melhores perfumes!"
    Beijos e um lindo dia "procê" .... rsrs ....
    #Cheers !!!!
    @BobWebBB

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    1. Não é alta, mas também não é baixinha !! E mais, você é grande na alma, no coração e na inteligência !! :)

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