terça-feira, 23 de maio de 2017

LIBERDADE E DEMOCRACIA

Publiquei este texto originalmente em 2013. Para mim é comum reescrever alguns, atualizando o contexto, já que no Brasil tornado CorruPTópolis apenas fatos pontuais se diferem, mas a conjuntura é sempre mesma. Em tempos de gente gritando (mais nas infovias, menos nas ruas) como dona da democracia, enquanto no Brasil o poder maquiavélico, venal e incompetente insiste sempre, republico sem revisar e sem atualizar o texto. 



Liberdade e democracia não são conceitos sinônimos, mesmo sendo práticas correlatas, convergentes. A Democracia só é estabelecida, plena, madura, visível nas mínimas coisas, sob a liberdade. O que legitima a democracia é a atividade contínua das correntes, das ondas propagadas da liberdade que formam a vontade popular, da maioria, com a proteção do direito à opinião da minoria. Não se legitima o regime democrático que impõe a cassação de uma liberdade em nome de uma outra. A tirania da vontade não é democracia, é apenas tirania. Apenas é capaz de defender a liberdade quem não a proíbe a um seu adversário.

A liberdade movimenta mas não se determina pelas paixões contemporâneas, momentâneas, pelo modismo de um instante ou época. Se assim se determinasse, deixaria imediatamente de ser liberdade para tornar-se escravidão de uma só forma de pensar. Sem pluralidade, a liberdade não vinga. Por isso, perseguir uma opinião é matar o conceito da liberdade em seu nascedouro, justamente onde ele é mais fértil: no pensamento. Sem o seu conceito vivo, não é possível colocar a liberdade em prática.

Não há defesa da liberdade que seja coerente com o ódio à verdade e a dependência da razão do acerto. Ela é o direito ao erro, onde não há traço físico capaz de dividir seus limites. A civilização é que deve moderar o erro, através do conjunto de leis mas principalmente de costumes, que precisam frequentar a consciência e os atos, a educação e o ensino, o credo e as práticas religiosas, a palavra, a imprensa - principalmente a opinião. Aqui, nas opiniões, é que a liberdade concretiza-se: deve ser a luta das inteligências, a batalha épica das ideias.

Se o estado (através do governo e de seus agentes) caminha rumo ao meretrício do despotismo, são os tons da liberdade que modulam o poder: toda sociedade desenvolvida, evoluída, avançada tem na liberdade o fator limitador do poder. Daí porque a liberdade não é igualdade, nem fraternidade. Mas só dela vem a Justiça. Liberdade é a raiz sem a qual nenhum dos demais conceitos cresce, tornam-se reais e estabelecidos na sociedade.

Por não ser igualdade, a liberdade legitima o direito às diferenças, e é contra as diferenças que as ditaduras se fazem, sejam elas as de ofício ou as de pensamento. A ditadura do pensamento que suprime a liberdade da maioria, torna minoria como sendo as vozes da multidão. E em nome da liberdade, faz-se a escravidão. 

domingo, 14 de maio de 2017

MÃE. MAS É SÓ UMA PESSOA


Este texto foi publicado em 2011 e desde então republico todos os anos. 
Porque nada no país muda, apenas surgem novas tristezas, uma sobre a outra, 
sem que se assombre pelo descaso que é a causa delas. 
Desde a primeira vez, até hoje, não foi preciso escrever um texto novo, apenas atualizar as tragédias. 
Porque as mães continuam a prantear o horror de perder os seus filhos.

"São três letrinhas, todas bonitinhas, fáceis de dizer", que juntinhas, carregam um mundo de significados. A palavra MÃE é beatificada. A imagem de "ser mãe" é santificada. Do tipo que ninguém pode ousar algo diferente, como se a maternidade (parida ou não, pois mãe é quem cria) tirasse da mulher, irremediavelmente, o direito de ser humana. 

Toda mãe é pessoa. Não pedra, não folha, não casca de árvore, não vento, nem luz. Pessoa. Ética ou não, bonita ou não, tranquila ou histérica, ponderada ou histriônica. Feliz ou triste, corajosa ou assustada até com o ar que respira. E toda pessoa é tudo isso, e mais, ao mesmo tempo.

Ensinou-me uma pessoa, e já faz um bom tempo, que a perda de uma vida humana diminui-lhe a dignidade de ser um humano. Há mãe que perdeu a chance de viver a dignidade de ser humana. A mãe das tragédias chuvosas país afora, que perdeu seu filho para o barranco deslizando sob a chuva. A mãe de Santa Maria, que não viu seu filho retornar para casa porque a fumaça de um fogo irresponsável sufocou-lhe o ar dos pulmões, quando ela só queria que eles fossem cheios do sopro divino da vida. A mãe idosa que vê seu netinho morrer por falta de leito em UTI, e chora a vontade de ter ido em seu lugar porque, com tão poucos anos, talvez apenas alguns meses, sequer viveu e já se perdeu. A mãe do Santiago, que pode ter visto ao vivo o seu filho ser assassinado pelo tipo mais covarde que há - o que se esconde sob máscaras reais, e as metafóricas, de uma "causa".

A mãe do subúrbio que fez o café para sua filha sair para o trabalho, mas não pode guardar seu prato de arroz, feijão, bife e salada, à noite, porque ela foi esfaqueada num assalto no ponto do ônibus. A mãe de uma dentista que foi queimada viva por um filho menor de uma mãe que talvez nem saiba que o seu é um monstro, tutelado pelo estado que não se preocupa efetivamente nem um pouco com mães e filhos. A mãe que iria visitar a família do filho no sábado, mas antes, viu o acidente de carro que o matou, na TV. A mãe destruída pelo Monstro de Realengo, um psicopata que escolheu uma escola para ensinar que a maldade tem o olho humano, a cara humana e lhe arranca o sorriso dos lábios para sempre. A mãe de Boston, do Bataclan e da boate em Miami que, pelo terror de loucos alimentados por ódios talvez maternos (é que nem todas as mães são felizes) explodiram ou crivaram de balas um filho seu, e lhe deixaram outro eternamente ferido por ter sobrevivido. Mas que pela vida deste último e memória do primeiro, é uma mãe que precisa sobreviver. 

A mãe que tentou engravidar por 15 anos e recebeu a notícia que sua criança afogou-se na piscina da escolinha. A mãe que perdeu, ainda que permaneça vivo, o filho para o crack, porque o poder público, que deveria combater o tráfico, não o faz, relegando filhos e filhas à morte em vida, à vida na morte das drogas que assombram mães e pais todos os dias, nas ruas. A mãe do filho que bebe demais e joga seu carro contra um ponto de ônibus, cheio de mães e pais e filhos e filhas, que morrem sem que ele próprio sofra um arranhão. 

A mãe de donos das canetas, que relegam às mortes reais e metafóricas, os filhos de um país inteiro, roubado de si mesmo pela corrupção que lhes faz filhos da não-preciso-dizer-aqui, ao menos desta vez. A mãe dos legisladores que só aumentam as leis inúteis que atrasam a vida dos filhos e das mães que que sequer têm noção do quanto eles, que fingem se preocupar com o "nosso bem" são inúteis. A mãe dos julgadores, que condenam outras mães ao sofrimento por causa da covardia que gera a impunidade.

Não faltam tragédias e lágrimas para contar da mãe que hoje, nesta data, chora por este filho que lhe foi tirado pela violência do dia, da vida, da circunstância, do destino, da imprudência, do descaso. São as lágrimas da pessoa que não é santa, não é pura, não é uma ilusão. É só mãe. É uma pessoa. 

E há os filhos, que por essas mesmas razões ou outras menos anti-naturais perderam suas mães. É outra história, mas é também a sua história. Às pessoas, todas as pessoas que choram a ausência de filhos e de mães, os meus respeitos. Tears are words can't I say. E como sei, que não posso!




segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

DESTINO, O SENSO DE HUMOR MACABRO DE DEUS

Não raro, reescrevo textos. Ainda que por uma certa preguiça de procurar desculpas novas para os ciclos de sempre, aquelas desculpas envernizadas como se fossem teorias e que comumente os observadores da vida arrumam para si e para outrem, reescrevo (me) muito mais porque tenho convicção de que as pessoas, com o tempo, são capazes de mudar comportamentos de acordo com a necessidade de suas circunstâncias, mas a sua essência, essa não se altera. Um tempo depois, o que observei anteriormente ao meu redor (e dentro de mim) continua lá, mas as circunstâncias são outras. Detalhes antes despercebidos se exacerbam, ou, como defendo a seguir, o destino - o senso de humor macabro de Deus - resolve brincar de outras formas. 

O argumento do título (e no texto a seguir) foi originalmente escrito em outubro de 2011. Nele digo que somos o que fazemos para mostrar o que somos e esse "fazemos para mostrar o que somos" é justamente o que me fez lembrar deste texto, nesta manhã. Nunca deixei de achar que destino é o nome confortável que se dá ao senso de humor macabro de Deus, que brinca com nossas circunstâncias a depender do seu tédio. Reescrevo o argumento já que é uma das formas que tenho para (re) mostrar quem sou.



Certamente, com um macabro senso de humor, O Criador se passa muito bem pelo papel do que costumeiramente chamam de destino. Sempre achei que no mundo das pessoas reais, que acordam pela manhã para pagarem os seus boletos, não há espaço para mistérios metafísicos. Esses "mistérios" só sobrevivem nas teorias dos que nada têm de concreto para fazer - possivelmente os filósofos moderninhos estão nessa categoria. Pessoalmente penso que tudo na vida é questão de construção. A cada ato, uma consequência. O que para mim é realidade, para outros, no entanto, é menos doloroso denominar destino, e assim, aparentemente, alegar que não tem nada a ver com ele.

A verdade é que, quer queiramos, quer não, a nossa vida resume-se a uma sucessão de instantes passageiros aprisionados entre o "tudo" que ficou para trás e o "nada" que temos pela frente. O futuro é escuro no sentido de não haver a luz de o saber (não sombrio, apenas desconhecido). A vida dá-se no presente, e é só o presente que pode nos fazer rir ou chorar. 

Somos o que fazemos, mas somos o que fazemos para mostrar o que somos. Da mesma forma que não posso afirmar o que sentirei ou o que farei daqui por diante, posso afirmar, diante do Divino senso de humor totalmente politicamente incorreto, que quando eu sair das tempestades por Ele emprestadas, posso sair melhor ou pior. A mesma pessoa, definitivamente, é impossível. A cada tempestade do destino, uma nova circunstância. Só assim as tormentas fazem sentido. E quem sabe, assim, é possível, ao menos um pouco, compreender qual é o senso de humor de Deus, disfarçado de destino a nós catapultado.

Sempre afirmo que a natureza detesta vácuos. Ela se adapta. De alguma forma, preenche, ocupa, alarga, estende, reprime. Mas ocupa os espaços. Em se tratando do instinto de sobrevivência, é ele que fala mais alto. De alguma forma, o instinto se adapta ao destino. Mas acaso a natureza nos pareça inerte, o único remédio que temos é pensar. Continuar, ou interromper o senso de humor do destino?

Tenho orgulho do que fui e do que me tornei pelas coisas que vivi. Não posso garantir que continuarei a me orgulhar pelo que ainda serei (o futuro é escuro, não escapo de saber disso), se é que serei, e se é que seguirei. Só posso escolher entre viver assim ou morrer assim. Não posso garantir que escaparei das tempestades escritas pelo destino ou se correrei para elas. Não posso garantir que tal tempestade não irá perseguir-me por muito ou pouco tempo. Não posso garantir se voltarei a sorrir, sem ser por convenções e obrigações. Se voltarei a dormir, ou a desejar que descubra-me errada, passando a acreditar num destino metafísico. Eu (tal como você e qualquer um) só posso garantir o que já aconteceu, e garantir que o passado não pode, não deve e não precisa ser creditado - ou debitado - na conta do destino. Só na conta das pessoas que construíram ou destruíram a tal realidade, afetando as circunstâncias.

Ocasionalmente o destino põe todo o seu senso de humor para fora e brinca de fazer concessões, permitindo além dos desencontros, o encontro de circunstâncias. Para alguém singrar as mesmas águas. Para fazer parte da história, do navegar do tempo de alguém. Faz parte do seu senso de humor alterar a superfície da realidade. Já vi descreverem como "um tapa do destino", é quando dou de cara com a percepção que, na verdade, não fiz (nem sou) parte da história, e o singrar do tempo de alguém é apenas uma transição - já que o tempo passa pela inércia - até que possa aportar em outro lugar. Quando o futuro do outro não se lhe parece cheio de águas sombrias, quando não existem mais avarias no casco, a vela está cerzida, recebeu um motor novo. É nesse exato momento que chega o tempo do meu não-lugar: não sou porto, nunca fui água e nem jamais a vela - ou o motor. A circunstância prova-me que tenho sido um barranco. Nas margens da vida. 

O senso de humor macabro de Deus peleja, mas ensina. Que se você não sabe de tudo, então, na verdade, você não sabe de nada, e foi usado pelo destino para divertir o Criador em momentos de tédio. É difícil entender que você não sabe nada, e compreender que o significado disso é o tamanho de sua importância. Na mesma proporção, o mais difícil é aceitar que você sabe muito bem de tudo, então sempre saberá que você é importante, mas mesmo assim tornou-se protagonista das perdas nos barrancos do seu destino. Talvez seja então o momento de interrompê-lo, re-escrevendo o parágrafo final até que reste só o pó. Com ou sem aquele humor macabro a brincar com as suas circunstâncias.

(A photo acima tirei na vinícola Concha Y Toro, outubro/2015, em uma das circunstâncias. Naquela ocasião eu já sabia, mas havia esperança de navegar, e não de ser barranco.)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O CONTRÁRIO DO AMOR


O contrário do amor não é, como pode-se pensar à primeira vista, o ódio. Ódio é oposição à face do amor, o que estabelece a intensidade do amor, mas nunca é o seu contrário. Contrário desmente, oposição estabiliza, e lembra o que é preciso. O ciúme é o contrário do amor. Não é apenas o seu contrário, sobretudo é insano, portanto, irracional. E amor é racional (porque como tudo na vida, exceto a morte, é uma escolha). Se o que fala mais alto é o ciúme, o que existe tem outro nome, ainda que não se saiba exatamente qual, mas não pode ser amor.

Porque Amor só é, se incondicional. Ele não acontece onde existe a ânsia pelo controle sobre as decisões do outro. Amor não dá onde há exigência. Amor é vida, constrói, é luz. Faz ver a luz. Não cega. As paixões, que podem ser o início, mas também o fim de um relacionamento, é que podem cegar. Se cega, não chega a ser Amor. 

Amor é entrega, não é tomada hostil. Doa, não subtrai. Amor não pede, não invade, nem desonra, sequer desconfia. Amor se fia, e ensina. Amar, se é verbo intransitivo como imortalizou Drummond, portanto, é razão, e não falação. Amor é ação.

Amor é o reconhecer da imagem, o espelho do outro em si, e não a projeção do reflexo de si mesmo, no outro. Só existe irmanado à verdade, e como tal, é absoluto. É-se, sendo. Amor é tão raro, mas tão raro, mas tão raro, que onde está, ele tudo preenche. Logo, não há espaço para ciúmes, nem para qualquer outro sentimento. O Amor se basta. 



(Ilustrações: Pygmalion and Galatea, de Jean-Léon Gérôme)

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

DIÁLOGO DO AFETO COM A RAZÃO


(Escrevi este texto em 2011. Lembrei-me dele, há pouco, porque se há uma coisa que me afeta são demonstrações de afetos. E elas surgiram, inesperadas, no momento em que nem sequer eu sabia o quanto precisava delas. Hoje vivi uma manhã assim. Foi uma manhã de afetos que me afetam, e que me resgatam. Que me salvam de mim mesma.)

A vida humana precisa de alimento. O homem necessita não apenas de substâncias que concedem condição física, como também as que mantém o que é inerente ao espírito.  A consciência precisa dos níveis de subconsciência ativos para formá-la e moderá-la. É princípio da condição humana, senão, a criatura não passa de uma semi-besta.

Não sendo o homem essa tal semi-besta - ainda que o instinto lhe confira algumas práticas de características animalescas - ele prescinde, para fortalecer sua consciência, do uso da razão e da intuição - que eu considero ser o conjunto de afetos. Se abrir mão desse conjunto, o preço pode ser tornar-se indiferente a tudo o que razão e afeto dizem sobre si mesmo e sobre o mundo à sua volta. Quando não há tanto o uso da razão quanto do que lhe afeta, o homem perde a consciência.

Há pessoas que vivem em conflito, levando a ferro e a fogo a necessidade de negar ou o afeto ou tentar agir apenas com a razão. Há quem diga que a ação é afeto, não podendo, portanto, ser razão. Que apenas o afeto motiva (Nietzsche). Por mais que eu veja ser racional concordar com o filósofo, penso que limitar-se, privando-se de uma ou de outra força seria como um divórcio com declaração de guerra à própria percepção existencial. Os extremos tendem à loucura, tornando o homem ou amoral, frio e calculista essencialmente, ou, por outro lado, lunático. Abrir mão da razão é optar pela loucura. E fazer isso racionalmente leva a espíritos sem caráter. 

Por que não seria possível apenas reconhecer as forças de ação e de afeto como partes inerentes da nossa formação? Ao tomarmos consciência da importância de ambas, elas não passam a exercer seu peso como recursos, instrumentos a favor da vida prática? As forças, então, se equilibram, em si e por si. Não parece saudável negar a importância de uma delas, já que ambas existem no mesmo lugar, o cérebro humano.

O afeto nos conduz ao que se há de fazer, quando há de fazer.  A razão adverte a ação para o que é preciso evitar. Se completam. O afeto move-nos às descobertas. A razão, ao que as prova. O afeto é intenção, a razão é empírica. Intuição é inteligência, razão é conhecimento. As duas forças têm seu próprio tempo para serem analisadas e reconhecidas. Para tirar o máximo de nós, e das coisas do mundo que nos acontecem, devemos conhecer esses nossos recursos, aperfeiçoá-los e utilizá-los. Todos eles. 

Quando algo não parece bem é a intuição que me avisa. Quando paro, penso, analiso e encontro o meio de corrigir, aí é a minha razão que trabalha. Racionalmente, não sufoco os afetos que nunca ignoram a razão.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

ESCREVER, OFÍCIO SEVERO

"A palavra do ser humano é o material mais durável. 
Quando um poeta encarna sua sensação mais fugaz com palavras adequadas, 
ela vive nestas por milênios e volta a despertar em todo leitor sensível." 
Schopenhauer (Sobre o Ofício do Escritor)

Este é um texto escrito em 2012 que, no reboque do Dia do Escritor, republico com diversas edições, claro, em relação ao original. Porque dúvidas e certezas podem persistir ao tempo, mas as nossas circunstâncias mudam. E a nós, conforme essas.


Qualquer um que escreva é escritor ou só aquele que é editado, publicado e colocado à venda (com sucesso comercial ou não) pode ser assim nominado? Tenho como verdade que ser escritor é a única profissão em que não se é ridicularizado por não ganhar nem um centavo com ela, conforme sentenciou Jules Renard. Pode-se morrer pobre e ainda assim ter um baita orgulho da sua arte. Não é um emprego, portanto, já que escrever, ao menos no meu caso, jamais dará dinheiro algum. É um ofício severo. Mas antes, é um luxo e uma necessidade, um alento e um porto seguro. Sempre.

Fernando Pessoa disse que escrever é esquecer, e como é fácil concordar com ele! Pesa na ainda na balança do escritor genial que é, o que ele próprio disse em outro de seus mais antológicos poemas: "O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente". Incontável o número de situações em que escrever é meu recurso para esquecer da dor que veio, da que deveras há de vir. É nessa ocasião que escrever salva-me de mim mesma.

Minha formação é no magistério (Magistério mesmo, História e Letras) e apesar de nunca ter atuado profissionalmente, algum traço insistiu em mim: tenho por vício incentivar as pessoas a escrever. Há uma grande resistência contra escrever que não compreendo bem. A maioria teme a escrita. Alguns dizem: "não tenho talento". Eu respondo: como sabe, se não escreve? A resposta para mim é muito simples, simplória até. Você pensa? Afinal, para escrever "só existem duas regras: ter alguma coisa a dizer e dizê-lo" (Oscar Wilde). Todo dizer nasce no pensar. Penso, logo escrevo. E se digo "escreva", é apenas para transmutar em letras o seu pensamento. Ou o sentimento, em outra hipótese. Não raro ambos, fórmula que, por sinal, costuma render bons escritos, provavelmente os melhores.

Todo o processo da escrita precisa ser permeado de prazer e sem dúvida o prazer começa no hábito da leitura. É um ciclo, mas que não se fecha em si: lemos, escrevemos e quando descobrimos que alguém sentiu prazer ao ler o que escrevemos, sentimos mais prazer. O que escrevemos é um reflexo do que pensamos, do modo como vemos o mundo - e nos vemos nele, de como extraímos dos mundos interior e exterior, as reflexões. É a materialização da opinião que temos sobre o que somos, em essência, e da coragem em expor tudo isso. Quando escrevemos legamos ao leitor uma parte importante dessa essência, dividimo-nos, por assim dizer, com ele. 

Para escrever há que ler, sempre. Proust disse que para escrever uma boa história não é preciso inventar nada, pois o bom escritor já as tem dentro de si, basta saber traduzir. Sobre o mesmo ofício, outro gênio, Jorge Luis Borges, afirmou que "chega-se a ser grande por aquilo que se lê, não por aquilo que se escreve". Ler é fundamental! Você homenageia o escritor lendo-o, não falando sobre ele! Você se torna grande porque ler é mais generoso do que escrever. 

Viver exclusivamente da escrita, não é difícil concluir, não deve ser simples. Porque há dias em que nada vem. Eu há meses que estou nesse período em que nada vem. Ao menos nada que seja publicável neste blog, porque o que vem não anda a sobreviver ao "delete" do teclado, já que a autocrítica, esta jamais falta. Realmente, não posso afirmar que viver de escrever seria uma empreitada fácil. Nessas ocasiões de vácuo da escrita, o pensamento simplesmente se recusa a ser ordenado sistematicamente ao ponto de traduzir-se em frases compreensíveis (para outro, que não eu própria).

No fundo percebo que aquilo que chamam "bloqueio" não passa disso: o meu pensamento se recusa a ver-se dividido, espalhado, desnudado, à mercê do julgamento dos outros. Tenho estado exatamente assim. E é frustrante você desejar ter aquelas letras interessantes para dividir, ao menos com algumas pessoas, e simplesmente o seu pensamento ordenar o silêncio. Dedos mudos que obedecem sem oferecer grande resistência, é bem verdade. 

Quando o pensamento em silêncio é mais poderoso, apenas o que me resta a fazer é me calar. E torcer para que outros escrevam o que não sou capaz de falar.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

NATAL NAS TELAS DA MEMÓRIA

O texto abaixo é da querida Mirtes Guimarães e foi publicado neste blog em 2011. Republicá-lo é retratar o Natal na Memória duas vezes. Mirtes sempre foi uma colaboradora genial, cronista de primeira, que retratava o cotidiano como pouca gente é capaz. Na memória deste Natal de 2015, além dos seus preciosos textos, está a amizade que remonta mais de uma década, cuja saudade já é presente todos os dias. 



NATAL EM TODAS AS TELAS

Meus Natais sempre tiveram algo de misterioso. E a razão é simples: sem parente algum no Rio, as festas de fim-de-ano sempre eram passadas na casa de alguma tia em São Paulo. E, sabe-se lá porque, nunca era onde eu me hospedava. Assim, a surpresa era sempre garantida. Nunca sabia em que casa iluminada eu iria parar. Sim, justiça seja feita, os paulistas sempre se esmeraram em enfeites natalinos muito antes do pisca-pisca virar moda. Mas, o mistério maior era: será que Papai Noel saberia em que casa eu iria estar? E isto trazia outra pergunta importantíssima: Iria Papai-Noel deixar o presente na casa que eu estivesse à meia-noite, na casa onde eu estava hospedada, ou na minha no Rio? Mineiramente, deixava um par de sapatos próximo à árvore de cada local...

Talvez tenha sido o fato de nunca ter passado Natal em minha casa que fez com que eu sempre tivesse gostado mais da energia natalina do que da festa propriamente dita. Traduzindo, eu gostava de entrar na casa já arrumada para festa, e ouvir zum-zum-zum alegre, admirar as árvores enormes com embrulhos lindos dos presentes, salivar pelas comidas coloridas em cima de mesas idem. Segundos depois desta primeira olhada, o resmungo de um tio, ou a ordem mal-humorada de um adulto destruía a beleza. E lá iam as crianças, expulsas da sala, rumo ao jardim dos fundos... Nova emoção só bem mais tarde, ou talvez no outro dia quando da abertura do presente.

E esta não participação nos preparativos do Natal fazia com que ele fosse para mim realmente a festa de aniversário de alguém. Aquela a que você vai, mas, não se sente parte intrínseca dela. E talvez esta sensação de voyerismo seja o motivo de eu simplesmente a-do-rar alguns filmes de Natal. Sim, confesso que todo ano assisto a pelo menos quatro dos meus oito ou nove preferidos. E, sim, em alguns choro como norte-coreano em enterro de ditador...

Agora, atire a primeira bola vermelha aquele que não sentiu nem um nozinho na garganta, quando o padre britânico começa a tocar uma gaita de fole em pleno front da Primeira Guerra Mundial os soldados francesas o acompanham em uma gaita comum e de repente os alemães emendam um “Noite Feliz”. A cena de franceses, ingleses e alemães saindo das trincheiras e cumprimentando uns ao outros no “Feliz Natal” é uma das mais belas do cinema. E fica ainda mais emocionante quando se sabe que foi baseada em fato real.



Mais lágrimas misturadas ao champanhe na redescoberta da importância de cada um, enfatizada em “A Felicidade não se Compra”. 


E como não se emocionar com os soldados que voltam da Segunda Guerra e acabam ajudando um ex-comandante com problemas financeiros por conta de uma pousada quase falida? Bing Crosby cantando Natal Branco derruba qualquer um que jura não chorar em filme.



E o que falar da doçura da menina que vai ajudar a Papai Noel se defender em pleno julgamento em que ele é acusado de ser impostor, pois Santa Claus não existe, tema do “Milagre da Rua 34”? Ou a bonacheirice em forma desenho de Tom Hanks em “O expresso polar”? 


Agora, não se pode escrever doçura e fofura em relação a filme natalino sem citar as de Hugh Grant em Simplesmente Amor. Comédia, ironia e sentimentalismo em doses exatas, se não fosse o tal filme britânico. Da até para quase suportar o “Love is in the air".


Ainda no “momento fofo”, que tal o Macaulay Culkin e a companhia de balé de Nova Iorque nos levar de volta à infância com o sempre belo e tocante Quebra-nozes”? Comédia, drama, musical, desenho, o Natal pode ter várias formas e certamente ele tem a sua também. Basta querer encontrá-la. Afinal, até o Tim Burton, com seu jeito peculiar de filmar, nos deu de presente o seu Estranho Mundo de Jack, em que o “herói” cansado do Halloween sonhava com Papai Noel.


(Agora, pra não sair do clima da Mirtes, mas sem acrescentar mais um filme "de Natal", vai abaixo uma cena que gosto muito, e que diz tudo sobre encontros que parecem impossíveis (menos para a música). É para quem, como eu, se sabe desencontrado das festas de fim de ano, nos finais de ano. Beijos para todos, e que sejam os dias que virão com as festas, de muitos encontros incríveis pra vocês.)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

DEUS E O DIABO NO HORIZONTE DE EDUARDO CUNHA


Se Luiz Inácio Lula da Silva, por obra e graça do genial Lula Inflado, foi o protagonista absoluto do início da semana, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, é a persona do seu encerramento, nesses dias em que a coisa está tão ruim, mas tão ruim para Dilma Rousseff que ela sequer conseguiu ser personagem principal da própria ópera bufa, mesmo sendo o alvo de dois protestos em 4 dias: o da multidão contra, e o da multidinha "a favor".

Este blog não vai entrar nas muitas teorias da conspiração em voga. Nem as criadas por Cunha, e que são levadas a ferro e fogo como verdade absoluta pelas redes sociais, tampouco as mais estapafúrdias ainda, criadas pelo PT. Porque ainda que não fossem apenas teorias com objetivos particulares, elas tratam das "causas" para a denúncia contra Eduardo Cunha (e este é o maior absurdo delas). Portanto, ainda não teriam importância para as consequências reais que chegarão com a denúncia do Procurador Geral da República sobre a participação de Eduardo Cunha no escândalo do Petrolão. Este texto fala é delas, das consequências.

Seja quem toma partido de Eduardo Cunha com aquela paixão que ídolos causam, ou quem é capaz de avaliá-lo fora de qualquer emoção, com a frieza necessária para compreensão do momento, ninguém pode discordar de um fato: a denúncia em si já foi capaz de provocar rombo na República Tupiniquim. Ninguém pode afirmar com 100% de acerto o que ocorrerá. Mas pode prever que o fogo está com muita gasolina para ser alimentado. Do outro lado dessa mesma questão está o que parece ser um dos pontos de discórdia, mesmo entre os que fazem parte do mesmo grupo de "oposição" ao governo Dilma: que a denúncia seja capaz de causar um rombo no estoque de poder do presidente da Câmara. 

Alguns aventam, mas aqui entre nós, eu não vislumbro nenhuma possibilidade de que Cunha deixe o comando da Câmara. Nem por si próprio, nem por pressão de qualquer grupo de parlamentares, tampouco porque setores da imprensa pregam que sim, ele poderá deixar o comando daquela Casa Legislativa, em razão da denúncia (que sequer virou processo, ainda). Mas é evidente que a "Conjuntura Lava Jato", digamos assim, não é um cenário nem parecido com a de outros similares casos de descoberta de esquemas de corrupção. Dessa vez é diferente. Mesmo permanecendo na presidência e mantendo o discurso esperado de que recebeu com tranquilidade, elaborado com as devidas frases feitas de praxe, é imaturo, irresponsável e temerário que se aposte que o peemedebista não teve, já, os pilares da sua força abalados. 

As acusações contra ele são bastante graves e, à primeira vista, estão amparadas por evidências bastante consistentes. O próprio histórico de denúncias do MPF na Lava Jato é prova (lembre-se, não é Moro, o juiz das sentenças rápidas e corajosas, quem denuncia os crimes do Petrolão, é o Ministério Público Federal, que inclusive é o coordenador da Força-Tarefa). Esse histórico referenda que esta e outras denúncias contra políticos que ainda estão por vir, possuem consistência. Evidente que denúncia não é condenação, sequer processo (no caso de Cunha). E mesmo uma investigação não é sinônimo de condenação. Muitas inocentam o investigado, e é bom que seja assim, pois todos estamos sujeitos a uma acusação infame ou equivocada, convenhamos. 

Não obstante, mesmo com embasamento na denúncia, e na hipótese de autorização do STF para abertura da investigação, uma saída de Eduardo Cunha não seria de imediato, e tem fatos de sobra que referendam isso. Tome-se uma denúncia do PGR contra Renan Calheiros, ocorrida em 2013, igualmente consistente e duríssima, e que até hoje não teve nem entrada no STF. Outro exemplo pra corroborar que Cunha não "larga o osso" tão cedo é o recente arquivamento, já no STF, de um processo contra Jader Barbalho, caducado por idade. No STF o tempo não é contado em minutos de 60 segundas, e as coisas não andam como na Primeira Instância da Justiça Federal, em Curitiba, sob a batuta firme de Sérgio Moro.

Por outro lado, Eduardo Cunha mostra disposição, ao menos passa isso via imprensa, de brigar com afinco para evitar que perca o assento principal na Mesa Diretora. A probabilidade de renúncia é mínima, repito. Somente sairia por imposição legal, destituído pela maioria absoluta de seus colegas ou por uma condenação definitiva pelo Supremo, e aqui estão os caminhos que são efetivamente demorados - mas a via do Supremo é muito mais. Cunha não perderia o mandato nesta Legislatura. Não daria tempo.

Se é praticamente certo que ficará na cadeira de presidente da Câmara, por outro lado Cunha perde um bom grau da "moral", da capacidade para a ação política. Ninguém pode afirmar como ele se manterá psicologicamente, pois não foi visto numa situação de pressão tão grande como a de agora. O Cunha que pareceu herói para tantos, surfando nas votações da Câmara com maiorias potencialmente preexistentes, mas não organizadas; aquele que articulou uma reforma política, a redução da maioridade penal, a PEC da Bengala, quem pode afirmar que ainda exista, e, mais que isso, que resistirá? Que ele tem a faca e o queijo na mão para manter o Executivo Federal sob pressão, é inegável. Que conseguirá mandar na própria mão é uma possibilidade, mas que não pode ser afirmada categoricamente nem por ele mesmo, diante do espelho.

Tecnicamente Eduardo Cunha tem todas as prerrogativas para iniciar o processo de impeachment contra Dilma, mas estrategicamente, após ser tão avariado pela acusação de Janot, nem ele sabe ainda se é o melhor a fazer. Se não iniciou o impeachment antes, porque, competente conhecedor dos meandros da Casa que preside, Cunha sabe da impossibilidade (atualmente) de o resultado ser favorável aos que desejam o afastamento de Dilma, se iniciar agora, após a denúncia, o processo de impeachment não avançará. Não tem nada a ver com uma ação ou omissão da oposição, neste caso, é bom que se registre. Qualquer um com experiência nos bastidores de Brasília sabe que investir no impeachment via Cunha, agora, tem mais chance de dar errado do que sem ele. E ele, repito a aposta, não sairá da presidência. 

O maior risco para  Dilma e o PT, não é o de que Cunha, encurralado, acione a partida do processo de impeachment. O potencial estrago que Eduardo Cunha tende a causar é outro, e é muito grande. Mais uma vez quem o defende com paixão ou quem analisa-o friamente (gostando ou não dele, não faz diferença), convergirá nesse ponto: Cunha não vai cair, seja lá quanto tempo isso leve, sem carregar consigo uma penca de gente graúda do campo governista. O PMDB é base aliada do governo desde Lula, tem a vice-presidência dos dois mandatos de Dilma, diretorias e subsidiárias da Petrobrás. Mais que potencialmente derrubar consigo alguns petistas, Cunha tem nas mãos os destinos de muitos peemedebistas. E muitos que se tornaram seus desafetos. Para não ficar sem ilustração, Renan Calheiros, no mínimo, e até Michel Temer, apesar de os tais setores da imprensa não admitirem claramente tais desafetos.

Eduardo Cunha certamente sabe de muita coisa sobre muita gente. Não acima da sua cabeça - como Dilma e Lula, por exemplo. Não mais do que a percepção de quem está do lado de dentro do esquema sabe, quero dizer. E para derrubar precisa mais que percepção, precisa acumular provas. O presidente da Câmara não fará delação premiada, evidente, se nem processo há. Também não se espere - sim, é o que todos desejam ardentemente - que ele dê entrevistas com declarações bombásticas como um novo Roberto Jefferson. Este não é Cunha. Seu poder sobreviverá apenas pelo que ele puder controlar, e ele só pode controlar o que ele não dividir, mas usar para pressionar quem lhe interessa. Longe de "bombas" sensacionais, Eduardo Cunha continuará a municiar a imprensa com informações que sejam comprometedoras a respeito de antigos e novos adversários. Sejam elas verdadeiras, ou não. 

Entenderam? Se Eduardo Cunha "escancarar", não poderá controlar as informações e contra-informações que repassa, e que são do seu interesse. Uma vez dita, a verdade, se inventada, sai do controle de quem a criou e pode tanto se manter como uma verdade (sob outro dono), ou se revelar como mentira completa. É um risco que ninguém na posição - e com o talento de Cunha - correria. A verdade é de Deus. Mas é do diabo a função de não entregar a ninguém a chance de se reconhecer a verdade, mesmo se ela não for uma grande mentira.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

DIÁLOGO SOBRE A AMIZADE


Marcus Tullius Cicero, advogado, político, orador e filósofo romano, morto no ano 43 A.C. (curiosamente, o único período em que dedicou-se à filosofia foi o mesmo em que esteve impedido de exercer a política), escreveu uma série de textos cujo tema é amizade, e onde ele defendia, dentre outras ideias, que só se pode falar de amizade para um amigo. O título deste texto foi emprestado da obra que reúne esses escritos.

Pois bem, se apenas é possível falar de amizade para um amigo, parece que quem se sente solitário, fala de solidão, o apaixonado sobre paixão - ou amor, ou o equivalente, que seja - notadamente principalmente quando esta chega ao fim. Seria possível apenas que o depressivo falasse sobre morte, o contente sobre felicidade, e por aí afora, sempre para seus pares. Alguns desses sentimentos, e outros também, podem mesmo render melhores reflexões quando aquele que escreve sobre eles os vive intensamente, mesmo não sendo uma regra excludente.

Da gama enorme de abstratos que existem classificados como sentimentos, os afetos, cabem quantos deles na amizade? Quase todos, creio. Então, amigos certamente não apenas falam uns para os outros, como também vivem experiências diversas sob a influência de diversos afetos inerentes à natureza humana. Inclusive os episódios de tristeza, dor, depressão, raiva, angústia, impotência, desamparo, desalento. A vivência sincera habilita nos amigos a possibilidade de falar sobre qualquer sentimento, de qualquer natureza, a qualquer tempo, uns com os outros.

Amigos de longa data costumam viver várias histórias juntos ou separados, mas de forma que um sempre saiba das do outro, sabendo um do outro. Grandes amigos se desentendem, também. Há pessoas que manifestam ciúmes de amigos que nem de seus amores chegam a sentir. Distância e tempo interferem, e tanto esfriam a amizade como podem torná-la firme mesmo se o contato é restrito. É quando a lembrança, a memória do afeto, é uma grata felicidade, e é lisonjeiro saber-se protagonista de uma amizade assim. 

A tal vida em sociedade favorece a reunião de pessoas. No entanto, a união entre duas ou mais depende da oportunidade e capacidade de reconhecer entre aquelas pessoas do grupo, o diferencial que fará com que, de reunião de vários, passe à união dos semelhantes. Os valores de bem que os seres compartilham é o que dá conexão à amizade: é a conjunção da índole e dos costumes de cada um, que os atrai. É preciso um pouco de sorte para que tudo conspire a favor desses encontros. As pessoas não nascem, mas bem que poderiam nascer, com um ímã que fizesse com que os semelhantes se encontrassem inexoravelmente. É preciso, mesmo, contar com a sorte. O que principia a formação de uma amizade é fruto da natureza, não da necessidade. 

Para consolidar a amizade, os valores virtuosos é que engendram-se e as mantém. Com um amigo há a certeza de que se é tão livre para falar sobre tudo e qualquer coisa, como se estivesse falando consigo mesmo, totalmente sozinho e em silêncio. Com um amigo que assim procede, o outro sofre suas dores ou alegra-se em sua felicidade: é a amizade que torna as adversidades suportáveis, naqueles piores momentos, e torna mais abundante a alegria, nos momentos bons.

A amizade concebe as esperanças, não deixa acovardar os ânimos. A amizade concilia, e aplica na alma o sentido de amar. E esse último, dizem, é o maior de todos os sentimentos.

Publicado originalmente em 23/04/11

quinta-feira, 21 de maio de 2015

BRASIL E CHINA: BOM NEGÓCIO OU ARMADILHA?


A urbanização da China, o êxodo em massa da população rural para as cidades, é uma das causas - e consequências - da aceleração constante da economia chinesa: um crescimento médio anual de impressionantes 10% nos últimos 25 anos. Esse crescimento da China se deve a alguns fatores. O primeiro é a alta taxa de poupança e investimento. Como exemplo, em 2013 a taxa de investimento da China foi de 48% do PIB - a do Brasil foi de 18%. Outro fator é a busca da produtividade através da educação, ciência e tecnologia. E é nessa busca de produtividade - com tecnologia - que está a grande questão da parceria Brasil-China, que, até o momento, vem beneficiando a nossa economia.

Em 2014 o PIB da Dilma fechou em vexaminosos 0,1%. Em 2013 foi de pouco mais de 2%. Pois bem, o que não é muito falado pelo governo é independente do índice acima de zero, a verdade é que o Brasil por si não cresce. Os índices do PIB vem por inércia do consumo chinês, que importou 47 bilhões do Brasil em 2013, o que dá o 1% do PIB. Não fosse China, o PIB/Dilma de 2013 já seria só de 1%. Nossa economia, herança maldita de Mantega e Lula, é praticamente 100% dependente do consumo chinês, que importa nossas commodities, principalmente minério de ferro e as agrícolas. Voltamos aqui à questão produção e tecnologia.

Essa grande urbanização da China com a industrialização e superpopulação em metrópoles tornou o país dependente da importação de alimentos. Mas o capitalismo da China comunista de bobo não tem nada. Através da parceria com investidores europeus, chineses compram grandes áreas na África. Grandes fazendas que, pretendem, passem a produzir a própria comida, o suficiente para que cada vez mais importem menos. Agora veja o dilema: o Brasil é parceiro da China também na transferência de tecnologia de produção de alimentos. Veja um exemplo prático que envolve de uma vez só as commodities - as duas - que a China importa do Brasil:

A Vale do Rio Doce (com Bradesco, BNDES, Tata, etc) tem um projeto de mineração de carvão no coração da Africa. Para viabilizar a logística de escoamento do carvão, a empresa (leia-se o BNDES) está investindo numa ferrovia que liga a mina ao porto de Nacala, em Moçambique. Recentemente a Vale vendeu o controle acionário da ferrovia à Mitsui, do Japão. A agência de cooperação internacional do Japão (JICA) tem projetos na região. O porto de Nacala fica na boca da China, Oriente Médio e Japão, sendo os três boa parte do nosso mercado também de commodities agrícolas. A ferrovia atravessa a região conhecida como Corredor de Nacala, zona de savana, que é semelhante às nossas áreas de produção agrícola no Centro-Oeste, o cerrado.

Enquanto isso, no bojo daquele negócio de cooperação sul-sul do Marco Aurélio Garcia e Cia. Ltda, a Embrapa foi posta em Moçambique para adaptar a nossa tecnologia de agricultura tropical ao cerrado africano. Nós estamos financiando por um lado a logística, e por outro, a pesquisa agropecuária que vai criar um concorrente para a nossa própria produção agrícola no futuro. A China. Que detém, relembrando, grandes fazendas na África, com investidores europeus - outro grande mercado consumidor atraente para o Brasil. A China é um concorrente inclusive geograficamente muito melhor posicionado para atender os mercados do Oriente do que nós. A África, melhor posicionada geograficamente para atender a Europa.

A projeção do próprio Banco Central do governo Dilma para o crescimento da economia brasileira para este ano de 2015 é de - 1%. Negativo, isso mesmo. Mas a parceria do governo com a China ainda envolve ela, a Petrobras. Dilma privatizou o Campo de Libra em 2013 e quem comprou? Eles, os chineses. Em tempos de Petrolão, o negócio da China é uma armadilha?

quarta-feira, 6 de maio de 2015

LULA E O PANELAÇO: O PT METAFORICAMENTE MORTO

Este texto foi publicado originalmente em 27 de agosto de 2014. Trata da rejeição ao Lula. Sim, é isso mesmo, rejeição ao pop star do PT. Não editei nem uma vírgula do original, exceto o título. O original era "Dilma paga o preço da rejeição a Lula". Publicar novamente tem duas razões, ligadas umbilicalmente ao sucesso literalmente estrondoso do panelaço da noite de ontem, 05 de maio, durante o Programa do Lula, ops, do PT, na TV. A primeira é mostrar que, fora dos grupos de esquerda que fazem oposição ao governo Dilma (mas não ao Lula nem ao PT) a rejeição não é só contra Dilma. Nós, a opinião livre dos sem-partido, rejeitamos explicita e claramente tudo o que o PT representa, e Dilma é uma pequena parte cuja rejeição tem seus próprios méritos: a incompetência e a ingerência do seu governo. 

A outra razão é afirmar, sem medo de errar, que,  para a  "surpresa" demonstrada ontem a noite e hoje nos jornais, da rejeição popular manifestada em panelaço ter atingido o querido Lula, o colunismo de "especialistas políticos" na imprensa tupiniquim só tem duas justificativas: ou sempre soube e omitiu propositalmente do eleitor durante a campanha presidencial ano passado, e agora finge surpresa para esconder a covardia pregressa, ou são todos muito desinformados. E se o são, são incompetentes. Porque um dos meus mantras mais repetidos é, se eu que não sou ninguém e não vivo de ter boas informações para publicar verdades (não sou jornalista nem atuo como) eles, que ganham muito bem pra formar a opinião pública tem obrigação de saber mais do que eu. E de publicar, em nome da isenção que defendem (e eu sou contra).

Modéstia à parte que nunca tive alguma, quem me lê já sabia que o PT está metaforicamente morto há algum tempo.



Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente em atividade no Brasil é um sujeito movido pelo ódio. Não aquele ódio que liberta, o motor para se reagir ao que é ruim e mudar o estado de coisas. O ódio de Lula é rancoroso, despeitado e muito, muito soberbo. Na intimidade sempre exalou essa característica, usando e abusando de seus companheiros como quem chupa laranja e joga o bagaço fora. O mensalão caracteriza isso muito bem. José Genoino, que vamos combinar, sempre foi consigo próprio cioso de questões de honra e moral, tão logo se tornou presidente do PT se viu obrigado a atender todas as demandas de Lula e seu círculo íntimo. Assinou aqui e ali e não deu outra: criminoso condenado, puxou cadeia, está em prisão domiciliar e ganhou um "está fodido" de Lula quando foi noticiada a expedição do seu mandado de prisão. 

No Congresso, entre deputados e senadores, não são raros os que comentam seu modo tacanho de agir. Quando presidente da Câmara, o deputado Arlindo Chinaglia foi um dos poucos que conseguiram não perder o controle do cargo, não ser usado pelo líder maior do seu partido e sobreviveu bem. João Paulo Cunha não conseguiu, e também é hoje um ilustre presidiário. A bancada petista conhece seu guia.

Do chão pelego das fábricas até as luzes da ribalta presidencial, Lula percorreu um caminho que, em público, precisou de Duda Mendonça, o gênio, polir o jeito e domar o discurso criando o Lulinha Paz e Amor. O resultado foi a vitória eleitoral repetida até 2010 fazendo sua sucessora, Dilma Rousseff, ainda com o verniz comportamental sobre si. Essa era chegou ao fim há cerca de um ano. E é neste 2014 de eleição presidencial com a sua candidata muito mal avaliada que volta o velho Lula pré-Duda. É com o risco de ter a sua gestão exposta à toda sorte de transparências - Aécio Neves já garantiu, por exemplo, abrir a caixa preta dos empréstimos sigilosos do BNDES desde 2003 - e obviamente sabedor que a ruína da economia é a sua herança maldita além da corrupção, o Lulinha Ódio e Terror volta a atacar. Com todo o furor que consegue.

Lula surge nos programas de Dilma com olhos injetados, expressões retorcidas e voz de tumba. Bufando. Uma das razões é que ele queria, sim, ser candidato no lugar de Dilma. Demorou demais, a rejeição ao PT - não apenas ao governo Dilma - tomou corpo e Lula percebeu, esperta e malandramente, que é melhor perder Dilma que perder ele próprio. O rancor é com Dilma também, que não lhe foi, digamos, serviçal o suficiente para lhe dar a cadeira de candidato lá no ano passado, desistindo de concorrer quando a coisa começou a ficar ruim junto ao eleitor. Lula está na TV Dilma com ódio do eleitor que não quer mais o modelo que ele representa, de populismo, incompetência e corrupção. Lula destila rancor sobre a imprensa, a minoria da imprensa no Brasil que não se ajoelha aos mandos do Palácio do Planalto ou do Diretório Nacional do PT, e acaba publicando aqui e acolá verdades sobre tudo que cerca a era petista no governo. Lula está com raiva de ter escondido seu ódio para engambelar a população por mais de 10 anos. 

Todos os programas eleitorais são avaliados por pesquisas, ao vivo. Há duas técnicas mais utilizadas pelas campanhas para isso. Focus group, que é a observação das reações de um grupo representativo de eleitores que discutem sob moderação de um profissional, enquanto assistem os programas. Há também as pesquisas feitas por telefone, o já bem conhecido tracking. Os entrevistados que assistiram os programas respondem a um rápido questionário, avaliando-os. Pois bem, o dado que surge dessas medições é uma absoluta rejeição do eleitor à presença raivosa de Lula no programa da sua pupila-poste. Quando Lula aparece discursando venenos, exsudando ira e rancor, despenca a aprovação do pesquisado em relação ao programa  de TV de Dilma. 

Lá nas hostes vermelhas, não sabem o que fazer. Porque Lula não abre mão de continuar gravando, não abre mão de falar o que quer e como quer. Ninguém tem coragem de tirá-lo do estúdio e ele, finalmente, atrapalha muito mais do que ajuda Dilma. 

Não foi a toa que Dilma não citou Lula no debate da Band desta terça-feira, dia 26. Não foi apenas para dissociar de si mesma a imagem de poste dele, mas também para dissociar do ódio dele, ela que já não prima pela simpatia em situação alguma. Cumpre ressaltar que a única vez que Lula foi lembrado e com a devida genuflexão apaixonadamente elogiosa foi pela boca da "nova política" Marina Silva, que o tem como a divindade que não apenas a inspira, mas que ela se espelha. É a sua imagem e semelhança, feita do mesmo barro que o petista.

Esse ódio introjetado nos seus olhos, tão grande que transfere um profundo mal estar aos voluntários nos grupos de pesquisa, é espontâneo, natural, é o Lula em essência. Não se pode dizer que Lula faz tudo isso de propósito para tirar a "vaga" de Dilma e atender ao #VoltaLula, alimentado por seu séquito mais submisso, concorrendo novamente à presidência. Este é o cenário que eu defendo há tempos, gostaria muito que Lula viesse para o debate. Seria ótimo para o amadurecimento da democracia e pedagógico para o eleitor, vê-lo confrontado com a sua própria herança maldita, deixando as barras do escudo de Dilma Rousseff, que precisa responder por Pasadena, pelo mensalão e pela desastrosa economia de Guido Mantega em seu lugar. Não se trata mais de rejeição à Dilma. O PT está tão mal visto que nem mais como partido ligado à corrupção é lembrado. Hoje, petistas são associados a bandidos. Ninguém escapa. Lula está metaforicamente morto*.

Não sei, ninguém sabe ainda quem governará o Brasil a partir de 01 de janeiro de 2015. Mas eu sei quem não governará. Não será o PT que continuará na Presidência. O PT está metaforicamente morto. 

*#MetaforicamenteMorto é uma expressão cunhada por Nariz Gelado no Twitter, na madrugada desta quarta, 27, quando contei-lhe este fato que narrei acima.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

DILMA E A VERSÃO DA CARTA AOS BRASILEIROS




Dilma copia Lula e lança sua versão da Carta aos Brasileiros. leia abaixo.

"Comprimento minhas amigas brasileiras. Comprimento meus amigos brasileiros.

Eu resolvi escreve uma carta a oceis. E porque resolvi escrevê uma carta?  É que porque, no que se refere a economia Levy tá cuidando, não aceita meus palpites e toda hora me dá bronca pela imprensa, o Lula tá cuidando da política e também tá bravo comigo e ainda colocou o Temer pra ser meu coordenadô que vocês gostaram, que eu sei mas não é um sujeito oculto é um vulto oculto no Palácio muito importante nesse momento. No que se refere ao Senado o Renan manda no senado e o Cunha na Câmara Federal e Congresso, então eu fiquei meio sem ter o que fazer. E por que fiquei meio sem o que fazê? Porque não quis lavar as janelas do palácio do planalto que foi o que sobrô pra fazê. Então eu tava aqui pensando no que se refere a ser presidenta, e uma presidenta tem de falar com o povo. E como se deve falar com o povo? 

Ora, a gente fala com o povo com a voz, mas como o brasileiro é um povo muito alegre e festivo ele costuma batucar quando está feliz, e toda vez que eu vô fala eles tão treinando percussão nas panelas porque o brasileiro é muito criativo no que se refere a música. Como eu num queria atrapalhá o ensaio eu resolvi escreve uma carta. Eu queria mostra minha felicidade porque fiquei sabendo que os brasileiros tão comprano menos nos supermercados. E porque estão comprando menos? Porque o brasileiro, solidário, quer me acompanhar em meu regime e não porque as coisa estão cara como estão falando a esses pessimista que não pode ver que eu tirei um monte de gente da miséria, diz até que é uns trinta e cinco milhões.

Também queria pergunta como oceis tão, se tá tudo bem com a família e com o bolsa família, e oceis pode vê que eu também sei fazê piada. Quando eu tava bem no que se refere a popularidade todo meus assessor riam das minha piada, mesmo quando nem era piada, mas agora ninguém nem liga, só a empregada do planalto que eu mandei lavar os vidro e ela riu muito.

Também queria muito que oceis não acreditassem nas coisa que falam da Petrobrás por conta de todo esse barulho d imprensa. Todo mundo que robô eu mandei prende, e porque mandei prende? Porque no que se refere a honestidade eu posso afirmar que sou tão onesta quanto qualquer petistas que é um partido de gente onesta e trabalhadora que tirou mais de trinta e cinco milhões da miséria por conta dos programas sociais.

Eu também quei fala com ocê mulhe, porque no que se refere a mulhe, eu como todo brasileiro gosto muito porque e acho que a muié é um exemplo. Como eu disse já uma vez a muié brasileira é boa de negocio. Ela abre o seu negócio, tem os filhos com seu negócio, sustenta a família com seu negocio, tudo isso abrindo seu negocio.

Eu queria dexá aqui noceis um abraço brasileiros, e dizê que no que se refere a mandar no país, eu gosto muito. A hidrologia do brasileiro é um povo pacífico e que não briga no que se refere a política e sei que esse 68% que querem meu impeachment são uma minoria.
Obrigado e um abraço de mim proceis."

Dilma Roussef
presidenta


Denilson Cicote é o Denis Cote, que escreve sobre humor e política na medida certa e "às vezes na medida errada, já que o homem é a medida de todas as coisas".

quarta-feira, 8 de abril de 2015

FUSÃO PTB-DEM: COLOCANDO SPOILLERS NOS IS.


A fusão do Democratas com os getulistas do PTB é tão absurda para nós, os comuns, quanto lógica do ponto de vista dos seus arquitetos, e os há. Na guerra política, como em qualquer outra, há tática e estratégia. Tática vence alguma batalha mas é a estratégia que vence a guerra, e se você não entende isso e não faz isso, já perdeu a guerra, nem entre nela. Ocorre que as táticas são mais mostradas, por ingenuidade ou inexperiência, e também ainda que não o sejam, são as percebidas pelos observadores menos atentos, pois são óbvias. As estratégias, sempre que bem planejadas e executadas com inteligência, são mais difíceis de serem notadas.

Ensinou bem Nelson Rodrigues que futebol e política não se fazem com boas intenções e talvez daí venha a mais perfeita combinação para produção de analogias de um para a outra. Nada explica popularmente bem a política como o futebol e o contrário também. Considerando que Executivas são os cartolas; parlamentares e outros com cargo eletivo são os jogadores; militâncias são as torcidas uniformizadas, facções financiadas pelos cartolas que também entre si disputam espaço; simpatizantes são a arquibancada. Pronto, está desenhado o esquema da analogia. E da guerra.

A absorção do DEM pelo PTB (já que o segundo manteria a sigla em detrimento do nome do partido de Ronaldo Caiado) não é uma operação interna dos dois times ou exclusiva dos seus cartolas. É um fragmento de uma estratégia que começou com Kassab/PSD, que, a princípio tinha um determinado objetivo, mas que Luiz Inácio percebeu a chance e bem operou, usando e manipulando a seu favor: o fim do DEM, obsessão pessoal do raivoso e rancoroso Lula da Silva, desde que prometeu extirpá-lo da vida política tupiniquim ao desferir seus ódios contra um dos maiores expoentes do então PFL, pai do DEM, Jorge Bornhausen.  

É que em campo poucos cabeças-de-área são habilidosos e inteligentes como o Kassab, um gênio da categoria nessa posição. A maioria, se não truculenta, não sabe subir ao ataque, não dá passes com domínio da bola e do espaço  e  compromete o jogo antes da hora, estragando a estratégia. O PTB (sem Jefferson) não tem jogadores tão hábeis como Kassab e um deles,  o deputado de Goiás Jovair Arantes,  em entrevista a uma rádio de seu estado nesta quarta, 8, contou que a bancada do partido rejeitou aceitar o DEM numa fusão  “por ora”. A Executiva, reafirma o deputado, é a favor da fusão, apenas os deputados ficaram contra, e isso não significa que não haverá mais. Apenas que estão suspensas as conversas sobre o assunto.  Pois o “por ora” do Jovair entrega o estratagema, é a canelada de um volante inábil, que passa despercebida pelas torcidas mas não para o espectador que conhece o jogo e não tem paixão por uma das camisas em campo.

Pragmaticamente, na conjuntura atual, a fusão vai além daquele ódio de Lula contra o Alemão. Tem a ver ainda com o ex-presidente petista sim, mas também com o enfraquecimento não apenas do partido (o DEM já foi desmoralizado pelo simples fato de ACEITAR a fusão NEGADA pelo PTB, uma humilhação estratosférica) mas diretamente tenta frear o ímpeto de líderes do DEM como o senador Caiado, que atua pró-CPI do BNDES. Ah, sim, tem a ver com o poder que o dinheiro confere à política. Tem a ver com o financiamento enviesado de políticos torpes através das concessões maternas do BNDES. É estratégia, não é tática. É um campeonato amplo, não uma disputa paroquial.


Não se trata, portanto, da simples adesão de democratas (exceto 3 ou 4 firmes na posição contrária como Onyx e Caiado) ao governo Dilma em si, já que o PTB é da base governista, dela nunca saiu, nem depois do abrir a boca de Roberto Jefferson no Mensalão. Esse “por ora” indica que mais conversas precisarão ter com Luiz Inácio, porque eles não são tolos. Sabem que o governo Dilma naufraga e não entrarão – ou dividirão o que resta do butim – com o barco todo furado. É de futuro que falam, é de 2016 com vistas a 2018. É de ocupar o lugar do PMDB fortalecidos pra disputar com o Kassab o lugar da vice-presidência na candidatura Lula. Voltarão a discutir em setembro, é esse o “por ora”. Antes, portanto, do prazo final, outubro, 1 ano antes das municipais, para definições de filiação. Não é por Dilma, que não tem legitimidade nem política nem popular, apesar de ter a legitimidade eleitoral, para seguir governando. Trata-se de Lula, de CPI do BNDES e de 2018. E durmam com isso, porque tem algo que não sabermos (por enquanto): quem (e o quê) está ganhando com isso dentro dos dois partidos.

Os jogadores podem ser bons ou ruins. Mas não há amadores nesse estádio. Exceto os da arquibancada que não são de nenhuma torcida uniformizada. Eventualmente são inocentes úteis capazes de provocar briga com quem não tem nada a ver com isso,  porque se entusiasmaram com um ou outro jogador de um dos times. Aqueles que não são torcedores mas adoram o futebol – a política – e assistem ao jogo sem paixão lateral, pelo prazer de ver tombos, dibres, entortadas, lances toscos e jogadas espetaculares – até mesmo gols – são os que têm potencial para ver amplamente o desenho das jogadas, se divertem muito mais. 

É por isso que assisto os jogos pela TV, um olho no campo, outro sempre  na bola – a política – e nas forças da física que sobre ela incidem. São as variáveis que determinam sua trajetória: o toque de trivela, a falta cobrada em curva, o pênalti com paradinha, o escanteio com mais ou menos força, a envergadura para a defesa do gol. E de vez em quando o juiz com motivação de puxar para um ou outro lado, influenciando diretamente no resultado.

terça-feira, 7 de abril de 2015

DILMA II: SEM DIAS DE GOVERNO


Se para comemorar os 100 dias os dignatários do desgoverno da regovernanta destepaíz forem a público afirmar "mentimos organizadamente", ninguém vai se se espantar. Pacote de mentiras básicas deve fazer parte da estética Dilma. E o ponto é esse: estética. A República Popular do do PT tem o dom de fazer parecer que tudo o que faz é raro, especial, diferenciado, e de alguma forma espetacular, e que só porque ela diz, resolverá os problemas da nação - que não tem problemas, pois foi salva durante os oito anos da versão das Trevas do Lula e dos primeiros quatro anos de competência da gerentona.

Na "celebração" dos [sem] 100 dias da presidente-herdeira-de-si-própria algo pode ser identificado como relevante? Algum projeto apresentado com ineditismo brilhante? Nada. Nem os problemas, que já se acumulam, conseguem ser novos: obras antigas como a Transposição do São Francisco, só para citar uma, empacadas, seja no papel e uma ou outra no canteiro; estradas, portos e aeroportos imprestáveis, menos em Cuba e outras republiquetas com tiranos amigos no governo; saúde pública destruída; alta dos combustíveis, perda de direitos trabalhistas e previdenciários, alta de impostos e tarifas de energia, tudo isso apesar da cara de pau da candidata em negar que faria o que fez nos seus sem dias de governo.  E o Petrolão, não é novo? Não, imagina. Prorrogação do Mensalão porque 7x1 foi pouco.

Nenhum avanço em nenhum programa social, exceto na propaganda. Aliás, trocaram o ministro da propaganda por um petista nato, o que significa mais propaganda de mais mentiras. A erradicação da miséria, que Lula já havia extirpado e que Dilma insistiu no primeiro mandato que estava combatendo vai ficar pra depois, já que o número de miseráveis aumenta. Mas nesta data querida Dilma prometeu #HumanizaRedes que, a exemplo de qualquer outro programa, não funcionará, exceto para mimar a própria militância que é quem mais promove a desumana calúnia, o desumano desacato, a desumana ofensa na internet. Mas com um programa humanizado pra imprensa divulgar como "ação de governo"  todos passam humanidades no escuro porque a luz subiu demais, sem sair do lugar porque gasolina está cara, comendo menos porque o aumento de preços é semanal no supermercado e sem ir à escola na Pátria Educadora que cortou cerca de 30% dos investimentos em educação. 

Finalmente, lá vem ela... a cereja do bolo: a inflação. A única coisa realmente forte nesses 100 primeiros dias de desgoverno. Chegou com tudo, disparada de preços generalizada, diante da inércia da "equipe econômica" do Joaquim Levy que é samba de uma nota só: ajuste fiscal, ajuste fiscal. Leia-se, mais impostos para os trabalhadores arcarem com a incompetência, irresponsabilidade e claro, manter a corrupção funcionando bem - essa não falha. 

Para compensar tudo isso, nos sem primeiros dias já houve troca-troca nos ministérios e ainda há partido aliado que cooptou o DEM para fundir-se e assim fazer parte do rateio de cargos para o agasalhamento da base aliada ao Planalto que não, não vai muito bem, obrigada. Mais gente inútil, incompetente, com orçamento de publicidade para propagar o que eles têm de "melhor".

Na realidade, tudo não passa de um halo de mediocridades que não chega a lugar algum, uma vez que é só falação. O grande poder que o estado petista teve outrora foi fazer de seu estilo desprovido de caráter, responsabilidade e competência, algo desejável. Claro, com a ajuda indefectível da imprensa que coleciona calos nos joelhos, em permanente esforço para eternizar-se como a casta hipócrita destepaiz. Mas este cenário de Inferno, onde o estado são os outros, não está mais seguro como em tempos recentes. Agora tem gente na rua dizendo NÃO, DILMA! Não somos idiotas! Agora tem panela gritando durante o Jornal Nacional quando as mentiras pululam. São 100 dias. Cem dias sem dias de governo mas com um povo sem dias de cegueira absurda. E lembrem-se, são cem dias em que Dilma contou com o PMDB sem dias de lhe dar descanso, investindo ora às claras, ora não, para enfraquecer Dilma e o seu governo. 

Uma governante que entrará para História pela história de desmandos criminosos em seu governo. Nós temos 100 dias de indignação. #ForaDilma #RenunciaDilma