DE FILHOS E DE PAIS



Seu Toizim me levava aos jogos no Uberabão, o estádio da cidade lá nas Minhas Geraes, aos domingos, quando eu tinha 5, 6 anos de idade. A gente entrava quando abriam os portões - depois dos 30 do segundo tempo, para não pagar, claro. Antes, horas antes, eu saía da cabine para brincar na carroceria da velha Rural, dura que só ela, barulhenta, a caçamba cheia de laranjas que o papai vendia na frente do estádio. As tirinhas das cascas que seu Antônio tirava e jogava de volta para eu brincar, naquela carroceria, eram como os cachinhos que ainda existiam nas pontas dos meus cabelos. Era fascinada pela energia do papai girando aquela manivela que filetava a casca de uma laranja. Uma a uma, em troca de moedas, uma a uma. Eu ria, e amava o riso do papai quando eu levantava os braços e gritava "gol" porque ouvia o mesmo som vindo das arquibancadas. Tal como Guido a Giosué, papai contava histórias que me faziam acreditar que tudo aquilo era bom, e nós inclusos fazíamos parte, uma parte importante daquele espetáculo de gente, bola, bandeiras e sons.

Eu adorava futebol desde antes. A primeira lembrança que tenho de televisão, na memória, é por volta dos meus 4 anos, vendo do alto do colo do baixinho seu Toizim, Rivelino jogar. Eu brigava, porque o bigode do Rivelino me dava a certeza de que era o meu pai que estava na TV. Para me provar (mesmo eu estando em seu colo) que ele não estava na TV, mas ali comigo, papai fazia "mágica". Tirava moedas de detrás da minha orelha, entre os cachinhos que eram em profusão aos 4, e claro, junto arrancava risadas da menina que habitava dentro de mim. Houve uma vez que não tinha dinheiro em casa, nenhuma moeda. Papai usou rodelas de cenoura, sob os protestos da mamãe, claro... e precisa mais? Precisa. Ele me ensinou a jogar truco aos 7 anos. Depois, quando bem mais velha, jogava o carteado melhor que ele, era o máximo para ele! Ninguém nos levantava da mesa, quando algum desavisado que não sabia de nossas habilidades nos permitia jogar em dupla.

Homem de pouco estudo mas dono de uma inteligência enorme, rápido no raciocínio, humor ácido a extremos, resposta pra tudo na ponta da língua, eu era sim, o seu xodó. Sou a caçula, única mulher bem depois de 2 marmanjos, nasci fora de época - rapa do tacho, como se diz nas Minhas Geraes. Mesmo tendo perto dos 40 quando eu nasci, em 6 de agosto do Ano da Graça do Tricampeonato, meu pai foi um homem à frente de seu tempo. E de todas as lições que ele pode me ensinar e nem sempre eu quis aprender, três eu tento repassar para a neta dele.

- Estude, estude, estude, e não pare nunca de estudar, porque isso é a única coisa que ninguém será capaz de tomar de você;
- Nunca permita que ninguém tome decisões por você, jamais responsabilize ninguém por suas próprias escolhas;
- Suas virtudes, cabe a você tê-las e defendê-las. Nunca espere que alguém as reconheça, muito menos que as defenda, em seu lugar. Faça isso em nome de sua consciência.

Papai também dizia que casamento algum valia uma profissão, que uma resposta bem dada evitava um tapa na cara mais tarde, que reagir ensina mais do que fugir e que música boa e mesa farta eram a receita, o remédio para qualquer mal. E mesmo que faltasse a fartura, a música não podia faltar.

Seu Antônio não julgava, ele ouvia. Não aconselhava, ele apoiava: "não posso dizer o que fazer, senão não é sua vida, é a minha". E arrematava, rindo, por baixo do bigodão: "escolhe o que você quiser fazer, não importa, porque você sabe que sempre pode voltar e começar de novo, pode voltar pra me contar. O colo você sempre vai ter." E agora, papai? Para que colo eu volto?

Dias antes do papai morrer, no hospital, esperando meu irmão mais velho no horário da visita, seu Toizim olhou para mim e para a Cris, minha cunha querida que comigo cuidou do papai como se pai dela fosse, desceu o "beiço" para mamãe que estava agoniada no corredor, à porta do quarto, porque seu filho não chegava e tascou, sorrindo: "é uma boba, né?" E passou a contar piada. SUS, minha gente: eram 5 internados no quarto - não estávamos num corredor, graças a Deus, era quarto limpo e com banheiro - e o único "aposento" que explodia em risos. É sério, parecia festa.

Diferente da mamãe que soluça e jura estar chorando mas sem derramar uma lágrima sequer, papai, como eu sou, era empada. Desmanchava-se fácil, chorava sem som e alarde, molhava o rosto por qualquer coisa. Papai chorava até quando inventava as piadas que nos faziam rir. Se hoje "a gente ri, a gente chora, e joga fora o que passou", é porque a lição  do pranto e do riso com o velho foi de boa serventia. Da caçamba da Rural cheia de cascas de laranja até o hospital onde faleceu, meu pai passou a vida me ensinando a rir.

Que os pais, homens de bem, honrem o privilégio de ensinar aos seus filhos os seus valores, os seus princípios. E assim, que o homem de bem perpetue em seu filho como ser um bom pai (ou boa mãe, como o meu me ensinou). E que todos perpetuem a descoberta do valor de simplesmente, ser. Ser humano de bem, que chora e que ri, todo dia, em qualquer lugar, por qualquer motivo ou sem motivo algum. Apenas porque é vida.

Comentários

  1. Excelente homenagem Regina, já conhecia algo parecido de perto do estádio que vc escreveu.
    Jorge

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